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AYHAUSKA
É A MESTRA NO CAMINHA DE IÓ

Ana Vitória Vieira Monteiro

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Ayhauska é a Mestra no Caminho de IÓ
Ana Vitória Vieira Monteiro

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Fonte digital:
Documento da Autora

© 2001,2006 Ana Vitória Vieira Monteiro


IN MEMÓRIA

dos
avós
          Miretta Lacerda
          e
          Vitoriano Perea
do
pai
          Pedro Vieira Monteiro
          e
          Lauro dos Santos Lima
da
neta
          Nélcia Penha Gomes
da
cunhada
          Mariana Gil Gomes
do
filho
          Guilherme Gil Gomes


GRATIDÕES

Dedico este livro à Deusa Mãe. Confio aos que ouviram e falaram com os Deuses sempre vivos, e aos que com Eles convivem

À
mamãe
          Philomena Lacerda Monteiro

Aos filhos
          Daniel
          Vilma

Aos dedicados colaboradores, sem eles não haveria possibilidade deste trabalho ser feito.
          Alexandre Gomes de Queiroz
          Beth Carpineli
          Aleyona Canedo da Silva
          Marcos Di Cicco
          Joaquim De Campos Salles
          Rogério Ciryllo


Ayhauska
é a
Mestra no Caminho de IÓ

Ana Vitória Veira Monteiro


INTRODUÇÃO

     Esta obra é fruto de experiência única, obtida por meio de uma Planta de Poder, a Ayahuaska, aliada à Magia do Mito com os deuses ancestrais.
     A realidade é mais fantástica do que a ficção e a auto-iniciação é uma realidade da qual não imaginei ser possível nos dias de hoje, por esta razão brinquei com ela mas ao escrever percebi que aprendi a não me auto-iludir pensando que tudo seria uma brincadeira ou a cair na tentação de misturar realidade com ficção, por inibições pessoais. Por esta razão que tive que usar o meu discernimento, para citar nomes, datas e lugares sem recorrer a apelidos. Detalho cada passagem importante nos “rodapés ou comentários” e algumas fotos para ilustrar o que pode parecer inverossímil.
     Foi ao seguir uma sugestão interna fruto de minha rica imaginação, que eu me vi percorrendo os Caminhos de I Ó pensando que podia jogar impunemente com os deuses.
     Tive a experiência de tomar o misterioso chá de Ayahuaska — foi um caminho sem volta — hoje ao escrevê-la tento abandonar a história que eu vivi, pois este esforço me obrigou a estar dias seguidos recordando, nos menores detalhes, cada um dos eventos de minha vida, assim ao doar para os leitores sai de minha memória, livrando-me da acomodação do passado.
     Segui o meu fio condutor a intuição que me levou ao aprendizado da linguagem dos sinais das Plantas Sagradas, que como todo sistema esotérico possuem um sistema simbólico de notações de seus respectivos ensinamentos. Todos os deuses e deusas representam forças da Natureza e princípios espirituais fundamentais. Descendo da misturas de várias culturas pois sou brasileira e todo brasileiro tem várias origens, e acomodar as múltiplas crenças dentro de si sem ficar descrente ou neurótica foi o meu desafio. Carrego dentro de mim os deuses da floresta, os orixás, os mitológicos deuses gregos, egípcios, a tradição dos hebreus e romanos. Silenciar suas vozes ou deixá-los falar tornou-se um desafio a ser vencido pois todos querem existir.
     No Universo os opostos complementares buscam o equilíbrio visando ir além de suas diferenças, podendo abalar estruturas radicais de certos princípios das mais variadas escolas filosóficas que, guerreando entre si, tentam elucidar o mistério do Bem e do Mal. Estava escrito no Céu tudo o que aconteceria e aqui está relatado com todas as letras.
     Pertenço à TRADIÇÃO que aceita Espírito e Ciência; Arte e Magia, que trazem dentro de si mensagens através dos Auto-Iniciados. Não titubeio em navegar nessas águas. Por estes canais, entrei e saí de vários estados de consciência, abrindo o contato com outras energias e formas de vidas inteligentes, habitantes do nosso pequeno Planeta Azul.
     Não entro nas questões de cunho pessoal, reservo isso para outro momento, pois não é possível tratar de um assunto tão importante como a auto-iniciação e falar de família ao mesmo tempo, onde tudo é tão intenso, no entanto não fugirei ao tema.
     Como sou racional, moderna e preocupada com os avanços tecnológicos, pareceu-me surpreendente que valores do passado remoto da humanidade possam surgir com força suficiente para provocar situações de risco e abalar sólidas estruturas do meu inconsciente humano. São estes motivos que me levaram repensar sobre conceitos de vida, proporcionando melhor aceitação das diferenças, assim pude buscar convivência em harmonia, junto de minha família e da na próxima Era de Aquário.
     As Forças de iniciação agiram no dia a dia de minha vida como um grande técnico, armando laços invisíveis numa trama surpreendente.
     Esta é a estrada trilhada por uma rebelde. Nela encontrei o fator surpresa através da AYAHUASKA, que estraçalhou meu medo e me levou por caminhos nunca antes imaginados.
     Ao jogar com a Deusa IÓ fui levada a fazer a minha auto-iniciação que provocou o cair dos véus de Ísis e a Ayahuaska foi a mão que puxou este véu e o fogo que queimou a ponte.
     Quero trazer boas palavras, contando sobre conhecimento contido na memória arcaica dos povos da floresta, no sentido do ser humano não esquecer da grande Mãe Terra e que ela ainda não abdicou do direito de cuidar dos SEUS FILHOS.
     Ela se prepara no sentido de se harmonizar com o grande Pai Cósmico, pondo por terra todas as filosofias partidárias mantenedoras do povo escravizado no dilema entre o Bem e o Mal.
     Com as mudanças de todas as estruturas, cheguei à compreensão que o ser humano deve viver em paz utilizando-se da arte como veículo. A arte, não conhecendo limites, desvinculou o sentido das religiões e do Estado, pude resgatar o poder e o direito de todo o ser humano de representar o Divino e vê-lo presente em si e na pessoa do próximo.
     A realidade do peso de uma programação verbal que foi usado no dia à dia por mim. Era meu desejo inconsciente, prever, antever e arquitetar, tudo isso através da força de suas palavras.
     Percebi que a magia dos rituais religiosos e o teatro estão firmados na repetição didática de palavras. Esta ação é repassada ao cotidiano nas cerimônias de formaturas, casamentos e outros acontecimentos da sociedade. Estão presentes também nos momentos que eu quanto mãe comparei meus filhos a outras pessoas (invejei), ou mesmo no valor que dei à opinião alheia, ou ainda no que a Mídia detecta nas pesquisas de opiniões, (opinião pública dos vizinhos e conhecidos)

Ana Vitória
São Paulo 20 de fevereiro de 1997


ADEUS

     Percebi que precisava mudar tudo na minha vida radicalmente. Ir a algum lugar distante, ao umbigo do mundo, nas entranhas do mundo

     Já que não posso voltar
     ao ventre de minha mãe,
     começo de novo.
     Tudo.
     Sair do país.
     Ouvir outra língua,
     outros costumes,
     ser estrangeira.
     Quero ir para bem longe,
     onde ninguém me conheça,
     e nem jamais
     tenham ouvido falar de mim.
     Quero ficar com saudades
     daqueles que amo.
     Poder voltar
     a eles
     sem mágoas, sem dor, sem medo.

     Visito o ex. amor.
     Entrego a aliança.
     Dou.
     tchau e “bença”
     ao passado e
     sem voz para gritar,
     murmuro: Adeus!


CAMINHO DE I Ó

     O TREM partiu vagaroso e, através da janela, vi a Estação da Luz em São Paulo ficar para trás. Acenei aos meus filhos e à prima Iara.
     Relaxei. Despreocupada, pensei no que faria no tempo disponível, além de desligar-me dos padrões sociais e familiares que estava acostumada a viver.
     Na cidade de Bauru trocamos de trem. Aproveitei o tempo do longo percurso para conhecer melhor meus parceiros de viagem; um casal de amigos da prima Iara que por minha sorte queriam alguém para acompanhá-los neste percurso e dividir as despesas. Eles eram alegres e inteligentes, sabiam tudo sobre o mundo andino bem o oposto de mim, que estava descobrindo agora, a bem da verdade tinha comprado um livro para orientar os viajantes na América Latina que deveria ler durante a viagem de trem, naquela hora eu só tinha uma certeza iria para CUZCO a capital dos INCAS.
     No minúsculo compartimento do carro leito, é meu hábito, meditar antes de dormir. Logo depois, surgiu-me do nada a maravilhosa idéia de interiorizar os jogo olímpicos, como um mecanismo de auto-iniciação, imediatamente comecei a elaborar o jogo, assim como se alguém de um outro plano estivesse ditando.


JOGANDO COM A DEUSA

     A “competição” teria como obstáculos à ignorância, o orgulho, o ciúme, a inveja e o ego. Deveria suspender todas as guerras no período de duração do jogo. À medida que fosse vencendo essas provas, teria o privilégio de abrir um diálogo interior com o astral. No final, a “coroa de louros” seria a pacificação do espírito. Segundo as normas antigas, o atleta esportivo oferecia o seu jogo a alguma divindade.
     Concentrei-me novamente e me veio à mente a deusa IÓ, meu jogo seria oferecido a ela. As lições a aprender seriam passadas através de pistas baseadas em seu arquétipo. Como gosto de mitologia não tive dificuldades em saber seu significado. IÓ é um Mito muito interessante: tinha sido aprisionada por ordem de Hera e estava sendo vigiada pelo monstro de cem olhos, mas com ajuda de Mercúrio conseguiu se livrar e assim pôde fugir da Grécia. Andando mundo a fora, IÓ encontrou o Criador Prometeu, que apesar de atormentado por uma ave que bicava seu fígado, ainda conseguiu indicar a ela o caminho ao Egito. Chegando lá, IÓ fundou novo reino ensinando as vogais A E I O U, as letras B, T além do símbolo ÔMEGA e o culto à Mãe Terra.
     Animada continuo dando asas à minha imaginação — Na antiga Grécia havia o Pentatlo, nome coletivo dos cinco exercícios que constituíam os jogos. No meu jogo, cada exercício seria representado por cada uma das cinco vogais, acrescidas das suas duas letras. Deveria decifrá-las, vivenciar as lições simbolizadas por elas.
     Deduzi rapidamente que as letras correspondiam a valores numéricos perpetuados no alfabeto iniciático das cartas do tarot egípcio. Era um esquema de cosmovisão dos iniciados da antigüidade. Sendo assim, em cada estágio, eu me orientaria pelos Arcanos Maiores do Tarot, que coincidentemente estavam comigo. No entanto nem desconfiava do que isso iria acarretar para a minha vida, as mudanças radicais por que eu passaria dali para diante, chego mesmo a pensar que tive uma vida até este momento a partir do término deste jogo tive outra vida, e o que desejo relatar é justamente o percurso da TRANSFORMAÇÃO.

*

     Na Bolívia, no ano de 1982 eu era apenas mais uma viajante desconhecida. Senti-me livre. Estávamos na estação de trem da cidade de Quijarro, lotada de andarilhos brasileiros, franceses, germânicos e nativos, sentados ao lado de sacos feitos de panos coloridos, imensos. Todos numa eterna espera por alguém que vai chegar ou então para partirem.
     Conversamos animadamente, ensaiando o portunhol, quando um nativo me chamou a atenção pela sua altura maior do que o comum, forte, moreno, que estava ao nosso lado correspondendo ao meu olhar aproximou-se ao ouvir meu nome, perguntou:
     — Tu nombre és Victória?
     — Vitória — respondi assustada. Gargalhei nervosa e admirada pela sua iniciativa rápida.
     — Pero tienes un bello nombre, no deverias despreciar-lo.
     —Eu, como?
     Continuei, displicente. Ele, com um meigo sorriso, olhava-me com olhos de quem me vira antes. Continuou falando bem devagar:
     — Tu destino és vencer y para vencer, tienes que conquistar com calma y paciência.
     — Como?
     — Si, hay un dicho que dice asi: “A quien nada le pasa, no tiene nada que vencer".
     Meus amigos se impacientavam ao ver-me conversando com estranhos, devo esclarecer que eu não os conhecia, sabia apenas não eram namorados e que tinham a mesma profissão, eram psiquiatras; e de mim eles também sabiam pouco, que eu tinha acabado de me divorciar do radialista Gil Gomes e que iria fazer terapia assim que voltasse daquela viagem. Mas sentindo que estava diante de uma pessoa incomum e arrisquei perguntar mais coisas. Meus colegas faziam gestos inúteis no ar.
     —Como posso vencer?
     — Para realizar la victoria que tu nombre atrae hacia a ti, deves salir de lo convencinal y del cotidiano. Porque la victoria pide una entrega absoluta.
     — É difícil — disse aflita.
     — Basta vencer el miedo.
     — Falando, parece fácil!
     — Deves aceptar el desafio. Aceptas?
     — Aceito!
     Nisso o temido trem da Morte chegou com dois vagões apenas e com muita carga. O corre-corre começou, provocando enorme confusão de bagagens, animais e pessoas. Fui no trem e aquele homem ficou.

