O Anarquismo Hoje
Uma Reflexão Sobre o Movimento Libertário
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Arquivo de História Social Edgar Rodrigues
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©2000,2006 Arquivo de História Social Edgar Rodrigues
ÍNDICE
1. Uma Realidade Sombria e Contraditória
2. O Declínio do Anarquismo — Algumas de Suas Causas
3. Uma Época de Desencontros
4. Dilemas do Anarquismo Contemporâneo
5. Possibilidades Atuais Duma Teoria e Prática Libertárias
O criado arrebatou ao amo seu chicote e se fustigou com ele para assim
poder ser amo.
Kafka
Vivemos uma época de profundas mudanças, da tecnologia às
relações sociais, da economia à política.
Transformações que não tem no entanto, qualquer sentido
de superação do Sistema — de suas injustiças e
irracionalidades —, antes pelo contrário, são condicionadas
pelos seus interesses estratégicos de preservar a Ordem Reinante.
A derrocada do socialismo de estado no Leste, é uma dessas mudanças
decisivas que marcarão a nossa época. Um processo de auto-reforma
iniciado pela oligarquia burocrática, saiu do controle e acabou
pulverizando um sistema estatista e autoritário que alguns teimavam
em chamar de socialista. Este acontecimento, inegavelmente positivo para
os povos que se libertaram daquele sistema terrorista de dominação,
não deixou de ser contudo, ao mesmo tempo, uma vitória de setores
dessa mesma burocracia que conseguiram preservar seu poder. Mais uma vez,
como tem ocorrido nas últimas décadas, as classes dominantes
se substituem no poder em resultado duma exaustão política
ou dum processo de luta interna. Como no caso das ditaduras ibéricas
e dos governos militares latino-americanos, não foi a luta dos explorados
e dominados que determinou as mudanças e o fim desses regimes . Quando
o povo se apresentou no cenário, foi para sufragar os novos sistemas
de dominação, ou para ser usado como carne para canhão
em lutas fratricidas, como assistimos na Romênia, Iugoslávia
e Geórgia.
Também a ideologia liberal saiu vitoriosa, pois a derrota simbólica
das idéias de uma alternativa social, que estiveram presentes nos
primórdios da Revolução Soviética, será
por muito tempo o tema central da propaganda capitalista. E, razão
da descrença e desesperança de muitos dos que lutam contra
este sistema.
O socialismo autoritário saiu do cenário social derrotado,
dando dessa forma a sua derradeira contribuição ao status
quo. Ao mesmo tempo que impulsionou a uniformização
e homogeneização do sistema capitalista à escala universal
e em primeiro lugar do modo de produção e das formas de controle
social. Uma nova conjuntura assente na mundialização da
divisão do trabalho e na segmentação do mundo — e de
cada região — em guetos de riqueza cercados de miséria.*
Um panorama internacional, marcado por uma convergência quase total
entre os principais centros de poder em torno do Washington Consensus,
e administrado pelos Sete Mais que usarão seus organismos
internacionais: ONU, CEE, NATO, FMI, BIRD, como instrumentos de gestão,
de polícia e companhia de seguros da Ordem Internacional.
A instrumentalização da ONU durante a Guerra do Golfo, nos
conflitos regionais e no caso do Haiti; a manutenção da NATO
após a dissolução do Pacto de Varsóvia; a recusa
dos EUA de desmantelamento do arsenal nuclear; bem como as pretensões
hegemonistas da Alemanha dentro da CEE, são entre muitas outras
manifestações, demonstrativas desta nova rearticulação
do Capitalismo Internacional sob comando de Washington.