*


O CAMINHO DO E

     Sem parar, passamos por várias cidades, seguindo o roteiro pré-estabelecido por eles, o que achava muito bom, apesar de sempre perguntarem a minha opinião antes, mas como eu vinha de um divórcio recente em que passei obedecendo, o tempo todo, automaticamente repetia o mesmo comportamento. Apesar de eu ter a esperança de que naquela viagem poderia voltar mais independente, ser eu mesma novamente. Mas só o fato de não precisar cuidar de ninguém, isto é dos três filhos, era uma maravilha, nem eu imaginava o quanto estava estressada, precisando dormir uma noite inteira sem interrupção e sem a preocupação do que deveria fazer no dia seguinte. Achava uma benção ter encontrado estas duas pessoas na minha vida.
     De novo estava no vai e vem do trem, só que agora em direção a La Paz. Na viagem fui surpreendida por imensa dor de cabeça provocada pela altitude. Estávamos muito acima do nível do mar.
     A dor de cabeça foi superada ao vislumbrar o acender das luzes da grande cidade encravada na terra. O trem fazia caprichosos círculos pelas laterais e encostas da montanha.
     Participei com prazer quase infantil da disputa pelos melhores lugares junto às janelas, queríamos fotografar e registrar a visão panorâmica estupenda. O trem continuava em movimento espiralado, descendo vagarosamente até atingir o imenso vale. Parecia até que estávamos entrando numa grande cratera de vulcão.
     Ao chegar, descobrimos que havia greve geral de transportes que durava vários dias e que não acabaria naquele momento. Irritadíssima, sentei-me no meio fio da calçada ao lado das malas e chorei. Desejei que La Paz fosse de fato um vulcão em erupção, e que explodisse com as malas e com a dor de cabeça, levando tudo pelos ares. Meus companheiros me ajudaram a carregar as malas, pois sentia-me arrependida de tê-las trazido.
     Continuei chorando por três dias ainda, devido à forte dor de cabeça que não me deixava em paz. Parei ainda chorando num bar para tomar um suco e o proprietário, notando meu evidente mal estar, perguntou:
     — Aceita tomar um chá especial, bom para esta dor de cabeça?
     — Sim, qualquer coisa que acabe com esta dor.


A HISTÓRIA DAS FOLHAS DE COCA

     Rapidamente ele serviu um chá de folhas de coca em saquinhos, industrializados, explicando em um razoável português: É bom remédio, vaso dilatador, anestésico, inibidor da fome. No império Incaico era usado com fins medicinais ou ainda associada a outras plantas em rituais sagrados. Quando os invasores a descobriram, um Amauta sentenciou: “Para nós esta planta é uma benção, para vocês será uma maldição”, prevendo a distorção de seu uso.
     Com o chá nas mãos, afirmei: Concordo plenamente com o Amauta, mas será que não tem jeito desta maldição ser tirada?
     — Não é uma maldição é uma constatação.
     — Sim como se faz para parar com isso uma vez que está acabando com a juventude?
     — Tem um jeito sim. Parar totalmente de desrespeitar esta planta, o seu espírito negativo, e é só todo o mundo parando de usar em pó branco o que é folha verde para melhorar, ela a planta, está matando como o fumo e a cana que produz álcool, não há controle, são forças telúricas poderosas, que atraem para quem as toca desta forma o pior que existe no mundo, com tanta sedução que a pessoa não se dá conta que é dominada, não dominante poderosa como pode pensar que seja.
     Depois de um meio silêncio para me servir mais chá continuou: Conhece a história dos Amautas?
     — Sim, claro!
     — Irá a Tiahuanaco?
     — Vim para isso.
     — Gostaria de aconselhá-la a ver primeiro a imagem de EKEKO reproduzida em pedra.
     — Sem dúvida.
     Acabei me tornando sua freguesa diária pois a cada dia este homem que deve ter percebido a minha total ignorância sobre seu país ia me contando histórias e mais histórias sobre o seu “misterioso” mundo. Seguindo seu conselho, fui visitar o Mito mais antigo da humanidade o EKEKO com dez mil anos de história.
     Acreditando realmente na força do poder de EKEKO pedi a ele “EKECO” proteção e força para esquecer as humilhações e mágoas sofridas.

[imagem]

Ao curvar-me para colocar flores no patamar da imagem, encontrei um pacote de 500 dólares em notas de 10 para espanto de meus amigos.

     O nativo transeunte que presenciou tudo e percebeu minha perplexidade diante do fato ocorrido contou-me que era um presente deste deus. Esta divindade costumava surpreender as pessoas, presenteando-as. Aconselhou reverenciá-lo regularmente com oferendas de flores, chicha (bebida feita de milho), cigarros e música. Para mim foi um milagre total, para meus amigos intelectuais céticos, foi sorte; como eles não acreditaram que foi o Ekeko quem me deu os dólares eu não dividi nada com eles, no entanto dei uma das notas do maço para o nativo que não aceitou.

*

     Registrei a primeira vogal, achando que se as coisas fossem assim seria muito divertido. Para decodifica-la recorri ao meu conhecimento sobre numerologia, que indicou o valor numérico de cada letra do alfabeto e o seu significado interior. Ciência esta que nos leva a um relacionamento íntimo com a inteligência do universo, graças a Pitágoras o pai da matemática, que dizia “os números representam qualidades, os algarismos quantidades.”
     Ao estudar as vogais senti que pareciam com as ondas do mar, cada vogal ou letra parecia uma onda, que ia e vinha. As vogais com as quais eu iria trabalhar eram cinco, e duas letras, portanto ao todo somavam sete, coincidentemente nasci no dia sete.
     Mais rápido do que pensava estava percorrendo o caminho da auto-iniciação. Para saber os detalhes da lição da vogal E usei o conhecimento dos Arcanos do Tarô e o quinto arcano corresponde à letra He no sistema cabalístico, deduzi que iria trabalhar a minha impulsividade.
     Os meus companheiros de viagem ficaram tontos com a descoberta que fizeram ao meu respeito, eu era mística, e já que eles sabiam não escondi mais meu baralho de tarô, e falava livremente sobre o que eu pensava.
     A médica não se contendo disse rindo: Olha Ana se perguntarem eu vou dizer que somos médicos psiquiatras o que é verdade, acompanhando você que é nossa paciente, pois você toma muitos remédios e não pode andar sozinha, e depois da viagem vai voltar para o sanatório, está bem?
     Não preciso dizer que eles falavam mesmo isso para as pessoas, o que se tornou gozado pois teve viajante que queria montar esquema para a minha fuga, e quando contei isso eles pararam de falar tal coisas, se desculpando, sinceramente.

     Vogal E — EQUEKO: serenidade.
     Cor: branca.
     Valor numérico: cinco.
     No plano Arquétipo, o número cinco é a Árvore do Conhecimento do bem e do mal.
     Representa o majestoso, e a liberdade é nossa primeira respiração Vital =Início de um caminho.
     Provas deste estágio:
     1) Opor-se à tentação que se aproxima;
     2) Não tirar proveito da vitória obtida pelo próprio esforço ao vencer a indiferença da pessoa do sexo oposto;
     3) Provar ter capacidade de realizar determinado trabalho, cumprir sua missão, guardar segredo. Produzir.

          La Paz 8 de agosto de 1982


COMENTÁRIO: A lição de Equeko, para mim foi vital, pois se tratava da sobrevivência de ganhar o meu próprio dinheiro, não depender mais de terceiros. Queria tirar de cima da minha genética psíquica a miséria e a incapacidade, que em cada geração pegou um membro de minha família.


LENDA DO IMPÉRIO INCA

     Subimos as encostas que circundam La Paz. Já no planalto andino chegamos a Tihuanako, outrora importante centro religioso e militar cujas estradas ainda guardam as marcas dos povos antigos. Este território era ocupado também pela nação Aymará.
     De longe avistava duas portas, que tinham talhados em si ideogramas que no seu conjunto manifestam os pensamentos, a cosmovisão e a lógica dos povos Andinos. Na Porta da Lua está representado o Calendário Venusiano dos movimentos lunares.
     A Porta do Sol, originalmente, era revestida de placas ouro, na qual estava talhado um calendário de astronomia, que era consultado como Oráculo pelos sacerdotes Amautas. Esta porta é o último marco vivo da antiga rota marítima entre os continentes Mú e Atlântida.
     Os povos fiéis à tradição comemoram no dia 23 de junho o fim de um ano e o início de outro. No dia 23 de setembro, às 10:30 da manhã, ocasião em que o Sol se posiciona exatamente no centro da Porta. Hoje, durante as festas que eram presididas pelo Inca, um ator cuidadosamente escolhido o representa. Ao seu lado localiza-se o Templo dos Amautas de Kalasasaya. A Porta é um marco fiel que cumpre ainda sua função. Lembrei que estávamos no ano de 4.524 do calendário incaico.
     Tudo caiu menos ela.
     Esqueci as recomendações do Oráculo de minha juventude e repeti inconsciente o gesto milenar de reverência ao Sol, que tem sua representação em imagem esculpida no alto da Porta, carregando um bastão em cada mão. Senti que o Oráculo não fora desativado pelo tempo. Falou comigo, mostrou cenas do futuro.
     Uma lenda dizia que antes do mundo existir, quando nem estrelas havia no céu, existia Tiahuanaco e nesta região surgiram doze Amautas. Em igualdade de sabedoria, mas sentindo falta de liderança. Então, inspiraram-se numa cena da natureza que os inspirariam a decidirem qual deles iria liderá-los: “Morreu uma lhama e em volta dela juntaram várias aves de rapina, porém nenhuma delas se atrevia a comê-la. Somente depois que o condor real saciou sua fome e se retirou foi que o resto das aves completou o banquete”. Assistiam a cena os doze sacerdotes conhecidos como Amautas. Chegaram à conclusão que quem deveria liderá-los era o mais velho e sábio, o de maior transcendência espiritual.
     Depois de terem resolvido a questão da liderança espiritual, os Amautas, por ocasião do surgimento dos Incas, colocaram os seus conhecimentos a serviço destes.
     Pisei o mesmo chão, ouvi a voz do vento vinda das áridas colinas, olhei o que restou da pirâmide, senti o cheiro de mar. Ao lado do imponente muro com rostos em alto relevo de pedras, registrando os traços predominantes de todas as raças possíveis na terra, e também estátuas de pedra de homens com seis dedos nas mãos e nos pés.
     Ao passarmos por Sillustani entro num círculo de enormes pedras, saúdo o Sol, reverencio a Terra e reenergizo-me.
     Logo depois, fomos à cidade de Copacabana, ponto de muitas iniciações. Local que está hoje a Igreja da Virgem índia esculpida em 1800, às margens do lago Titicaca. Na época Lemuriana este lago foi porto de mar antes que o continente Mú afundasse. Vista do alto do avião lembra cabeça do Puma. No centro de suas águas encontram-se as ilhas do Sol e da Lua, de onde o casal de irmãos Incas veio e imediatamente foram identificados como Filhos do Sol, aceitos pela população como legítimos governantes.
     Tinham a missão de unificar os povos da Cordilheira dos Andes através do sistema de Federação, com o nome de nação Kechua, falando um só idioma. Tinham de introduzir a filosofia Solar, proibir a antropofagia e os sacrifícios humanos. Impor somente três leis: não mentir, não roubar, não ser preguiçoso. Para esta nação seria cobrado imposto de 2/3 da produção. A capital seria o local que o cajado de ouro entrasse fundo na terra, sem resistência O Império Incaico se estendeu aos quatro cantos conhecidos como TAWANTISUYO.
     A busca da Capital levou de 20 a 30 anos. Por onde passavam, construíam relógios solares, dividindo o dia em quatro períodos.
     Estes lugares até hoje são palco de iniciações esotéricas. Levaram a Cuzco as melhores e mais inteligentes pessoas daquelas sociedades, formando uma grande e forte nação.
     Não puderam contar com a adesão dos Otavalos, Shaninkas e Uros, eternos rebeldes. Recusam-se a mudar seus hábitos tribais.

*

     Finalmente chegamos a Cuzco. Apesar de nunca ter estudado sobre os Incas, algo em mim sabia tudo sobre este império dourado “estranhei não ver o teto das casas cobertos com fios dourados de ouro. ”
     Cuzco, Cidade-Estado centro do poder Solar Inca, viveu no apogeu provavelmente por 400 anos. Estava na fase de consolidação do poder quando em 1492 os europeus chegaram à América: Cristóvão Colombo em São Salvador e Pizarro em Tumbes, no Peru. Trouxeram em seus navios dois irmãos em disputa de poder, Ferdinando e Francisco Pizarro, e um inimigo comum, Don Diego de Almagro. Em 1500 chega ao Brasil, Pedro Álvares Cabral.
     Nos Andes, o Inca Huayna Cápac governava e ampliava seus territórios até o Reino de Quito. Logo estabeleceu o Império e também gerou um filho ilegítimo (Atahuallpa) com a princesa do antigo governo recém conquistado. Numa consulta ao Oráculo descobriu o eminente fim do Império Solar. A notícia se espalhou e outros Oráculos confirmaram a profecia. Todo o povo chorou e lamentou antecipadamente.
     Chegando em Cuzco mandou construir Machu Pichu (Montanha Velha) como ponto de observação, sentinela avançada, e manteve sob segredo. Tomou iguais providências em relação a outras cidades importantes de seu Império. Em 1526 Huayna Cápac morreu e seu sucessor legítimo, Huáskar, sobe ao trono do Sol.
     Atahuallpa, ainda adolescente assumiu o Império de Quito, incitado por sua mãe e cortesãos a iniciar guerra civil contra Huáskar, que prontamente vai a combate. Na cidade de águas medicinais de Cajamarca, no norte do Peru, Huáskar é preso por Atahuallpa que se autoproclama Inca reinante.
     Os espanhóis chegam na América. Atahuallpa impressionou-se com os cavalos, armas de fogo e com a cor de suas pele, iguais às dos Incas. Recebeu-os bem, vendo neles descendentes do Sol, portanto seus semelhantes. Deu ordem que ninguém os tocassem, e os ajudassem em tudo que fosse preciso. Os Incas reverenciados como deuses pelo povo, ao verem os espanhóis, pensaram que também fossem deuses pela semelhança da cor da pele.
     Pizarro pediu reforço de homens à Espanha, ficando em Cajamarca, prudente. O reforço chegou e então foi armado um cerco em volta do castelo. Mulheres e crianças foram seqüestradas; em troca da libertação delas, Atahuallpa foi obrigado a se batizar. Foi preso, torturado e morto como herege, logo depois, por ter jogado a Bíblia no chão, alegando não ouvir voz de Deus ali.
     O conquistador, depois de matar o jovem Inca, encontrou Huáskar preso nos porões, pediu resgate em ouro à população. Recebeu dois carregamentos de ouro provenientes de Quito e de outros lugares. Impressionou-se diante da facilidade com que venceu e pediu mais ouro, que começou a ser entregue. Ambicioso, pensou que podia dominar tudo. Assassinou Huáskar, violentou e matou as mulheres, homens e crianças da cidade. Pizarro, contando com numerosos aliados nativos, marchou sobre Cuzco no ano de 1.533.
     A esposa de Huáskar havia mandado de Cuzco onze mil lhamas carregadas de ouro no sentido de pagar o resgate de seu marido, mas ao ver inutilidade no seu gesto, mandou voltar o carregamento. Acompanhada dos Amautas pegou o Disco Solar do Templo, reuniu os principais quipos e objetos sagrados e também o jardim de ouro. Escaparam pelos túneis até a cidade secreta, Machu Pichu, mandando lacrar em seguida os acessos a Cuzco. Seu filho, o heróico Inca Manco II e os homens valentes ficaram na capital protegendo o povo das atrocidades de Pizarro.
     O novo Inca rebelou-se contra os invasores iniciando uma ação armada no sentido de tirá-los de Cuzco, mas não obtiveram resultado, os espanhóis tinham além de armas de fogo, cavalos, desconhecidos dos Incas.
     Em 1.536 Manco II retirou-se com sua corte. Foram à cidade de Huillka-pampa, conhecida como Planalto dos Homens Pássaros. Em 1.545 travou nova luta. Foi assassinado. Homens e mulheres foram levados como prisioneiros a Cuzco, foram humilhados e estuprados perante o povo em praça pública.
     Manco II foi sucedido por Sayri Tupac que morreu da mesma forma. Em 1560 subiu ao trono o Inca Titu Cursi que morre misteriosamente em 1571
     Tupac Amaru, o novo imperador, tentou se adaptar aos novos tempos aprendendo usar armas de fogo e roupas ocidentais.
     Certo dia, quando estava reunido com os Amautas, eles avistaram no céu um condor brigando com uma águia, que o venceu. O condor caiu morto aos pés do Inca. Os Amautas interpretaram esta cena como um sinal que o Império realmente havia acabado ali. O Inca retirou-se para sempre indo à floresta com sua corte levando consigo tudo o que possuía. Alguns Amautas decidiram acompanhá-lo e outros foram às montanhas mais altas.
     O Frei Ortiz foi morto em Marcanay quando iniciava uma ação armada, que pretendia invadir Huillka-pampa, com um exército espanhol composto por 250 soldados e 1.500 nativos. Eles caçaram Tupac Amaru e ao encontrá-lo, levam-no a Cuzco aprisionado, onde foi julgado por heresia. Foi torturado e decapitado ao lado dos 100 guerreiros encontrados em sua companhia, no dia 24 de setembro de 1572.
     Em 1595 os restos mortais de Frei Ortiz foram transportados de Huillka-pampa a Cuzco em pompas religiosas. Os nativos são escravizados, na minas de prata, cobre e estanho, sendo quase todos dizimados. Mas em 1824 os espanhóis foram expulsos pelas Tropas de Antônio José Sucre em Ayacucho.

     Presume-se que os descendentes diretos dos Incas sobreviventes acompanhados dos Amautas, entraram na Floresta desaparecendo até os dias de hoje.

*

     Depois de 439 anos alguns agricultores encontraram a Cidade Sagrada abandonada, com esqueletos de mulheres e brinquedo de crianças, além de peças domésticas em ouro.
     Em 1911 o explorador Hiram Bingham encontrou restos de ouro espalhados nos cantos, revelando existência de Machu Pichu ao mundo.
     Andei por Cuzco como se conhecesse a cidade de longa data. O antigo me era familiar e ao mesmo tempo todo o moderno não o era. Aproveitei o dia mandei inúmeros postais aos meus filhos.

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MACHU PICHU — RESISTÊNCIA DE UMA RAINHA

     Em poucos lugares a alma da América Latina é tão transmitida como em Machu Pichu, a cidade de pedras. Nas montanhas o ponto mais alto é Huaynu Pichu, o Templo da Lua. Estratégica sentinela de onde se avista tudo em volta. Abaixo, no ponto oposto, está Porta do Sol. Impossível de ser avistada da pequena estrada, somente quando estamos muito próximos é que conseguimos vislumbrá-la.
     Absolutamente autônoma, com campos de agricultura em sua volta. Permaneceu oculta aos invasores durante anos depois da conquista espanhola. Contam que, provavelmente, é ligada por túneis a vários pontos da América Latina.
     Conferi a hora pela terceira vez pelo grande relógio solar feito em uma pedra única. Percorremos as casas de poucas dependências, revelando a inexistência de grandes construções. Carregava na bolsa as cartas de tarot com intenção de consultá-lo assim que encontrasse o lugar ideal.
     Deparei com uma casa de pedra como as outras mas diferente pois seu formato era circular, sem teto nem janelas. Mentalmente pedi permissão para entrar, aos guardiões do local. Coloquei o pano no chão e acendi um incenso, cuidadosamente peguei o meu inseparável tarô, embaralhei as cartas e, concentrada, joguei visando o futuro. Depois, meus companheiros que antes estavam descrentes, fizeram suas consultas. Sem notar formou uma pequena fila de turistas do lado de fora da casa. Joguei para eles a tarde inteira, com a colaboração do médico companheiro de viagem que traduzia tudo para o inglês, achando tudo muito louco devido ao grau de meus acertos. Ao sair o guarda também pediu uma consulta e me contou com ares de admiração:
     — Senhora, ninguém costuma entrar nesta casa!
     — Desculpe-me a intromissão.
     — A casa é do Inca! Só a senhora fez isso! É xamãna?
     — Não, não sou xamãna. — disse admirada.
     Nada convenceria esse homem que, respeitosamente, ao sairmos, implorou por uma bênção. Concordei em abençoá-lo, fazendo-o pela primeira vez. Não sei quem ficou mais gratificado, ele ou eu.
     Percorremos o caminho da direita e lá está ela: a Porta do Sol, que permaneceu secreta por mais tempo que o próprio Império, graças à resistência e determinação de uma mulher, a última Imperatriz deste povo — Rumi, nome que dei a ela na minha peça O disco Solar anos depois.

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     NAS CERCANIAS de Cuzco, além da soberba beleza natural, havia muitas ruínas ainda não exploradas. Decidimos andar pelos arredores seguindo apenas nossa intuição, sem roteiro. Foram passeios diários por vales e montanhas.
     Depois de seguir por estradas de terra como se tivéssemos sido guiados por alguém, chegamos a Qrikancha e logo viramos à esquerda, parecendo saber o que iríamos encontrar.
     Chegamos ao Templo da Lua, pequeno anfiteatro ao ar livre de origem pré-incaica, com uma pedra retangular preta virada em direção à beira de um imenso precipício que se encontrava ao lado de vários buracos vazios semelhantes a túmulos.
     Curiosa, subi na pedra, deitei-me olhando as pontas de meus pés vejo o céu azul límpido, sem nuvens, contemplo extasiada a abóbada celeste, acompanhada de indescritível leveza e infinita paz. Senti que este seria o melhor momento para se morrer. Suavemente entreguei-me.

[imagem]

Senti que um dia eu deveria morrer neste lugar e não o fiz. Para não deixar pendente esta morte aos deuses locais, ritualisei o meu sacrifício, senti que morri mesmo, de verdade. E nunca mais tive a sensação de que alguma “coisa“ pedia o sacrifício de minha vida. A sensação que tive foi que seria maravilhoso morrer assim.

     O amigo de viagem ao lado, com olhos estatelados e faca nas mãos, avançou diretamente sobre meu peito. Levei um tremendo susto e acreditei que iria morrer de verdade. Gritei assustada, saindo do transe. Quando me virei de lado vi que havia talhada na pedra, na altura do coração, uma fissura destinada a escorrer o sangue derramado nos sacrifícios. E por alguns segundos fiquei grudada na pedra, e o meu amigo bestificado com o que tinha feito. Riu muito dizendo que era brincadeira quando voltamos.
     Naquela hora senti que vivenciei no século XX, por captação, o sacrifício de uma sacerdotisa no século X.

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     QUANDO a sorte está do nosso lado todas as boas coisas acontecem. No mesmo dia quando tentávamos achar o caminho que nos levasse a Cuzco, encontramos um micro ônibus parado, com vários turistas, diante de uma ruína de pedras que formavam um semicírculo.
     Este achado arqueológico era diferente dos demais, pois as pedras não são tão bem encaixadas. Resolvemos nos aproximar, apreciar de perto. A princípio os turistas se assustaram, ao notarem que éramos turistas brasileiros, relaxam. Eles contaram que estávamos diante da ruína de Oenquo.
     Oenquo é um dos 360 oratórios que circundam Cuzco. Uma gruta milenar que abriga em seu interior um pequeno altar destinado a sacrifícios ao deus Puma, animal consagrado à Lua.
     Por precaução, não deitei mais em pedra alguma. Percebi que não era conveniente nem mesmo a captação por pensamentos. Distrai a mente falando mentalmente o meu nome, assim permaneci presente, sem deixar a mente vagar no passado da história, nem entrar na curiosidade dos outros que estavam por perto. Depois de lembrar-me das palavras de minha avó: — “Quando muitas pessoas sensitivas estão reunidas num só local, uma delas dá abertura ao processo de captação, por empatia ou pôr algum outro motivo. Devemos ter bom senso de não sair captando tudo, correndo o risco de ficar com os sintomas da captação, somatizando-os, como problemas reais. Se isso acontecer não há remédio que salve esta criatura.”

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A PRIMEIRA AYAHUASKA

     Procuramos o lugar indicado para tomar uma bebida exótica originária da Floresta Amazônica peruana. Uma planta de Poder meus amigos me disseram, perguntei: O que é isso?
     — Um chá, quer tomar, não é obrigada, uma amiga nossa médica no Acre toma direto no Daime, que é uma religião, foi ela quem nos deu o endereço daqui.
     —Não se preocupe, eu vou, estamos fazendo tudo junto, não há razão para não ir, afinal é apenas um chá.
     — Olha Ana dizem que o gosto é ruim.
     — Vocês vão tomar?
     — Vamos.
     — Então eu vou também.
     À noite subimos a pequena ladeira e eles com o endereço nas mãos bateram numa porta, que um homem atendeu solícito, falaram que eram recomendados da tal amiga e ele nos levou para uma sala e nos fez sentar numa mesa retangular, e nela colocou um frango e disse: Olha preparei isso para vocês, façam o seguinte, balancem um pouco antes de tomar, e depois tomem tudo o que conseguirem e comam um pedaço de frango, e passem a caneca para o outro até terminar tudo.
     Tá, respondo. Ao lado havia quatro homens sentados numa mesa redonda que nos olhavam de lado; achei que aquilo era uma espécie de clube privado.
     A grande jarra chegou até mim, olhei o líquido marrom escuro e grosso, mexi e virei garganta abaixo, depois peguei um pedaço do frango que estava ótimo, e assim fizemos até a jarra terminar. Conversamos por mais um tempo, alegres feito crianças, pensando que isso era tudo. Na realidade me sentia um pouco bêbada, amortecida, mas enfim pensei um porre de vez em quando não faz mal a ninguém. Satisfeitos, partimos a caminho do hotel. Tivemos vários ataques de riso no caminho, então comecei a perceber que estava com uma certa alteração na consciência. Senti que havia uma mudança, o ouvido começou zumbir.
     Os meus amigos falavam de coisas que eu não entendia e me pareceu que eu respondia, sem ter controle do que falava. Resolvemos parar na praça das Armas, encostamos na primeira parede que vimos que foi justamente a da Catedral, que foi construída encima das ruínas do antigo palácio do Inca.
     Coloquei as mãos nas pedras que palpitavam na parede em um só som acompanhando o ritmo do meu coração que já me saía pela boca. Percorri com as mãos as reentrâncias ásperas das pedras junto ao chão. Notei que havia as pedras lisas perto dos tijolos. Ouvi o som de tambores junto com rezas. Ao mesmo tempo surgiram mil cores, vindas de um ponto luminoso, formavam um maravilhoso rendado parado no ar. O impacto dessas emoções era muito grande, tentei raciocinar inutilmente para tentar estancá-las, pois eu me encontrava no meio da rua, descontrolada.
     Falávamos de coisas de nossa infância. Chorei todas as separações. Perdi a noção do tempo e o som da voz de meus amigos se perdeu no espaço, onde eu estava, que lugar cheio de luzes era aquele? Impossível descrever aquelas luzes. Inenarrável, lembro que me vi usando uma máscara de ouro subindo uma montanha íngreme com milhares de pessoas junto, fui olhando o brilho da máscara e me aproximando cada vez mais e era eu quem estava — lá atrás da máscara. Chorei mais ainda e alguma coisa me distorcia o rosto em contrações incontroláveis, algo estava dentro de mim e queria sair, parecia uma planta espinhosa sendo puxada à mão. Que levou uma eternidade para finalmente sair, claro que vomitei feito uma louca. Meus braços viraram troncos de árvore, multiplicados em mil. Mais um pouco quase viro um cristal de tanto brilho e transparência.
     Quando me dei por mim vi meus amigos em estado lamentável como eu já na rua do hotel ele conversava com um cachorro sarnento em francês e ela andava sem destino rindo do outro lado da rua. O que pareceu rápido, durou horas, precisamente 10 horas, a partir da hora em que chegamos na casa do chá. Uma única pessoa poderia contar o ocorrido: o homem de poncho branco que eu vi estava sentado no jardim da praça.
     Ao nos ver bem um ao outro antes de entrar no hotel juramos: Nós não vamos falar sobre isso nem entre nós, está bem, o que se disse aqui não se repete, para ninguém, vamos esquecer tudo.
     — Está bem.
     No dia seguinte senti meu corpo e mente muito leves. Estava falante e me sentindo muito bem. Fui sozinha à catedral convencida, depois da experiência da noite anterior, que lá era ponto de poder. Dentro da Igreja o guia que acompanhava um grupo de turistas, relatava:
     — Aqui foi, na época do Inca, o Templo do Sol. Antes disso era o Templo da Mãe Terra. Agora é uma catedral católica.
     Olhei em volta, feliz. Os templos não mudam de lugar, só de dono. Agradeci por ter esquecido minhas mágoas, não sei se devido à viagem em si, ao local, à bebida do dia anterior ou às três coisas juntas.
     O mesmo guia, conta na porta da Igreja: Neste local foi executado o último Inca, pela Santa Inquisição. Olhei aquela praça e não consegui imaginar a cena deste estraçalhamento e nem do massacre cruel das mulheres da nobreza Inca que estavam prisioneiras.
     Ouvindo o relato todos ficaram indignados, na emoção do momento o guia foi até o centro da praça, virou-se para a catedral, cantou em Ketchua longos versos ao Sol. Observado por nativos que permaneceram paralisados diante de tal coragem. Refiz o caminho da casa em que tomamos o chá e o hotel para ter noção da distância, constatei que era muito perto.