Neste contexto de restauração, principalmente nas sociedades
de consumo, massificadas e manipuladas por uma rede de propaganda e
informação dirigida, as possibilidades de uma alternativa social,
se afunilam. Já que os valores libertários da autonomia, da
solidariedade, do livre pensamento e do autogoverno, são dificilmente
inteligíveis ou aceites pela maioria dos cidadãos amestrados
e desamparados e perdidos num contexto social de individualização
e atomização extrema. Tornando-se assim incapazes de qualquer
reflexão crítica, afundados que estão no minimalismo
ético e no cinismo pragmático. O que exprime a maior vitória
do sistema: a homogeinização ideológica e cultural das
sociedades onde predominam os não-valores do individualismo,
da concorrência e da esquizofrenia dionisíaca para usar as palavras
de Carlos Díaz.*
Só os excluídos dessa sociedade (e que não aspiram a
se integrar no reino da sujeição conformista) ou os que nela
não se reconhecem —uma pequena e desarticulada minoria— podem se
identificar potencialmente com esses valores libertários. Em termos
objetivos essa é a nossa margem de atuação nas sociedades
do chamado Primeiro Mundo. Mesmo que saibamos que esse conformismo
majoritário é cíclico e pode ser abalado, quer por
alterações socio-econômicas, quer pelo aprofundamento
gradual da crise civilizacional que vivemos.
Outra é a situação vivida nos países do
hemisfério sul — com algumas semelhanças com o Leste Europeu —
onde a super-exploração, a não satisfação
das necessidades básicas e a flagrante desigualdade social que se
traduz num verdadeiro apartheid social, abrem espaços à
continuidade de amplos movimentos sociais anti-capitalistas.
Olhando ao nosso redor, não seria excesso de pessimismo afirmar que
nunca como hoje, as forças do Estado e do Capitalismo foram tão
fortes e as tendências libertárias da alternativa social, tão
fracas.
No entanto, e apesar disso, persistem contradições e tensões
fundamentais no sistema dominante, que se vão acumulando e adquirindo
uma visibilidade até hoje nunca vista. Começando pela miséria
absoluta da maioria da população mundial, que contrasta com
a riqueza ostensiva e delapidatória de alguns; a própria
marginalização de setores sociais nos países ricos:
onde jovens, desempregados e velhos apontam os limites de assimilação
do sistema; o desenvolvimento da tendência de crescimento dos empregos
informais e precários; a desqualificação profissional
e o aviltamento do trabalho resultante da introdução da
automação e das novas tecnologias; e por fim o aumento das
taxas do desemprego estrutural se mostram como problemas congênitos
da economia do lucro.
Por outro lado, a natureza predatória da sociedade capitalista e sua
ilusão dum crescimento infinito, só pode levar ao esgotamento
de recursos, à destruição causada no meio natural, reverso
destrutivo desta forma de "progresso" que junto com a utilização
arbitrária e irracional das tecnologias, impõe aos gestores
da desordem industrial a integração duma política de
restrições ambientalistas. É nesse sentido que deve
ser entendido a panacéia do "desenvolvimento sustentável" presente
do discurso atual dos donos do Poder e em particular do Banco Mundial. Discurso
ideológico que, contudo não aponta uma solução
harmoniosa para o problema da pobreza, do desenvolvimento humano e da
utilização da tecnologias, questões centrais da nossa
época.
O capitalismo pode sentir a necessidade de contabilizar os prejuízos
ou as ameaças futuras, mas não pode assimilar os questionamentos
radicais levantados por libertários e ecologistas. Os problemas levantados
só podem ser resolvidos no contexto duma sociedade descentralizada
e autogerida capaz de criar e controlar formas tecnológicas adequadas
a um desenvolvimento integrado, auto-sustentado e solidário. Nem o
crescimento zero, nem o desenvolvimento sustentável são
possíveis num mundo marcado pela lógica do consumo e do
desperdício das sociedades ricas e pela necessidades básicas
não satisfeitas das sociedades pobres.
De Bopal e Chernobyl ao contrabando de plutônio a sociedade industrial
manifesta-se intrinsecamente desordenada e ameaçadora para o futuro
dos povos. Ao nível político há uma tendência
generalizada para a restrição das liberdades e garantias
conquistadas em outras épocas. O que se reflete diretamente no ordenamento
jurídico, com a reintrodução de conceitos e práticas
autoritárias e inquisitórias no direito penal e processual.
A democracia representativa se esvazia face à inexistência de
escolhas reais e à transformação das eleições
em simples competições de marketing, onde o resultado é
sempre inócuo para as elites e burocracias dominantes. Uma crise de
legitimidade que é ampliada pela crescente burocratização
do Estado e pelo fato das decisões econômicas e políticas
mais importantes serem tomadas, tanto no nível privado, como no
nível internacional, fora do chamado controle do Estado de Direito.