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A NATIVA

     Atravessamos a Cordilheira dos Andes de ônibus com destino a Lima, na costa do Pacífico. Estávamos numa estrada com inúmeras curvas fechadas e íngremes. Percebíamos vestígios de acidentes recentes devido a inúmeras oferendas destinadas a apaziguar os espíritos dos mortos colocados em buracos cravados na encosta, ao longo do trajeto.
     Olhando através da janela impressiono-me com a proximidade daquelas montanhas, último olhar a Cuzco e vi um enorme arco-íris brilhando sobre os picos eternamente nevados que circundam a milenar capital.
     Ao meu lado viajava uma mulher nativa que estava no mesmo local onde havíamos tomado o chá, dias antes. Dirigiu-se a mim, com a ternura de velhas amigas:
     — Você bebeu uma planta sagrada, não “bebida exótica”. Esta planta vai ajudá-la a recordar de si mesma. Sempre que precisar pense nela, na cor, no cheiro e sabor, assim você estará trazendo de volta a força poderosa contida na planta.
     — É verdade, mesmo?
     — O meu pai conheceu vocês na estação de trem, na Bolívia e estava presente quando tomaram a bebida sagrada. Cuidou de vocês naquela noite. Ele é um grande Xamã. Disse que você possui um destino especial.
     — Ele sabe tanto a meu respeito.
     Ela desconversou, enumerou sobre as coisas de seu povo, de seus costumes e de suas tradições.
     Querendo voltou a falar, perguntei:
     — Você é Xamã?
     — Não — respondeu simplesmente, para encerrar o assunto.
     Dividiu comigo o calor da manta de peles de lhamas. Eram trinta e seis horas de estrada íngreme. Ao chegarmos em Lima a mulher foi tão ágil ao sair do ônibus não me dando tempo para despedidas.

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     EM LIMA perguntei-me o que haveria de interessante em uma ex-repartição pública. Este lugar fora anteriormente um mosteiro católico, construído na época da invasão espanhola, passando recentemente por uma reforma bem especial.
     Os pedreiros ao removerem o antigo piso, acharam no sub-solo um alçapão que era a entrada de um porão. Lá foram encontradas várias câmaras destinadas à tortura e farto material que denunciava requintes perversos de criatividade dos padres, usado na época da inquisição no Peru, exposto agora à visitação pública.
     Desacreditei quando vi bonecos de cera representando cenas dos torturados na hora dos interrogatórios. As celas eram espaços minúsculos, cavados na terra, verdadeira gaiola para animais.
     Cadeiras com tiras de couro mantinham os prisioneiros com os pés esticados com fogo sob as solas. Havia também aparelhos com amarras que imobilizavam o pescoço obrigando a vítima a ficar com boca aberta onde introduziam purgantes ou outras coisas. Algumas vítimas eram amarradas em camas com rodas e tinham seus membros deslocados.
     Ao sair observei na porta uma relação com os nomes das famílias torturadas, acusadas de bruxaria, pois discordavam da nova religião que se impunha com o apoio do Estado.
     Em seguida fui visitar o Museu Arqueológico e Antropológico de Lima. Estava em exposição um imenso painel mostrando toda a civilização pré-histórica andina, a partir dos povos Chavin de Huantar, que viveram entre os anos de 1.300 e 400 a.C..
     Encerro minha visita aos irmãos Andinos e começo cumprir o itinerário de IÓ, o longo caminho da vogal E.

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TERAPIAS MILENARES

     Chegando ao Brasil, resolvi procurar uma atividade criativa e que não dependesse de idade ou diferença sexual. Definitivamente não tinha vocação para a carreira do comércio, por isso não aceitei as várias propostas de sociedades de lojas de roupas finas.
     A amiga Gení, comentou que seu filho, estudante de medicina, estava aprendendo acupuntura. Ele explicou alguns detalhes sobre esta milenar ciência oriental:
     — É difícil para eu falar disso mas vou repetir o que meu filho disse: No princípio Deus criou o céu e a terra, quer dizer que o Criador Um se polarizou em duas forças complementares e antagônicas, positiva e negativa — e isso se reflete no mundo e no corpo humano, através dos conhecidos pontos de acupuntura, São princípios eternos que governam todos os fenômenos, visíveis e invisíveis.
     Interessei-me imediatamente pela idéia, e consegui o endereço do curso de aurícula-acupuntura, sem a mínima noção do que realmente se tratava.
     Não encontrei a menor dificuldade em entender a filosofia desta arte onde o bem e o mal não brigam, mas harmonizam-se, descobrindo um mundo novo.
     Depois do curso concluído me indicaram um novo curso de acupuntura a fim de aprofundar o conhecimento. Este ministrado pelos médicos Rui e Eváldo Leite, a quem agora presto as minhas mais sinceras gratidão.

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ACUPUNTURA

     Sem a menor idéia do enorme número de doenças que o ser humano pudesse ter, encontro no curso avançado de acupuntura o médico, que fiquei amiga Dr. Ney, que além de me ensinar sobre o valor transformador do equilíbrio das energias Yn; telúrica — Yang; cósmica nos alimentos, macrobiótica, se encarregou de apresentar-me o mapa do inferno humano. Todas as semanas íamos a hospitais, prontos socorros e necrotérios.
     Coerente com o pensamento do pensamento do lendário Imperador Amarelo, criador do princípio dos opostos complementares In e Yang, ele aconselhava a não perder tempo com os doentes, e sim cuidar dos bons para estes continuassem bons. Dizia o imperador que o homem é um microcosmo e como tal, as leis cósmicas atuam sobre ele assim como fazem na natureza. Qualquer desequilíbrio pode gerar doenças.
     Descobri que os pontos do corpo têm vida e inteligência, manifestam-se. Esta arte pertence à memória de toda humanidade. Suspeita-se que este conhecimento venha da Atlântida.
     Fascinou-me os pontos chineses, a idéia do corpo humano ser um sistema energético, submetido a topografias coerentes. Saber que tais energias se fazem presentes em todas as fases biológicas, atuando de maneira misteriosa e evidente ao mesmo tempo, sob o nome de energia Vital.
     Ao entrar em contato com a teoria do arcabouço genético, desvendaram-se os mistérios dos chakras, da aura, dos registros akásicos. Deduzi que a realidade existe em muitas dimensões simultaneamente.
     Tornei-me aluna assistente do Dr. Kimura, herói nacional japonês com 45 anos de prática de Acupuntura no Brasil. Passados dois anos, quando nos despedíamos no portão de sua casa, carinhosamente me fez recomendações: Você só pode se intitular acupunturista depois de dez anos de prática diária e deve trabalhar gratuitamente por algum tempo, que será determinado agora por nós.
     — Quanto tempo? — interrompi ansiosa
     — Quanto quer dar?
     — Um ano? — arrisquei.
     — Seis meses. — respondeu o mestre.
     Após cumprir o combinado, fiz uma visita a ele e ofereci-lhe um quadro a óleo, de minha autoria, com inúmeras papoulas, que foi colocado na parede no mesmo instante.
     Terminado o período sugerido pelo mestre, alguns colegas do curso anterior de acupuntura me procuraram, com a finalidade de dar continuação aos estudos. Aceitei prontamente.
     Estudamos e ensinamos sobre tudo que se referia ao conhecimento do corpo humano e seus sete corpos. Nesta época meu irmão Lauro deu sua primeira palestra sobre quiropracxia, aprendida na Aliança Espírita. Os jovens médicos começaram a descobrir que havia mais conhecimento sobre saúde nos meios chamados religiosos e alternativos.
     Começamos uma peregrinação atrás de tudo aquilo que pudesse nos ensinar a melhorar a saúde.
     Realizamos os primeiros congressos sobre terapias alternativas, parapsicologia e Era de Aquário.
     O movimento alternativo começou a crescer, novas técnicas de prevenção da saúde chegaram ao nosso conhecimento. Cada vez mais eu ficava convencida que as divergências entre corpo, mente e espírito é as causas do sofrimento humano. Percebi que a identificação responsável por quase todos os enganos é a de não termos corpo perecível, só estamos usando-o temporariamente.
     A idéia de positivo e negativo foi radicalmente alterada na minha cabeça. Descobri os conceitos da alquimia oriental. Estudei sobre as filosofias de linhas personalistas e abstratas e também sobre a verdade que todas elas encerram. A idéia de um Ser Divino Criador, com preferências, acabou. Comecei a enxergar que na natureza tudo é necessário, puro, bom e santo.

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     Ao lado da minha casa, possuía mais uma propriedade onde morava minha mãe e irmão. !uando ele se casou, mamãe passou a ocupar somente um quarto e a cozinha, ficando o restante vazio, e lá criei um espaço alternativo.
     Em 1984 crio o Centro de Estudos Vitalista Paracelso (CEVIP) que comportava uma livraria, salas de espera, secretaria, salas de atendimento de acupuntura, médicos e psicólogos, além de um salão no andar superior destinado a aulas e palestras. O nome Paracelso atraiu alquimistas de todas as espécies.
     Promovemos palestras regularmente na Câmara Municipal de São Paulo. Participei de movimentos como Médico Pé Descalço, movimentos ecológicos, povos da floresta, apoio às comunidades rurais que trabalham sem agrotóxicos. Estudei plantas, flores e raízes medicinais.
     Espantei-me com a capacidade do ser humano em arranjar doenças. Estudei fisionomia, linhas das mãos, astrologia, linguagem corporal. Com o tempo decifrava facilmente as pistas sempre sinalizadas que o corpo revela na superfície da pele, denunciando o que está por dentro.
     Muitas vezes desejei não saber tanto, principalmente quando estava próxima de pessoas íntimas. A melhor forma foi aprender a ficar calada, guardar o que não deve ser revelado.

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     O MOVIMENTO dos Médicos Pés Descalços e as comunidades rurais realizavam encontros em acampamentos com múltiplas opções de palestras. Quem sabia ensinava, quem não sabia aprendia. Havia muita troca de informações e experiências com fogueira, música e violão.
     Dr. Eliezer Mendes, num destes encontros, comandou um relaxamento coletivo de psico transe, com participação de mais de 500 pessoas. Ressaltou que o estado alterado da consciência tem o poder de eliminar muitos males do ser humano. Alertou que evitássemos a contaminação vibratória através da captação espontânea, conceito há muito conhecido entre os astrólogos, espíritas e esotérico assunto que muito me interessava.
     Sentados na grama, em círculo, conversamos sobre o conhecimento oculto:
     — Não há nada oculto, tudo está às vistas claras. A humanidade é como uma criança em crescimento, acha que os pais sabem tudo e portanto têm de resolver tudo. Se você desvendar a vida e colocar a responsabilidade deles sobre o mundo, ficam bravos. As pessoas precisam chegar a determinadas conclusões por si mesmas, mesmo que levem muitas vidas em uma só questão.
     — O processo evolutivo é lento, na virada do milênio a tendência é de uma aceleração planetária. Alguma coisa provocará este movimento — comenta o ufólogo.
     — Já estão ocorrendo vários fenômenos. Quantas epidemias estão surgindo, mudanças climáticas bruscas, movimentos do solo — conclui o naturalista.
     Resolvi citar as palavras do Imperador Amarelo que ocorreu num dialogo que teve com seu ministro Li Po, em 4.000 a.C.:
     — “O universo é cíclico, há início, meio e fim. Quando alguma coisa termina é porque traz dentro de si uma semente do novo início, está germinando. Ao mesmo tempo começa a florescer e frutificar lançará as primeiras ervas daninhas de sua destruição. Essa é a lei: há vida e morte.”