O mesmo ocorrendo com a maioria das decisões eufemisticamente chamadas
de técnicas e com aquelas que são tomadas no complexo de
segurança, onde predomina o princípio do segredo. *
A corrupção, por sua vez, afirma-se como tendência
endêmica do estado moderno, do Japão ao Brasil, da Venezuela
a Espanha, França e Portugal, comprometendo as várias correntes
políticas com práticas fraudulentas e ilegais, sem que com
isso seja afetada essencialmente a credibilidade que os cidadãos-espectadores
têm em seus partidos. Até porque há muito as oligarquias
políticas da representação abdicaram de mascarar com
a aritmética do voto seu mandato eleitoral, como já demonstrou
há muito tempo o anarquista ibérico Ricardo Mella *
a "lei do número" é um falso instituto democrático,
tanto mais que até as maiorias eleitorais estão encolhendo
a olhos vistos, sendo o Poder efetivamente exercido por minorias, credenciadas
minoritariamente nas chamadas eleições democráticas.
Mesmo face a esta realidade cada vez mais visível no mundo
contemporâneo, a descrença na política que se
traduz no crescente abstencionismo em quase todos os países, no contexto
atual só serve para reforçar o cinismo individualista do
egocentrismo dominante: "cada um por si, e deus contra todos."
Afirma-se assim a tendência para um estatismo autoritário, afastado
do modelo de Estado de Direito clássico e mais ainda do Welfare State,
um Estado já não mais preocupado com a participação
e os direitos dos cidadãos. Mas tão só em garantir as
condições de produção, reprodução
e movimento do Capital: um novo tipo de Estado Polícia, que vem perdendo
a sua dimensão nacional para se tornar a repartição
local duma nova forma de Estado supranacional em gestação.
O fenômeno incontrolado da violência e da guerra demonstram de
forma inequívoca que nenhum Estado ou governo mundial poderá
controlar sociedades cindidas pela miséria e injustiça. Ao
contrário do que alguns teóricos liberais nos querem fazer
crer, a libanização duma sociedade não é
produto da ausência do Estado, mas da quebra do seu monopólio
através da estatização de múltiplos grupos sociais.
As sociedades em que se romperam os laços tradicionais da
solidariedade social, declarando-se a guerra de todos contra todos, só
podem ter seu corolário lógico no reacender de guerras fratricidas
como na Iugoslávia, nos genocídios de África e na
violência desesperada das grandes cidades. As metrópoles — mesmo
dos países ricos — com seus bolsões crescentes de miseráveis
e marginalizados tendem a constituir-se como um cenário de violência
onde nenhum exército particular, ou condomínio das elites desses
que proliferam em Madri , Rio de Janeiro, ou Los Angeles poderão no
futuro possibilitar a existência segura e despreocupada que as classes
dominantes se habituaram a usufruir no passado.
Neste panorama sombrio, o caminho que estamos a percorrer pode abrir, mesmo
assim, novas possibilidades: o esvaziamento do sentido social do Estado e
sua crise de legitimidade, facilitando a reaproximação dos
movimentos sociais do pensamento e da prática anti-estatista.
Também a derrocada do mito do socialismo de Estado, deixa em aberto
o campo da alternativa real aos sistemas de dominação, onde
se poderá afirmar o socialismo libertário. Com a derrota da
estratégia leninista de tomada do poder, de utilização
do Estado para a criação dum "socialismo" por etapas, e da
derrocada do mito da excelência da economia centralmente planejada,
que só gerou instabilidade, desigualdade e burocracia, a pertinência
dos valores anarquistas, dum socialismo orgânico, federalista e
descentralizado, torna-se ainda maior para os que não abdicam de pensar
e lutar por uma alternativa ao que aí está.
O capitalismo que persiste como barbárie perdura ante uma
contradição básica do nosso tempo que pode ser resumida
nas palavras de Marcuse: "A revolução mais necessária,
parece ser a mais improvável." Improvável porque só
movimentos sociais autônomos e libertários poderiam romper a
teia de um sistema repugnante que envolve todas as classes e grupos sociais.
A partir daqui, duma realidade adversa mas contraditória, o anarquismo
pode lutar por retomar o seu papel nos movimentos sociais — nos velhos
e nos novos movimentos —, o que vai depender, pelo menos em grande parte,
da vontade, lucidez, e ação, dos
libertários.