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TESTEMUNHO DO AYAHUASKEIRO

     No palco uma pessoa que timidamente, de cócoras, chapéu nas mãos, relatou sobre um chá composto por dois vegetais. Mostrou várias fotos das plantas, sendo interrompido a todo minuto com perguntas das mais diversas:
     — Esta bebida é alucinógena?
     — Não.
     — Vicia?
     — Não.
     — Você teve algum benefício ou cura?
     — Muitos! Mudou minha vida. Antes eu me embriagava, fumava e cheirava. Fui internado várias vezes. Não conseguia estudar, nem trabalhar. Minha vida não valia nada. Parei com tudo quando descobri que este vegetal poderia me dar o que há muito tempo eu buscava: o verdadeiro transe.
     — Há quanto tempo?
     — Estou na Luz há cinco anos.
     — Retornou às drogas?
     — Não.
     — O gosto é ruim? Precisa tomar muito?
     — O gosto não é um mel; a quantidade é você quem vai decidir.
     — Qual a diferença entre os Xamãs bolivianos e os brasileiros? — perguntou um estudante.
     — Os xamãs só conheciam o lado curativo e do uso das coisas do cotidiano que poderiam ser obtidas através desta planta. O Mestre Irineu foi quem descobriu aqui no Brasil o lado da transcendência espiritual que esta planta pode oferecer.
     — Há muitos povos indígenas usando-a? — perguntaram.
     — Praticamente os povos habitantes da divisa amazônica: Brasil, Peru, Bolívia, Equador e Venezuela.
     — Como ela foi conhecida fora da floresta?
     — O território do Acre apesar de pertencer à Bolívia, estava ocupado por seringueiros brasileiros vindos do estado do Ceará, por volta de 1969. Anexado ao Brasil em 1903, pelo Barão do Rio Branco. Iniciando depois no Brasil uma cultura cabocla da Ayahuaska.
     — E o que contam as lendas? — perguntei.
     — Os Incas e Amautas fugindo dos espanhóis, alcançaram Machu Pichu e de lá presumo que foram para Serra Madre de Dios. Calculamos que depois do aparecimento deles naquele local, devem ter tido contato com os xamãs da selva amazônica boliviana, pois depois disso surgiram “maestros” curadores, que a usam até hoje misturada com outras plantas medicinais, para a cura de doenças e adivinhação, eles por sua vez ensinaram aos seringueiros brasileiros, no começo do século vinte os segredos do seu feitio.
     Os brasileiros perceberam que o chá de Ayhuaska poderia não só curar algumas doenças, mas transcender, elevar, evoluir, quando usado sem nenhuma mistura, como é o caso de algumas pessoas que se tornaram mestres, pois na época suspeita-se que já eram esotéricos, espíritas cristãos, devido à ética, símbolos e orações usadas em seus trabalhos espirituais, aglutinando em volta de si a população local. O chá da Ayahuaska, usado desta maneira recebeu outros nomes, iniciando assim no Brasil a Cultura do chá de Ayahuaska.
     — Os Incas usavam Ayahuaska?
     — Pouco se sabe sobre os hábitos da casa real incaica, com certeza seus sacerdotes usavam várias plantas, em ocasiões especiais.
     — No seu relato a história dos Incas e o Chá estão ligadas.
     — Creio que sim, apesar dos nativos dos povos da floresta não revelarem nada ao homem branco; enquanto os Amautas, ao contrário, nos deixaram alguns relatos, provavelmente por serem semeadores de cultura.
     — Crianças também bebem este vegetal?
     — Tanto crianças como velhos e mulheres. Já dei o testemunho a vocês, buscadores da verdade, e afirmo que vegetal cura muitas doenças, pensem sobre isso, a floresta amazônica é a maior farmácia do mundo.
     Desejo falar-lhe, perguntar o nome daquele vegetal. Procuro e não o encontro, deu a palestra e foi embora. No entanto fico alerta e pergunto às pessoas sobre o orador, sem obter resposta. Faço saber em diversos lugares de meu interesse por este vegetal e pela história dos Incas.
     Chego em casa com o carro todo sujo de lama, meu filho Guilherme o coloca na garagem, ajuda a tirar a barraca do bagageiro, os vizinhos espiam, curiosos. Absorta nos pensamentos do fim de semana, entro em casa, o cachorro em festa me recebe, o telefone toca, é alguém querendo saber se cheguei bem. Tudo que eu quero agora é tomar banho quente, trocar de roupa, comer e dormir, vem à mente, o jogo iniciático, parece que todo mundo sabe que estou fazendo este jogo e ninguém facilita nada, sinto que concluí as tarefas do E.


O CAMINHO DO A

     MINHA vida ficara completamente tomada pelos deveres de Terapeuta. Começava atender as pessoas às oito horas da manhã e só parava às cinco da tarde. Às oito horas da noite eu retornava ao CEVIP ministrava aulas de acupuntura, duas vezes por semana. Outros dois dias eram dedicados ao Colegiado de Sensitivos, e paralelamente a estas atividades, promovia vivências de Shiatsu um final de semana por mês.
     Certo dia, no CEVIP, eu sou surpreendida pela chegada de um jovem pesquisador vindo de Rondônia. Ele veio me propor uma experiência com Chá. Suas narrações a respeito dos seus efeitos coincidiram com outras histórias ouvidas nos encontros de Comunidades Alternativas. Interessei-me pela sua proposta.
     “Ana Vitória, pesquiso há algum tempo sobre os efeitos do vegetal. Somente um tema me interessa: provar pela experiência transcendental se ela se dá por si mesmo, ou se a hipnose produzida pelo ritual que induz, ou se independe uma coisa da outra”. Gostaria de reunir pessoas saudáveis e críticas, sem nenhuma informação anterior e ouvi-las depois.
     — Existe algum risco?
     — Que eu saiba não. Mas, eu sei muito bem que a mente é estranha, podemos ficar fora de controle até num simples relaxamento usando apenas a respiração. Muitos povos na antigüidade estiveram na Amazônia procurando o conhecimento sobre esta mistura. Existem vestígios que foram deixados na mata na passagem dos fenícios, egípcios e druidas, que mostram que este continente nunca foi desconhecido do resto do mundo. Achamos alguns índios isolados no meio da selva, só conseguimos chegar até eles por avião. Qualquer picada aberta na mata, em dez dias está fechada outra vez, tamanha rapidez com que as plantas crescem. Eles relatam que sempre chegam seres vindos do ar trazendo sementes e vão embora.
     — Quem?
     — Não sei.
     — Estrangeiros invadindo o Brasil?
     — Se fossem estrangeiros, a Força Aérea saberia. Só podem ser extraterrestres.
     — Ouvi falar, que nesta região existem muitas cidades desconhecidas, pirâmides...
     — Há muitos arqueólogos andando por lá, a mata é perigosa, a maioria não volta. Acabam sendo atacados por mosquitos tão pequenos que entram nos orifícios do corpo da pessoa, matando-os sufocados. Estes mosquitos são verdadeiros guardiões dos segredos da floresta.

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VOGAL A

     — Aceitei sua proposta e reuni quinze pessoas, previamente escolhidas, que obedecessem a simples critérios: evitar beber ou comer alimentos fermentados e evitar também o uso de metais.
     Chegamos pouco antes do horário marcado. Na sala de espera conversamos animadamente, contei a eles minhas aventuras nos Andes. Falei sobre o chá muito estranho que havia bebido em Cuzco e que desconfiava ser idêntico ao que iríamos tomar naquela noite.
     Casualmente menciono que estou fazendo o jogo auto-iniciático baseado no mito da deusa IÓ. Mário, meu amigo, é um dos participantes do grupo, ouviu tudo atentamente, depois comentou eufórico:
     — Ana quer dizer que ainda não encontrou a letra A, eu não acredito, é a coisa evidente, ao ouvi-la achei o regente da vogal A é o mito da deusa Ana, que dirige a divisão do ano. Às vezes são confundidas IÓ, com Têmis ou até com Ana, Rainha de Cartago irmã de Dido e de Pigmalião.
     — Ana Perena? — perguntei admirada pela informação recebida. — A divindade divide um ano do outro? Nossa Mário, você vai ao fundo do baú da história!
     — Dido não é o apelido de infância do seu ex-marido? — perguntou.
     — O nome é Cândido Gil Gomes Jr, conhecido só pelo sobrenome Gil Gomes. A mãe dele começou a chamá-lo de Dido e este apelido pegou entre os familiares. Eu sempre o chamei de Dido.
     — Olha o Mito! — comentou Mário.
     — Quantas vogais faltam? — perguntou uma amiga visivelmente interessada.
     — I, O e U, as letras B e T, e o ômega. E ainda falta realizar o culto à Terra Mãe.
     — Vai ser gozado ver você fazendo culto à Terra Mãe, acendendo fogueira e tudo mais. — debochou a amiga.
     — Muita coincidência!
     — Você não deve se esquecer do pedido dos deuses. Pedem o cumprimento da promessa feita a eles, melhor você continuar o trabalho de auto-iniciação começado nesta sua viagem. — disse Mário.
     — Sei que deverei cumpri-lo de um jeito ou de outro. Os sinais aparecem espontaneamente, como agora — respondi meio irritada, por antever as conseqüências da brincadeira.
     — Não se irrite, eu sei o que é isso pois tenho meu próprio jogo, os Doze trabalhos de Hércules. Mas, há anos parei numa tarefa que espero vencer neste grupo.
     — O que é? — perguntei intrigada.
     — O medo, querida, o medo do desconhecido.

*

     O pesquisador entrou na sala interrompendo nossa conversa. Cumprimentou-nos cordialmente e fala sobre as sua deduções em relação àquela bebida, pois sabia que éramos na maioria Terapeutas.
     — Estou muito satisfeito por estarmos fazendo esta experiência. Acredito no poder deste vegetal. Com a ajuda dele podemos resolver muitos problemas psicológicos e físicos. Pretendo conhecer melhor esta planta. Agradeço a confiança e o amor ao conhecimento, que sei que possuem. Obrigado por terem aceitado de bom grado e gratuitamente a estes estudos. Tomo a primeira dose e reconheço ser o mesmo chá de Cuzco, sua cor e cheiro eram muito peculiares. Fiquei surpresa ao perceber que os efeitos não se repetiram. Perguntei ao pesquisador: A Ayahuaska é o mesmo chá tomado pelos andinos?
     — Sim, apesar de ser conhecido por outros nomes. Você tinha experimentado? Há quanto tempo e por que não me disse antes?
     — Suspeito que a bebida seja a mesma. Tomei há cinco anos, no Peru, como não tinha certeza, nada te disse. Desculpe-me. Existe outra bebida parecida?
     — Com os mesmos efeitos, não.
     — É então é o mesmo
     — Os efeitos nunca se repetem, mas valeu.
     O conselho de Mário não saía da minha cabeça, mas estava com preconceitos de colocar coisas relacionadas ao meu próprio nome.
     Assim que cheguei em casa acrescentei no caderno de notas:

     Vogal A — Ana: Perfeito, majestoso.
     Cor: preta.
     Valor numérico: um.
     Ana, antiga divindade grega que tem correspondência cristã na figura de Santa Ana, mãe de Maria, avó de Jesus.
     Confirma iniciação feita em vidas passadas, nos mistérios.
     Provas deste estágio:
     1) Aprender ser original, criativa e inovadora, seguir sempre em frente, nunca recuar. Retomar esta liderança que foi adquirida em vidas passadas;
     2) Iniciar a passagem das coisas que estão no plano astral para o plano físico;
     3) Início de um trabalho no campo dos binários: espírito — matéria;
     4) Desafio: Para fazer ouro, é preciso ter ouro.


COMENTÁRIO: Caí numa armadilha terrível, mas aonde eu caí qualquer um cairia. O EGO. Ao escolher meu nome como o nome da deusa fato que achei natural. Demorei mais de dez anos, na realidade só quando fui reler os escritos para passá-los definitivamente para o computador e mais cinco anos para editar na net é que me toquei que o A era da própria AYAHUASKA, como um deus da floresta, Estou realmente chocada, depois de tudo. Embora o valor do A de Ana e do A de Ayahuaska não iriam interferir na lição, quanto valor numérico, muda tudo quanto o sentido da mesma. Mas mal sabia eu que ao deixar isso acontecer tive que amargamente aprender a ser avó ao perder uma neta filha do Guilherme ainda de berço. Tentando pensar se fosse o que devia ser, o que teria mudado, é um raciocínio que ainda não estou pronta para fazer, mas que farei um dia.

*


AYAHUASKA EM SÃO PAULO

     Cheguei mais cedo na clínica, encontro meu amigo pesquisador sozinho, contei a ele minha experiência no Peru: Como disse, conheci esta bebida em Cuzco. Na ocasião, não sabia nem o nome da planta de onde fora extraído o chá. Coisa de viajante. Gostaria de alguns esclarecimentos, se fosse possível.
     — Estes vegetais estão espalhados por toda floresta amazônica. Apenas o nome muda conforme a região, Mariri, Iajé, Ayahuaska. Acredito, pelos fortes efeitos que você relatou, que foi misturado a outras plantas.
     — Não! Não acredito nisso. — retruquei.
     — Acredite, isso acontece freqüentemente naquelas regiões. Quando você tomou o chá, não estava buscando cura alguma, tomou por pura curiosidade. Acho que eles quiseram dar uma lição nos estrangeiros, entende? Lá, o chá não é tomado assim em qualquer situação.
     — Apesar disso, foi bom e ajudou muito. — esclareci.
     — Quem não merece não sofre. Quando se toma o chá, o inconsciente, as fantasias e os medos são liberados. A transcendência vem depois e depende do nível espiritual de cada pessoa e também de sua necessidade no momento. Cada indivíduo vive um tipo de experiência diferente. Pode acontecer ainda de não haver transcendência. Há gente que não sente absolutamente nada.


A EXPERIÊNCIA DO VEGETAL

     Toda a tarde ia a clínica e tomávamos o chá à vontade até às quatro horas da manhã, sem fazermos nenhum ritual ou invocação interna. Eu, particularmente, nem sequer rezei, nem antes e nem depois. Saíamos da clínica somente às sete da manhã. Percebi que estava perto de achar a porta de entrada para o caminho da inspiração criativa e da originalidade, apesar de não dar nada do que deu na primeira vez.
     Nos dias que se seguem repetimos os mesmos atos, e nada de “pegar” apesar de me dar uma certa alteração no comportamento, no décimo quarto dia eu vi algo muito significativo: eram seres de um azul profundo, enormes, olhavam-me atentamente.
     No décimo quinto dia o gosto do chá era simplesmente insuportável, estava feliz pela pesquisa estar chegando ao fim. Desta vez pedimos para tomar dose menor. Conversava com uma colega, quando tive um imenso ataque de raiva que foi sucedido por uma pequena hemorragia do intestino alto. Percebi que alguma energia estava sendo liberada, envolvendo o estado psico-anatômico, devido ao estresse natural dos quinze dias anteriores, que regularizei rapidamente fazendo uso dos meus conhecimentos de acupunturista.


O MESTRE DA UDV

     Na semana seguinte quando nos reunimos novamente na clínica, o pesquisador apresentou ao grupo o Mestre da UDV (União do Vegetal) de Rondônia.
     O mestre tomou a palavra: Meu nome é Augusto Jerônimo da Silva, conheço esse Vegetal há muitos anos. O poder que o Vegetal exerce em nossos corpos e mentes, bem como a transcendência que nos é permitida não são induzidos, o ritual só existe para facilitar as passagens dos estágios de consciência e manter o padrão vibratório alto. Como todos vocês passaram por isso, gostaria de poder oferecer outra experiência, com a mesma planta: o ritual sagrado.
     O pesquisador completou explicando as funções de cada planta no ritual: O Cipó dá Força, a Chacrona oferece Luz e os dois juntos dão o Poder. Este Poder é a participação, mesmo que por segundos, da comunhão com as forças do além.
     No dia seguinte iríamos conhecer o Vegetal dentro da ritualística da UDV. Estávamos muito curiosos. Fomos bem recebidos na chegada. Deram-nos cobertores e nos ajeitamos num canto da sala. Depois da abertura preliminar, o chá foi servido, cantou as chamadas de entidades ou forças da natureza.. Colocou música popular, cantando novamente. Visualizei imagens relativas à sua letra, antes mesmo da música começar. Notei o cuidado de dar começo e fim ao estado alterado da consciência enquanto outros iam e vinha para o banheiro.

     Como foram dias inteiros dedicados àquele trabalho, fui cuidar das minhas coisas que ficaram atrasadas assim que a pesquisa terminou. Passei a me interessar pelo estudo de plantas e raízes medicinais, fazendo várias incursões pela mata com grupos de raizeiros, aprendendo identificá-las e usá-las da maneira correta. Tempos depois soube que duas pessoas do meu grupo tornaram-se Mestres da União do Vegetal.

*


TRANSITORIEDADE DA MANDALA

     Com o tempo fui me envolvendo cada vez mais depois de ter tomado essa planta misteriosa e poderosa, coisa que guardava como segredo a todos aqueles que não tivessem participado dele comigo.
     Comecei a sentir uma necessidade interior de elaborar uma Mandala que pudesse ser o símbolo da Organização e que ao mesmo tempo represente graficamente todo o meu pensamento.
     O passo mais importante é fazê-la e depois decodificá-la, com a ajuda do Mario que era membro da Rosa Cruz e me paquerava há tempos. Estava curiosa de como seria a representação do mundo do meu subconsciente. Elaborei uma composição geométrica perfeitamente ordenada que representasse em símbolos as idéias e intenções da alma. Meu objetivo era que esses símbolos, ao serem contemplados, abrissem "chaves” e ajudassem fazer conexões, permitindo ir fundo nos mistérios da vida. A nossa missão na Terra é revelar estes mistérios através da descodificação de signos.
     O primeiro desenho que fiz da mandala foi na terra, depois passei para o papel e mais tarde numa tapeçaria. Minha irmã Luzia ajudou-me a bordar. Às vezes tínhamos a sensação que não acabaríamos nunca. Depois de pronta Mário, um amigo arquiteto, mediu cada desenho relacionando-os numa seqüência numérica, que mais tarde foram transformadas em sons e mudras, gestos com as mãos.
     Fiz uma interpretação da Mandala segundo a cabala e por este motivo convidei um amigo cabalista para oficializar sua consagração. Neste ato, o oficiante, voltado para o leste, canta os mudras, pois é um som que em particular atrai forças protetoras, que são geradas a partir dos sinais perfeitamente geométricos.
     Comecei usar vasos de formato circular como Mandálas vivas, cada flor plantada indicava um aspecto da vida física, psicológica e espiritual. As reações das flores denunciavam interferências na minha vida que poderiam ser detectadas com horas de antecedência. Meus alunos gostaram da idéia e elaboram seus próprios vasos. Estudamos cada um deles e constatamos que realmente refletiam o estado de seu dono, assim como as cartas do Tarot na hora da consulta.

*


TERAPIA DO AMIGO ESPECIAL

     Existem algumas atitudes são típicas dos aquarianos, como solidariedade e amizade. Os nativos deste signo acham que podem resolver os problemas do mundo e eu, por ser aquariana, também tenho essas atitudes como características marcantes de minha personalidade.
     Algumas pessoas me procuraram querem formar um grupo de estudos sobre o tema da amizade. Nos reuníamos uma vez por mês e os integrantes eram psicólogos, assistentes sociais e jornalistas. No fim do ano percebemos que estávamos capacitados a ajudar pessoas com problemas de solidão. Era pura ilusão. Mesmo assim, tentamos.
     Criamos o “AMIGO ESPECIAL” e por dois anos atendemos gratuitamente milhares de pessoas nas delegacias, ruas, hospitais e manicômios, tratando de maiores e menores abandonados, drogados, suicidas e superdotados.
     Para exercitar as técnicas de amizade visitei templos e outros grupos de estudo. Conheci mestres, gurus, dirigentes espíritas, africanos, psicólogos que dirigem equipes de estudo sobre paranormalidade, psiquiatras, xamãs e uma infinidade de outros estudiosos de áreas até então desconhecidas.
     As pessoas que ocupam o topo da pirâmide do esoterismo possuem alguns problemas complexos e não dividem com ninguém suas questões pessoais. Elas pertencem ao grupo de indivíduos que classificamos como super dotados. São acometidas de distúrbios da paranormalidade, trata-se da ausência repentina de seus dons, ou o excesso dela, conflitos nos processos naturais de iniciação, desarranjos na vida ou doenças por captação ou somatização.
     Desenvolvi uma terapia específica, exclusiva para classe sacerdotal. Recebi gente de todo o país e enriqueci meus conhecimentos a partir de estudos sobre estas pessoas.
     Um dia recebi a visita de uma sensitiva que se queixava de uma interferência na sua paranormalidade depois de ter o útero extraído por causa de um tumor canceroso. Ela procurou ajuda, para recuperar sua paranormalidade perdida depois da cirurgia. Mas, assim que ela entrou no consultório canalizou o seu próprio mentor que orientou o tratamento. Segui todas as indicações à risca e depois de quatro sessões ela recuperou sua paranormalidade, podendo voltar às suas atividades normais no centro espírita.
     Deste dia em diante passei a colocar os pacientes paranormais no transe induzido. A partir disso perguntava ao Eu Superior qual seria o procedimento mais adequado, tendo respostas sempre certas. No entanto para as coisas de vida particular nada acontecia, e isso me deixava frustrada — ajudar os outros e não ser capas de me ajudar para mim era coisa sem explicação.

*


CHEGAM AS 12 CRIANÇAS

     Querendo comprovar a crença na eficiência das terapias alternativas, nós do Amigo Especial decidimos tutelar criança fora da idade de adoção e até com problemas de saúde. O objetivo era acompanhar seu desenvolvimento até a maioridade. Diante disso, fomos ao Juizado de menores expondo nossas pretensões e conseguimos ganhar a tutela de doze crianças.
     Decidi multiplicar o número de pontas da Mandala, de seis passou a doze. Além de ser uma homenagem ao número de crianças, o número doze simbolizava muito: os doze meses do ano, os doze signos do Zodíaco, os doze trabalhos de Hércules e os doze deuses do Monte Olímpio.
     Abrigamos uma grande casa alugada na mesma rua do CEVIP, mobiliada através de doações. No dia que as crianças chegaram os membros do Amigo Especial recepcionaram-nas com muitas roupas e brinquedos novos.
     Ficou resolvido que cada grupo composto por cinco membros seria “tutor” de uma criança, tendo como funções levá-las passear e cuidar de suas roupas e estudos. As outras despesas seriam arcadas por um grupo que não queria se identificar, tendo como intermediárias para as doações uma assistente social do Juizado de Menores e um membro do Amigo Especial que também era funcionária do Juizado de Menores.
     Durante alguns meses aplicamos nas crianças os conhecimentos sobre terapia alternativa e os resultados foram ótimos, pouco depois recuperaram a saúde física e psíquica. Modificamos a alimentação de carnívora passa a macrobiótica diminuindo os remédios.


Com os sinais I O se aprende mais

     Os métodos adotados causaram espanto e descrença, a princípio, julgavam serem procedimentos religiosos. Alfabetizamos rapidamente os pequenos ao buscamos métodos milenar que consistiram na formação de letras e palavras a partir de apenas dois sinais gráficos: “I” e “O”, sinais geradores de todas as letras. Ensinado as crianças, cumpri uma das missões de IÓ.
     Depois de três meses aprendendo fizeram a avaliação na escola pública do bairro. Foram aceitas e passaram a freqüentaram a sala de aula do ano escolar correspondente a cada idade.
     A Professora. Beth Carpinelli, tomou conhecimento dos progressos alcançados, convida-me a ministrar umas palestras aos professores de sua escola. Encantados decidiram aplicar o método em alunos com dificuldade de aprendizado. O que foi feito e em pouco tempo estavam, acompanhando o programa do ano.
     “Voluntários caridosos” apareceram, questionando a alimentação e os métodos de ensino, argumentavam indignados: — São crianças carentes, podem comer qualquer coisa. Além disso, você não deve impor idéias religiosas deste tipo. O objetivo de vocês a princípio, é muito bom, mas não dá certo.
     O desentendimento culminou com a doação de salchichas, que diante de meus protestos, ficaram indignados, quando mandei devolvê-las.
     A assistente social, depois de visitar a casa, encaminhou-as para adoção em países europeus. Todas as doze crianças.
     Fiquei frustrada ao vê-las indo embora. A assistente social, membro do Amigo especial e do CEVIP, veio em minha direção argumentando:
     — Ana vitória, o melhor é que as crianças tenham um lar com pai e mãe.
     Totalmente inconformada, ainda tentei salvar a situação: É claro que eles têm uma família, somos nós! Cuidamos muito bem deles.
     — Se você realmente ama estas crianças, abra mão. Deve ficar feliz por dar um bom destino a eles.
     Com o coração ainda cheio de esperanças, argumentei: Este não era nosso objetivo. A Casa da Criança não é lugar transitório ou um simples asilo. É uma casa escolhida especialmente para as crianças. A idéia inicial de proporcionar a elas condições dignas de seguirem seus próprios caminhos, sem renegar suas origens, parece que não vale.
     Falei para o vento do deserto, em seguida o apoio financeiro foi retirado.
     No dia da despedida ofereci reproduções da minha Mandala, feitas por minha mãe, a cada uma das doze crianças, recomendando que guardassem junto de si. A dor ao vê-las partindo era imensa. Foram adotadas por famílias italianas e francesas.
     Outras crianças chegam ocupando a casa que acaba se transformando realmente num asilo.
     Passou a ficar muito pesado agüentar frustração, então entreguei a direção da casa. Os novos diretores não conseguiram coordenar mais a casa sem nossa ajuda e tiveram de fechá-la definitivamente. A sociedade, O Amigo Especial, fechou também, na mesma época.
     Fiquei pasma ao perceber que minhas mãos começaram a enrugar rapidamente e de um dia para outro os dentes ficaram sensíveis e abalados. De alguma maneira precisava controlar minha pressa e ansiedade de querer resolver tudo. No balanço das conclusões notei que os sinais “I” e “O” funcionaram muito bem. Aprendi que são sinais eternos e que a qualquer época terão a mesma utilidade. Consegui começar a ensinar a doze crianças alguma coisa de bom. Elas me ensinaram o início da dolorosa lição do desapego.

*

     Passamos então a distribuir sopa nas ruas da cidade, uma vez por semana.
     Encontrei homens que haviam sido empresários de sucesso e que um dia resolveram após ouvir uma voz interior mendigar nas portas das Igrejas católicas, levando mensagens da Virgem Maria a quem a intuição mandasse. Outros não sabiam porque estavam nas ruas, apesar de terem casa e família, mas algo os empurrava para dormir ao relento no chão das calçadas, soube que alguns voltaram à vida anterior depois de anos.
     Notei que a atração que algumas pessoas sentem de andar pelas ruas sem destino, não se limita às ruas, conheci muitas outras que não param nem um ano em uma só casa, elas me contaram que algo as impulsiona a mudar freqüentemente. Outras precisam mudar de religião, batizando-se em todas elas. Em algumas apliquei um ponto de acupuntura chamado de “andar sem destino” e até onde eu sei ajudou-as muito.