Por mais que os ideólogos do Poder e a corte de acólitos
arrependidos, proclamem o fim da História, ela teima em afirmar que
só morrerá com o próprio homem. Mesmo que não
possamos descartar a hipótese já um dia levantada por Mannheim
de o mundo "estar entrando numa fase de aparência estática,
uniforme e inflexível."
Mesmo assim o futuro será sempre uma possibilidade em aberto onde
os seres humanos, com todas as condicionantes culturais e materiais,
poderão realizar suas utopias. Para nós anarquistas, o socialismo
libertário, a comunidade orgânica da Humanidade, continua sendo
um imperativo para a humanização das sociedades.
Mas uma grande idéia não pode germinar num só dia,
por mais rápida que seja a elaboração e a difusão
de idéias durante os períodos revolucionários.
Piotr Kropotkin
O declínio histórico do anarquismo tem
sido ao longo de décadas apresentado por seus opositores — em particular
os marxistas — como uma decorrência dum processo histórico
inevitável associado à transição de sociedades
pré-capitalistas para o capitalismo e da formação do
proletariado industrial. Essa tese que tem como expoentes historiadores do
tipo de Eric Hobsbawn dificilmente resiste a uma análise mais detalhada.
E uma coisa é certa: ao que parece, a cientificidade da história
e sua "neutralidade" não são suficientes para impedirem os
impulsos exegéticos da dogmática leninista de Hobsbawn sempre
que se refere ao anarquismo, chegando às raias da má fé
em vários de suas obras * . Outros historiadores mais
conhecedores do anarquismo como Rudolf de Jong ou o português Carlos
da Fonseca já demonstraram como o movimento anarquista do século
XX estava amplamente implantado entre os grupos operários dos principais
centros operários da época: "Que Paris, Toulouse, Barcelona,
Milão, Rio de Janeiro, São Paulo, Buenos Aires, Montevideo
ou Tóquio aí ocupem lugares de grande importância constitui
a negação das raízes rurais do movimento." **
Mas se para os pensadores liberais ou para os marxistas o declínio
do anarquismo é uma natural inevitabilidade histórica
para muitos anarquistas é um incompreensível acidente, nos
dois casos tem ficado sistematicamente ocultas as razões que explicam
tal declínio.
Para compreendermos a situação atual do anarquismo, os principais
problemas com que se confronta e as possibilidades que se abrem, teremos
de rever sua fase de declínio que se estendeu pelas décadas
de 20 e 30 e culminou com a derrota da Revolução Libertária
em Espanha em 1939. A conjugação de múltiplos fatores
adversos, que os anarquistas foram incapazes de entender ou de contornar
na conjuntura política e social da época, é o que explica
esse esvaziamento progressivo do movimento.
a) Se existe uma causa que deva ser apontada em primeiro lugar essa é
a resultante das transformações sofridas pelo capitalismo e
pelo estado, nessas primeiras décadas do século.
A intensificação das lutas operárias a partir de finais
do século XIX, o espectro da Revolução Social e as
mudanças tecnológicas e organizacionais levaram ao Capital
iniciar uma política redistributiva nos países industrializados
o que permitiu uma expansão do processo produtivo e acima de tudo
a adesão dos trabalhadores ao sistema. O acesso ao consumo tornou-se
assim o antídoto contra a revolta e fator primordial para a adesão
dos trabalhadores à lógica normativa do capitalismo.
O surgimento do Estado intervencionista, que se insere neste processo de
mudanças estruturais — seja na sua versão corporativista-fascista,
seja na de Estado de Direito Social —, levou ao reconhecimento dos direitos
econômicos e sociais dos trabalhadores e a uma demarcação
de limites ao capitalismo de livre concorrência — e livre
exploração — do século XIX
A educação e a saúde pública tornaram-se objetivos
de Estado e os direitos trabalhista: descanso, férias, assistência
social e reforma, passaram a fazer parte das políticas de governo.