*


ROMPENDO COM A ZONA DE CONFORTO

     Coincidentemente minha mãe decidiu se retirar da sociedade, renunciar o conforto, praticando o suicídio social. Esta decisão causou um grande impacto em mim e meus irmãos, também nos meus filhos.
     Ela estava sendo radical como sempre fora. Foi morar sozinha numa barraca de acampamento, a mesma que anteriormente abrigara o cabalista Denizard Rivail em retiro de seis meses. Foi uma fuga do século XX para ajudar a si mesma, assim eu entendi.
     Seu retiro ficava num grande terreno ao lado da reserva florestal de Mairiporã. Embora o caminho escolhido fosse aparentemente duro, ela estava feliz podendo retornar à sua essência. Estava disposta a encontrar as maravilhas que só podem ser percebidas além dos nossos olhos, que estão sempre apressados em conseguir ver. Ela queria reciclar sua vida junto à natureza. No primeiro momento me senti abandonada, mas depois percebi a coragem de seu ato.
     Certa tarde eu fui visitá-la e fiquei muito satisfeita, pois estava saudável, havia resgatando seu prazer comendo feijão sem passar mal, depois que resolveu plantar, colher e cozinhá-los com as próprias mãos. No silêncio da mata aprendeu se comunicar com os animais, com os elementais e com os espíritos da natureza. Aprendeu também a usar a magia das plantas e a proteger sua família à distância.
     Numa de minhas visitas a seu retiro ela me mostrou um pé de limoeiro e disse:
     — Ana, este limoeiro representa sua vida. Tudo que acontece com ele sabia que é uma representação daquilo que está acontecendo com você. Veja que alguns dos frutos dele estão sendo atacados por bichos e não crescem. Está acontecendo alguma coisa com você?
     — A Casa da Criança teve de ser desativada e isso me deixou muito triste. Cada criança recebeu uma Mandala que a senhora pintou. Tenho esperança de reencontrá-las um dia.
     — Minha filha, você queimou muito karma com elas. Lembre-se de que poderia ser com um de seus próprios filhos. Iria doer mais ainda. Aconselho você a realizar rapidamente a cerimônia da queima de karma.
     Tempos depois, nas montanhas verdejantes de Mairiporã, realizei a cerimônia na presença de 33 pessoas. Assim que fui visitá-la novamente, depois de concluída a queima do Karma, ela se apressou fazendo uma limonada. Disse feliz:
     — Ana, a praga que estava destruindo sua árvore está controlada. Agora estou preocupada com sua irmã, pois a árvore dela não está boa. Vamos vê-la?
     Descemos rapidamente o bosque até perto do riacho onde se encontrava a pequena árvore enfraquecida. Cuidamos dela, colocamos cristais e plantamos dente-de-leão. Buscamos água da fonte e regamos as outras árvores das pessoas da família.
     Mais tarde, de volta à barraca, minha mãe resolveu jogar Runas para prever a possibilidade de outras mudanças.
     Estava muito aflita com a vida que eu levava, então perguntei: Mãe, será que é destino não conseguir me firmar em nada?
     — Minha filha, lembre-se sempre que quanto maiores os dons, maiores também são os problemas.
     — Para que? — reclamo inconformada.
     — Tudo aquilo que se aprende deve ser depois ensinado. Somente assim conseguimos nos desapegar do aprendido. Devemos manter a informação na corrente, esta é Lei.
     — Aprender, ensinar, aprender... sem fim?
     — Aprender a fazer tudo por amor. A oportunidade de tornar o outro independente de você é de grande alegria. Não é para isso que criamos os filhos?
     — Sim, mas logo vão embora!
     — Voltam sempre para lhe ver e ouvir, seguir seus conselhos.
     Notei que falava de si mesma, da saudade que sentia dos filhos ainda pequenos à sua volta. Apressei-me abraçando-a. Senti o calor do peito de minha mãe junto ao meu e, repentinamente, tive um grande medo de perdê-la. Insisti que voltasse comigo, mas ela não quis, disse que estava criando peixes. Na despedida, perguntei:
     — O Ego não ama, não é mesmo?
     — Não, Ego não ama. O primeiro caminho do amor é ter respeito e adoração. O oposto é inveja.


O CAMINHO DO I

     A Lua energiza as emoções, a intuição e a criatividade, segundo aprendi. O hemisfério lunar é a metade direita do cérebro e simboliza a natureza yin, feminina. É objeto de adoração em todo mundo, tem elo com a fertilidade, nascimentos e ciclos menstruais. A deusa Lua foi chamada de Diana, Ártemis e Hécate. Na Europa, antes do advento do cristianismo, predominava a religião da Lua. A festa da Páscoa é na verdade remanescente das celebrações das festas da Lua, que durante séculos foi a religião do povo. Os rituais à Lua foram reprimidos com caça às mulheres de Poder, condenadas por heresia, torturadas e queimadas nas praças públicas.
     Contudo, nos lugares que o culto à Lua-Diana era muito forte, o cristianismo incentivou o culto à nossa Senhora da Imaculada Conceição, representando Maria com os pés sobre o globo esmagando as cobras. Quando nasci, minha avó, minha mãe e a madrinha Rosa me ofertaram a ela. Coincidentemente no dia de meu nascimento a Lua estava no signo de Sagitário, na casa oito, durante a quarta minguante. Este dia foi consagrado ao Papa Pio IX que proclamou o dogma da Imaculada Conceição.
     Mas, as fases da Lua é algo tão importante que nada conseguiu abalar este conceito antigo, principalmente por causa da agricultura, e os místicos entendem que a fase da Lua nova é propícia para semear nos campos, é também boa para novas idéias e projetos. O Quarto Crescente é época de colocar em prática novos projetos. A Lua Cheia é a fase de conclusão e acabamento. Na Quarta Minguante surge a significação do projeto e o desenvolvimento de nossa consciência. A escuridão da Lua, antes da Nova, é época da abandonar velhas idéias, de transformar a energia, de meditar e adquirir novos conhecimentos.

*

     Ao dirigir um grupo de meditação na Lua Cheia no salão Etálides do CEVIP, tive a oportunidade de aprender significativa lição.
     O Sol e a Lua estavam em signos zodiacais opostos, isso quer dizer que eu deveria prestar atenção em duas questões opostas, mas igualmente importantes. É possível até projetarmos a nossa polarização interna em outra pessoa, como foi meu caso. Essa pessoa irá manifestar o oposto de seus presentes objetivos, causando grandes transtornos, porque depois que esta fase lunar passa, continuamos a ignoramos a busca a que estávamos empenhados.
     Nesta ocasião, no início da reunião, uma jovem entrou em transe (Orixá — Oxum), o que não era comum, nunca tinha acontecido antes, quando acabamos a meditação ela ainda não havia retornado ao seu estado normal. Fiquei atrapalhada pois não sabia como lidar com este fato, nada sabia sobre Candomblé.
     Meu irmão que iniciara as reuniões de introdução aos princípios esotéricos no CEVIP, presenciou tudo e no final, disse preocupado:
     — Ana Vitória, você precisa aprender lidar com esse tipo de transe, há diferenças profundas entre canalizar elemental, espírito e extraterrestres, vocês têm dificuldades de entender a natureza dos elementais. Pode dar muito trabalho mexer com o que não se domina.
     — Você tem razão, mas eu não mexi com nada disso não, devo ter feito algo involuntariamente, era só uma meditação direcionada à prosperidade, afinal a energia de Oxum está ligada com o ouro, os fetos e as crianças recém nascidas, ao amor. Preciso estudar mais sobre o assunto.
     Mal sabia eu que a questão não era estudar e sim vivenciar. Senti-me incompetente diante deste fato e acabei tomando uma decisão radical, parei de continuar dirigindo qualquer meditação em luas Cheias ou não. Pelo menos até não temer mais surpresas desse tipo.

*


VOGAL I

     Meu irmão e eu organizamos e dirigimos o Colegiado de Sensitivos por dois anos. Cuidei da parte administrativa do Colegiado, atraindo novos membros e encaminhando a médiuns pacientes com potencial, além de continuar com os atendimentos individuais. Lauro dirigia os estudos esotéricos e treinava os membros.
     Em seguida, abrimos atendimento ao público fiel a nossos princípios e Tradição, usávamos métodos de captação, energização e cromo-terapia, tornando a Iniciação prática e acessível a todos.
     Na primeira reunião são anunciados os nomes dos nossos protetores espirituais. A partir de então o Colegiado passou a se chamar Ordem do Arco Íris, com divisão de graus baseado nas sete cores do Arco-Íris e o iniciado recebia o título de Amauta.
     Fiquei satisfeita e pasma ao mesmo tempo, pois o Arco-Íris era símbolo da bandeira dos Incas, e os Amautas eram seus sacerdotes. Intrigada, perguntei a meu irmão:
     — Por que os Incas?
     — Ora Ana, foi você que trouxe a energia dos Filhos do Sol e da Luz.
     — Vieram comigo lá do Peru? — perguntei espantada.
     — Sim, claro! Saiba, minha irmã, que na crença destes povos havia no plano espiritual uma Fraternidade conhecida como Filhos do Sol, que ascendeu no plano evolutivo. Alguns espíritos que a compunham retornaram ao plano espiritual do Planeta Terra e criaram a Fraternidade do Arco-Íris, destinada a dar continuidade a sua antecessora.
     — Que espíritos são estes?
     — Os Incas e os Tupis.
     — Entendi! Isso quer dizer que nós fazemos parte do plano físico desta Fraternidade?
     — Sim, como canais, ponto de passagem para eles, por isso chamamos Ordem do Arco-Íris.
     Neste momento tive um “flash”: achei o vogal I! Ansiosa, procuro as anotações feitas na viagem sobre as ruínas do Império Inca. Reli a parte que falava das visões.
     Escrevo rapidamente as anotações sobre a vogal I que acabara de achar.

     Vogal I — Ísis: brilho
     Cor: vermelha.
     Valor numérico: nove
     Marca o momento que o iniciado passa para o segundo ciclo de iniciação
     Ísis é uma deusa egípcia que às vezes é confundida com IÓ.
     Provas deste estágio:
     1) Superar a covardia física;
     2) Lutar contra superstições e preconceitos;
     3) Adquirir o conhecimento empírico das entidades do plano astral;
     4) Superar o arrependimento sobre aquilo que foi feito e que não pode ser mudado;
     5) Vencer a indecisão;
     6) Lutar contra os condicionamentos;
     7) Realçar a clareza e a pureza das intenções;
     8) Trabalhar sem se deixar influenciar por terceiros;
     9) Aprender a ser só.


COMENTÁRIO: Achei que Ísis era uma deusa e a mãe Terra era outra, na realidade todas são mães de Criação. Mas o mais difícil foi superar o arrependimento sobre o que foi feito e não podia ser mudado. Pois naquele momento sentia que não tinha sido uma boa esposa e nem uma boa mãe para as crianças, deixei de cuidar delas direito, e já sabia que nada podia ser mudado. E não me deixar influenciar por terceiros era pior ainda.

     É sempre bom iniciar uma nova etapa. Agora tenho pela frente um segundo ciclo. Iniciei-me também na Ordem do Arco-Íris recebendo o cordão verde, de servidora.
     Olhando a Mandala exposta no salão do CEVIP lembrei-me das doze crianças e dos doze membros da Ordem das Etálides, personificados na estrela de 12 pontas da Mandala. Achei que era hora de mudar de Estrela a Sol, acrescentando mais duas pontas. O número 14, como vibração, representa a capacidade de sintetizar e de ser misericordioso. Invoca também os quatorze reis da dinastia dos Incas.
     Encerrei assim uma história e comecei outra, percebendo que a lição do caminho não vem na ordem como é descrita romanticamente nos livros, e muito menos como imaginamos. Sempre acontecem de maneira imprevista e surpreendente.

*


BLOCO DE OURO

     O dia estava especialmente agradável e as flores exalavam muito perfume. No CEVIP, depois de cumprir a agenda, sentei-me com a secretária para ver e responder as correspondências, quando senti um ligeiro cansaço. Retirei-me com a intenção de descansar um pouco no quarto.
     Assim que me deitei, vi na direção da porta aberta um cilindro azul parado no ar, girando, vindo perto de mim. Pára aos pés da cama, transformando-se em um bloco retangular de ouro, de superfície irregular, com dimensões próximas a um metro e vinte de altura e vinte centímetros de largura. Começou a vibrar em ressonância com o meu cérebro. Do mesmo modo voltou à forma cilíndrica e desapareceu na direção da porta.
     Adormeci por dez minutos. Acordei sentindo-me diferente, não sabia exatamente o que havia acontecido, mas algo mudou no meu inconsciente. Percebi que em dez dias a constante ansiedade havia diminuído.


GANHO UM ORIXA — OGUN

     Nesta época, os grupos de Ecologia e Defesa do Meio Ambiente começaram a surgir no mundo todo. O vírus da AIDS assolava o país e aquela liberdade sexual tão decantada foi violentamente ameaçada. Os astrólogos afirmavam que esta doença manifestou-se na Terra quando Plutão entrou no signo de Escorpião. A cura deve ser encontrada quando entrar em Sagitário.
     Comecei a participar como terapeuta voluntária numa casa de apoio a estes doentes. Eram doze pessoas internadas em regime semi-aberto, em estado grave e não contavam com o apoio familiar.
     Meu envolvimento foi tão grande que comecei a participar de campanhas preventivas, pois a contaminação estava se acelerando, e em grande parte era devido às drogas injetáveis.
     Os médiuns e sensitivos procuravam investigar a freqüência vibracional da doença no campo astral. Os terapeutas e acupunturistas concluíram que estávamos diante da síndrome Yn.
     Entre os internados havia um muito especial, um homem que trabalhava em Santos como zelador, agora ele estava também cego e revoltado com seu estado. Certo dia fez um pedido que em um primeiro momento podia parecer impossível:
     — Ana,eu quero morrer podendo caminhar com minhas pernas de pé, por conta própria.
     — Mesmo sem ver nada?
     — Sei que você pode me ajudar a abrir a terceira visão para localizar os objetos através da vibração deles.
     — Sabe também distinguir energia emitida de um pedaço de madeira, da cadeira, da árvore plantada e de seu elemental?
     — Sei.
     Concordei, diante de sua determinação. Trabalhamos por algumas sessões ativando este seu sentido. Em pouco tempo ele começou a sensibilizar sua visão interior e numa das sessões viu sua mãe falecida. Aproveitou este momento singular pediu perdão a ela. Começou a melhorar o sentido de direção e o equilíbrio e não se apoiava mais nos móveis para andar. Quando disse que estava vendo, aos outros moradores da casa, debocham dele.
     Tempos depois, fiquei sabendo que desceu sem ajuda os 30 degraus da casa e depois entrou na ambulância. Fez a passagem deste planeta no Hospital das Clínicas. Herdei suas riquezas: uma trouxa de pano branco bem amarrada, abrigando seus pertences sacerdotais, objetos do seu Orixá, Ogum. Decidi que o melhor a ser feito era outra queima de Karma.