O movimento operário conseguiu impor algumas das suas
reivindicações históricas, mas a troco de uma
sujeição ao Estado que se traduziu na
institucionalização dos conflitos laborais, através
de regras de arbitragem ditadas por esse mesmo Estado. Os governos criaram
um novo departamento da conciliação social: o Ministério
do Trabalho, que juntamente com tribunais e outros órgãos
especializados passaram a interferir nas lutas operárias, na tentativa
de desarticular a tática radical do confronto de classes aplicada
pelo sindicalismo revolucionário e pelo anarco-sindicalismo.
O ordenamento jurídico passou a reconhecer como direitos as
organizações operárias, as reuniões, as
manifestações e greves, mas deu-lhes um enquadramento legal
que lhes retirava todo o potencial conflitivo. Em contrapartida a
ação direta, a sabotagem, o boicote e a greve de solidariedade
passaram a ser criminalizadas e reprimidas de forma ainda mais violenta,
estabelecendo-se claramente o limite admissível para o sindicalismo:
a representação corporativa dos problemas operários.
Também o capital passou a aceitar o sindicalismo dentro desses limites,
usando um duplo critério negocial: ao fazer concessões às
exigências de sindicatos confiáveis e reprimir as que
tivessem uma dinâmica radical. Os episódios do "pistoleirismo"
capitalista nessa época, da Espanha aos EUA são por demais
conhecidos. O sindicalismo que nascera como emanação da vontade
de emancipação do movimento operário, e sua forma
auto-organizativa por excelência, tornou-se a partir de então
um reflexo das intervenções —diretas e indiretas— do Estado
e seu ordenamento jurídico.
O direito trabalhista, a institucionalização das
negociações sindicais, sujeitas a ardilosas análises
jurídicas e econômicas, favoreceram a burocratização
dos sindicatos e em muitos casos exigiram-na. Só através da
criação de estruturas administrativas e de assessoria de
especialistas do acordo: advogados, economistas, sociólogos e um sem
número de funcionários exteriores ao movimento operário,
poderiam os sindicatos enquadrar-se neste contexto negocial e nele obter
vantagens. A tentação corporativista que nunca chegou a desaparecer
do sindicalismo, mesmo nas fases em que se potenciavam mais as formas
revolucionárias do confronto de classes — tendo inclusive originado
em quase todos os países históricas polêmicas entre anarquistas
e sindicalistas —, tornavam-se agora preponderantes. *
A combatividade dos sindicatos e dos militantes operários, passava
a não ter correspondência direta com a eficácia na conquista
de melhorias contratuais. Os mais eficazes passaram a ser os mais hábeis
nas negociações, o que normalmente se traduzia na cedência
sistemática perante as imposições estratégicas
do Capital.
Estavam assim criadas as condições para a derrota do sindicalismo
anarquista, que se sustentava na consciência revolucionária,
na ação direta e na auto-organização. Tornava-se
"impossível" um sindicalismo onde não cabiam funcionários
e dirigentes profissionais e para quem — evocando a consigna do sindicalismo
revolucionário dos EUA da IWW — "trabalhadores e capitalistas não
tem nada em comum".
Neste panorama de conciliação em que o Estado ganhava uma autonomia
relativa em relação às classes dominantes, assumindo
um rosto pacificador, independente, social, deixava de haver
condições para a inteligibilidade do discurso anti-estatista
dos anarquistas. A maioria dos trabalhadores começaram a ver o Estado
como uma entidade beneficente que garantia a educação,
a saúde, a habitação e a velhice dos cidadãos
e não mais como aparelho central de gestão da
dominação.
b) Uma segunda causa pode ser apontada: o aparecimento de ditaduras terroristas
em várias regiões do mundo. Desde logo o nazi-fascismo e suas
variantes ibéricas, bem como os governos de ocupação
resultantes da expansão alemã. As ditaduras na América
Latina as ditaduras de Vargas e Perón e na Rússia dos burocratas
comunistas.
A repressão desencadeada tornava impossível a sobrevivência
do anarquismo como movimento amplo e aberto, principalmente das
organizações anarco-sindicalistas. O anarco-sindicalismo que
foi a estratégia que abriu caminho à influencia generalizada
das idéias anarquistas na maioria dos países, não tinha
condições de sobreviver em tal situação de
repressão. Só um movimento estruturado clandestinamente baseado
em grupos de afinidade poderia resistir. * Mas, mesmo nesse caso,
a sobrevivência dependeria a prazos mais longos de apoio externo, seja
na forma de auxílio material, seja na de território de exílio
e articulação. E os anarquistas jamais dispuseram de forma
continuada dessas condições. **
A prisão, morte e exílio dum número incalculável
de militantes, juntamente com a impossibilidade de manter a propaganda e
intervenção no movimento social, iria levar, em muitos
países, ao quase esvaziamento do movimento e a uma ruptura entre
gerações.