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FEIRA ITINERANTE

     Com o objetivo de levar o conhecimento das artes e da magia à população do interior do estado, elaborei um evento que englobava quase tudo. A primeira amostra foi no dia dos Reis Magos, no CEVIP, com absoluto sucesso.
     Os ônibus lotados de esotéricos percorrem as cidades do interior de São Paulo, alegres, felizes, cada um respeitando o trabalho do outro, sem divergências, para nós oportunidade única de ficarmos juntos e conversar, levamos nossos filhos conosco.
     A cada dois meses organizávamos uma nova feira que trazia em seu programa, entre outras coisas, palestras que abrangiam todos os segmentos de pensamentos, eu costumava dizer que não tínhamos intenção doutrinária, mas sim mostrar apenas tudo o que existia neste universo, e cada pessoas iria julgar e escolher o melhor para si mesma.
     Havia espaço para campanhas de prevenção à AIDS, de defesa da vida dos animais, estímulo ao plantio de mudas de árvores em extinção como o pau-brasil, defesa dos direitos a terra para os índios, concretizando a população sobre as discriminações involuntárias aos estrangeiros, negros, às mulheres, aos deficientes físicos e aos loucos e insanos.
     Nossa presença nas cidades era marcante, os mais variados tipos de pessoas nos procuravam com profundo interesse. Tínhamos o apoio e participação de terapeutas, ufólogos, Hare Krishnas, professores, ciganos e esotéricos de todas as espécies. Dando toque alegre e colorido ao nosso trabalho.
     Guardo até hoje com carinho vários presentes especiais que ganhei nessas peregrinações. Um desses presentes, um crânio de cristal, teve grande significado em minha vida, pois despertou meu interesse os estudos de telepatia, clarividência e do cérebro.


SOU CHAMADA DE ANTICRISTO

     Em Bauru, aconteceu um fato que me deixou assustada. Pessoas pertencentes a religiões radicais começaram a distribuir folhetos dizendo que nós éramos o 666, o antiCristo. Furiosos, nos acusam, fazendo um cordão de mãos dadas em todo o quarteirão do prédio da feira.
     — Nós somos servos de Deus obedientes à Bíblia. Vocês adoram tudo, são hereges, pecadores, representantes de Satanás.
     — Deus é tudo, criou tudo. — respondi tranqüila, achando que este seria um argumento suficiente para convencê-los de que estavam nos julgando de maneira errada.
     — Vocês não aceitam que Jesus é o único Salvador da humanidade.
     — Ainda a mesma história milenar... suspirei impaciente.
     — Vocês blasfemam, adoram outros Deuses!
     Quando percebi que aquela discussão não serviria para nada, tentei encerrar o assunto: Vamos parar com esta conversa inútil, isso lembra uma desavença há algum tempo atrás sobre a questão do mundo ser redondo ou não. Para que discutir?
     O homem queria me converter à sua fé de qualquer maneira. Indignado, gritou olhando os seus amigos que estavam parados logo perto da cena:
     — Irmãos, esta mulher está possuída por Satanás!
     Imediatamente todos começaram a orar e levantaram as mãos em minha direção, exorcizando-me. Fiquei apavorada, pois não imaginava passar por uma cena dessas em pleno final do século XX.
     Fiquei muito triste quando lembrei que por causa de fanáticos religiosos deste tipo, foram exterminados os Incas, Astecas, africanos, judeus e muitos dos nossos índios, mas estava bem acompanhada.
     Seguimos em frente, este fato não abalou nossas crenças nem nossa luta. Tínhamos várias cidades a visitar, onde recepções calorosas nos aguardavam.

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     Pouco tempo depois tenho de retornar à capital, pois Guilherme, meu filho, seria pai em poucos dias. A cesariana foi atrasada por duas horas. Soubemos que o médico visitou mais uma vez “rapidinho” seus filhos. Minha neta, devido ao atraso do parto, ingeriu muito líquido aminoático, que provocou sua morte quarenta e quatro dias depois. Escrevi diariamente relatórios dos fatos.
     Semanas depois, mais uma morte de bebês agora gêmeos nas mesmas circunstâncias, no mesmo dia da semana, devido a mais uma visita do médico aos seus filhos. Interditamos o hospital, provando que estes acidentes eram constantes. Fui informada de que fatos como este são quase rotina. Devido ao atraso no atendimento hospitalar, constantemente ocorre morte de parturientes ou de bebês que ingerem líquido da placenta.

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     Determinada a entender porque nós tivemos de sofrer tanto, lembrei-me então de uma pessoa que poderia me ajudar, um simpático astrólogo americano, Ry Redd, discípulo de Edgar Cayce, que conheci numa das Feiras da Nova Era.
     Contei sobre a neta, omiti sua morte, disse apenas que não estava bem de saúde e pedi-lhe que fizesse o mapa astral de vidas passadas. Logo ele retornou com o relatório. Estava muito ansiosa que acabei lendo ali mesmo. Um dos parágrafos dizia: “jamais sentirá o amor de seus pais”. Emocionada com aquilo que acabara de ler, contei a ele que minha neta havia morrido dias antes.
     Redd comentou carinhosamente:
     — Somente as almas muito especiais ficam tão pouco no planeta. Elas voam a outras dimensões de Amor e de lá olham por nós como anjos celestes.
     Aceitei sua explicação como consolo, tão necessário naquele momento.

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     Assim que voltei à rotina do consultório a Dra. Hilda Dias passou-me a direção da Sociedade Brasileira de Parapsicologia. Eram novas reuniões e congressos. Meu interesse em estudar os fenômenos paranormais é cada vez maior.
     Este movimento foi responsável pela organização de todas as terapias alternativas, englobando-as dentro da visão Holística, pois freqüentemente surgem inúmeras modalidades terapêuticas que precisam ser agrupadas em um ponto comum.
     Conseguimos também que as editoras se interessassem em aumentar o número de edições de títulos de escritores brasileiros da área de terapias alternativas e paranormalidade. Essas publicações despertaram o interesse do grande público, que estava isolado de sua cultura, num país que a maioria do povo é constituída de paranormais!
     Hoje em dia, mais e mais pessoas nascem com a consciência alterada, basta olhar as crianças e ver como se desenvolvem rapidamente e têm grande intuição, percepção, canalização e telepatia. Incorporou-se no cotidiano de todos. Sem dúvida alguma somos um povo com imensa sensibilidade.


O CAMINHO DO O

     CONHECIDA como uma mulher muito sábia, mamãe costumava atrair muitas pessoas até ela. Atraído por sua fama, o Pai de Santo Marcos de Oxum, da casa Ilê de Oxum Apará, foi até Mairiporã. Depois de conversarem, pediu que ele me fizesse uma visita, a energia que Oxum traz à Terra aplacaria a dor das recentes perdas.
     O Pai de Santo tratou-me com seus banhos de ervas aromáticas e cantos para cabeça. No dia da festa da Oxum fui ao terreiro reverenciá-la, acompanhada de minha filha Vilminha.

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     VOGAL O — Ao som dos tambores, os filhos de santo dançavam louvando todos Orixás. Os convidados estavam amontoados nos cantos, tive dificuldade em arranjar uma cadeira vazia. Pela primeira vez assisti a uma festa dentro de um terreiro de Candomblé.
     Ele entrou vestido de saia dourada, com muitas rendas, manifestando Oxum. Sentado no trono, recebeu reverências de todos e fez uma bênção coletiva. Depois de distribuir os camarões que estavam em sua cesta, retirou-se, indo a uma sala no fundo da casa. A figura do médium havia desaparecido por completo na presença de Oxum. Era impossível enxergar uma figura masculina ali, quando existia a energia feminina do amor maternal.
     Imediatamente formou-se uma fila. Quando chegou minha vez, estava muito emocionada e intimamente procurei conter as lágrimas insistentes. Respirei fundo evitando olhar o Orixá no rosto, mas num impulso irresistível ajoelhei diante de Oxum e recebi o abraço da santa. Ela encostou seu peito junto ao meu. Uma energia emanada do amor verdadeiro conseguiu arrancar de lá do fundo, escondidos dentro de mim, todas as mágoas, tristezas, abandonos e solidão da minha vida. Neste momento foram transformados em amor.
     Nos braços de Oxum restabeleci a paz e fui premiada com o dom do esquecimento. E neste colo amantíssimo encontrei a vogal “O” ao contemplar extasiada o dourado de suas roupas. Aceitei a força do mito e pedi perdão a esta energia por ter brincado com coisas tão sérias. Prometi intimamente cumprir o que faltava a IÓ. Ela ouviu meus pensamentos e, sorrindo, cobriu-me com sua proteção, em sinal de compreensão.
     Neste momento me veio à mente aquela moça que não saiu do transe no ritual da Prosperidade, agora entendi que ela estava sob as forças de Oxum. Comecei a aprender tudo sobre Candomblé, com o Ekede da casa.
     Paciente e metodicamente escrevi no caderno de notas, os caminhos da próxima etapa.

     Vogal O — Oxum
     Cor: azul.
     Valor numérico: 6.
     Deusa Africana da água doce, seu metal é o ouro e seu dia é sábado. É protetora da gestação e das crianças recém nascidas. Protege as emoções semeando amor para germinar nos nossos corações.
     Segundo a Lei tem valor de OM, ou seja, o próprio Sol.
     1) — A bifurcação do caminho, indica a grande Lei da Analogia.
     2) — O Livre Arbítrio, pois toda matéria existe graças ao Espírito e não ao contrário.
     3)Adaptação, preparação


COMENTÁRIO: relacionar a riqueza com o AMOR foi uma grande lição que abala qualquer pessoa, somente assim entendi a força da criação em todos os níveis como força de sustentação da vida. Muitas vezes depois disso recorri ao AMOR para superar perdas (inclusive as financeiras) até entender que somente o AMOR reconstrói.

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MASSACRE DOS IANOMAMI

     No CEVIP fizemos uma importante reunião para decidirmos como organizaríamos o Ritual do Anhangabaú Opá. A proposta do grupo indígena era resgatar as almas dos guerreiros mortos pelos jesuítas portugueses numa emboscada cruel no Vale paulista, no começo da colonização em São Paulo.
     Assim como os membros do CEVIP e da Ordem do Arco-Íris, eu também estava animada com a idéia da convivência com os nativos que descobriram nos esotéricos bons canais para perpetuarem suas idéias. Defenderíamos os mesmos pontos filosóficos básicos: a resistência pacífica.
     A pedido de meu namorado, fizeram um jantar típico indígena, com pratos como arroz, feijão, mandioca, banana, milho, batata doce, peixe e licor de Jurubeba. Percebi o quanto seus costumes foram absorvidos por nós. Exibimos a eles o vídeo do desfile da escola campeã do carnaval mostrando que absorvemos mais do que as comidas, utilizam também a arte plumária, ilustramos nossa fala.
     Nesta noite nós aprendemos as danças sagradas, ouvimos as deliciosas histórias sem fim e fumamos tepenguá ou seja o cachimbo.
     Somos surpreendidos com a notícia que os Ianomâmis tinham sido massacrados por garimpeiros no Amapá. Os nativos presentes declaram-se em luto, pintando o rosto de preto e imediatamente fizemos vários rituais em homenagem aos mortos da floresta. A imprensa nacional e internacional é informada e então se seguiu um ato Ecumênico na Catedral da Sé.
     Quando entrei na Catedral encontrei um nativo Bororó que me contou estar desiludido com a Igreja Católica:
     — Vi no altar da igreja lá de minha aldeia um Bororó pregado na cruz e fui perguntar ao padre o que significava aquilo. Ele respondeu que aquele era Cristo.
     — Como? Cristo é branco!
     — Ele disse que Cristo também era Bororó, e eu retruquei inconformado: se for Bororó, por que vocês proibiram nossos cantos e danças sagradas? A partir deste momento eu desacreditei no Deus dele e voltei aos meus rituais.

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ABRAÇANDO O VELHO DEMÔNIO

     O Arapoty ou o Ritual do Perdão no Vale do Anhangabaú adquiriu uma enorme conotação, iniciou à zero hora do dia 25 de setembro de 1993, sob chuva fina. A noite estava escura, sem estrelas.
     O dia seguinte amanheceu cinza e garoando. Às 11hs da manhã, Kaká Werá Jecupé que é nativo Kaiapó Txucarramãe, Beth e eu nos sentamos no centro do gramado, concentrados. Fizemos um círculo de flores e Kaká, com o maracá, começou sua invocação. As pessoas olham de longe, respeitosas, e em poucos minutos a garoa fina parou de cair e o céu abre-se azul. Neste momento surgiu no alto um ser esvoaçante, rosa, pairando no ar, depois veio outra igual em branco. As duas começaram a girar junto conosco e apareceram outras duas, uma amarela e outra azul, deram um giro e em espiral entraram na terra. Minutos depois acompanhadas do que imaginamos ser os espíritos dos índios mortos há 500 anos, finalmente resgatados!
     O céu fecha novamente, o som do trovão anuncia o raio iluminado.
     Na presença da Justiça de Xangô,
     em pé no meio do Vale,
     absoluto
     com seu machado, Iluminado,
     diante dos Pajés presentes, declaramos
     o fim dos Velhos Demônios.

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O ES