Quando se tornou possível a rearticulação, os anarquistas
estavam cindidos em duas gerações distanciadas por décadas,
que só com dificuldade se comunicavam e relacionavam.
c) Finalmente a terceira causa teve a ver com a vitória na
Revolução Russa do leninismo e a subseqüente criação
dos partidos comunistas. Ao se tornar a estratégia da vitória
sobre a burguesia — ou ao ser interpretado como tal — reintroduziu o marxismo
com carisma revolucionário no movimento operário internacional.
A ilusão de que era esse o melhor, ou o mais eficiente, caminho para
chegar ao socialismo, somado à falta de informação sobre
os rumos da revolução soviética, levou muitos anarquistas
ao leninismo. Uma adesão mais pragmática que teórica,
que os fazia ver na sociedade russa uma concretização das
idéias libertárias. E os empurrava à criação
de organizações que misturavam na sua forma e no seu discurso
os princípios anarquistas com um maximalismo ou leninismo incipiente.
Em muitos países os partidos comunistas nasceram de rupturas no seio
da corrente social-democrata, mas em quase todos houve uma
participação significativa de trabalhadores oriundos do
anarco-sindicalismo. E pelo menos no caso de Portugal e do Brasil, os Partidos
Comunistas foram uma criação de anarquistas. Esta
atração pelo leninismo viria a ser ainda maior entre os
intelectuais anti-capitalistas que se deixaram conquistar pela idéia
de criar o socialismo a partir do Estado, uma manifestação
de despotismo esclarecido, baseado na concepção de que o marxismo
seria a "ciência" da transformação social; e que aos
intelectuais estaria reservado um papel especial na vanguarda dirigente.
Nascia assim o "socialismo dos intelectuais", tão bem dissecado por
Makhaiski.
Mas foi no movimento operário que as divisões introduzidas
pelas divergentes concepções de socialismo, teriam maiores
conseqüências, já que diminuíram a própria
capacidade de resistência às ditaduras que se começavam
a instalar. Esta situação se agravou após a
adoção pelos comunistas duma estratégia internacional
— definida pelo COMITERN e ISV — de infiltração e cisão
dos sindicatos de orientação anarco-sindicalista.
A ação insidiosa dos comunistas foi determinante para desarticular
o anarco-sindicalismo e possibilitou-lhes a criação dos sindicatos
atrelados, correias de transmissão do partido, já que para
o leninismo era essa a função instrumental das
organizações operárias.
Com o agudizar da repressão e, na medida em que os comunistas conseguiram
sobreviver na clandestinidade, tornaram-se para muitos trabalhadores a
única força capaz de articular as lutas operárias contra
as ditaduras e o capitalismo. Soma-se a isso a maleabilidade tática
que os levava a não desprezar a luta pelas pequenas
reivindicações e a integrar conceitos conservadores e nacionalistas
em seu discurso, o que se adequava a um movimento social em que se expandia
o reformismo. Começava assim a dar-se a hegemonia comunista nos meios
operários, processo que estava concluído nos finais da década
de 40.
A derrota da Revolução em Espanha, foi o culminar desta
tendência e sua mais evidente demonstração. Aquele que
foi o mais avançado esboço de transformação social
libertária, foi empalmado entre fascistas e estalinistas, ante a
indiferença conivente dos Estados democráticos, na mais sinistra
combinação de forças contra-revolucionárias de
nossa época. Essa seria a última grande mobilização
popular das idéias anarquistas e a mais trágica das derrotas.
O socialismo libertário que desde o século XIX tinha tido um
dos seus bastiões na Península Ibérica, era esmagado
após uma guerra civil que levaria à morte e ao exílio
milhões de militantes. Episódio da história social
contemporânea que reúne contraditoriamente os erros, os limites
e as possibilidades criadoras do anarquismo. Nunca o anarquismo teve um papel
tão decisivo nas mudanças profundas duma sociedade quanto na
Revolução Espanhola, mas também nunca ficou tão
próximo de se descaraterizar como alternativa às
instituições estatizantes e burocráticas. A
participação de alguns de seus mais conhecidos militantes no
governo, mesmo não colhendo a adesão de parte do movimento,
nem chegando a gerar um anarquismo político de feição
maximalista, gerou um colaboracionísmo que acabou deixando seqüelas
profundas no movimento libertário.* Dessa experiência
também não conseguiram os anarquistas extrair uma teoria e
uma prática adequada para lidar com o fenômeno do Estado e do
Poder, nem desenvolverem a partir das realizações construtivas
da Revolução — para empregar as palavras de Gaston Leval, —
uma alternativa de autogestão generalizada para as modernas sociedades
complexas.
Hoje, poderemos a partir destas mesmas causas que se combinaram para debilitar
o movimento anarquista, entender as perspectivas abertas pela derrocada de
dois mitos: o do Estado Socialista e o do Estado do Bem Estar Social. E,
cinqüenta anos após a Revolução de 1936, talvez
os anarquistas possam refletir sobre todo esse período de esperanças
e derrotas dos movimentos libertários.
Mesmo que desaparecendo as duas causas fundamentais do declínio do
anarquismo, o processo ocorre numa fase em que o pensamento e a prática
libertária atingiram seu ponto mínimo e quando a
homogeneização ideológica do sistema capitalista atingiu
seu ápice. Certamente por essa razão o desgaste do estado e
da representação política só tenha gerado um
generalizado desinteresse cínico com os destinos da sociedade e não
mais uma busca duma alternativa ao existente.
O que contraditoriamente, sendo transitório, pode representar o
começo dessa busca: se não mais acreditamos no Estado e na
democracia representativa, então podemos partir para a criação
— ou recuperação — de mecanismos de auto-organização
e autogoverno das sociedades. E aí nos reencontramos com o velho desafio
do anarquismo!
Os bois passam debaixo da canga
os cegos vão aonde a gente queira levá-los
Mas o homem que nasce livre tem o seu próprio caminho...
Herbert Read
A partir dos anos 40, o anarquismo tornou-se uma pálida imagem do que
fora no passado, não possuindo sequer já o vigor, a combatividade
e a obstinação dos primeiros grupos que se formaram na década
de 60 no século XIX. A fragilidade do movimento — que se prolonga até
agora — manifesta-se na sua quase ausência dos movimentos sociais, na
sua incapacidade associativa e na sua reduzida influência no pensamento
crítico atual. Derrotado em Espanha, enfraquecido pelas mortes e
prisões, dividido pelas mágoas do exílio, o anarquismo
perdeu a sua última grande referência. Por todo o lado na Europa e
na América, os movimentos sociais reapareciam enfeudados a populismos
estatizantes ou atrelados à estratégia comunista das "correias
de transmissão", sendo meros instrumentos da política
partidária.
Gradualmente o anarquismo perdia a sua principal vitalidade das décadas
anteriores que lhe era dada pelos camponeses das diferentes comunidades do
estado espanhol, pelos operários de Barcelona, Rio de Janeiro, Buenos
Aires, pelos núcleos libertários da Ásia e pelos
internacionalistas que corriam a América e a Europa agitando as
idéias duma sociedade sem Estado.
Os grupos que persistiam em países como França e Itália
era o que sobrava desse velho movimento proletário e revolucionário
que tinha agitado a Europa nos últimos cem anos, mas a sua incapacidade
de penetração nos movimentos sociais e entre a juventude era
uma constatação evidente.
Foi então, que de forma imprevisível no final dos anos 60,
irromperam novamente as idéias libertárias, a partir de uma
geração quase sem contatos com o movimento anarquista
histórico.
A crítica da sociedade industrial, a ecologia, o pacifismo e o
comunitarismo nascidos no movimento contracultural da América do Norte,
desenvolveram-se em paralelo ao anti-capitalismo radical dos jovens estudantes
e proletários da Europa de 68. Os valores libertários que os
anarquistas tinham assumido no movimento social, ao longo de décadas,
emergiam novamente de forma criativa e espontânea. Esta nova
geração, ao se aproximar do velho movimento iria se confrontar
com o problema da distância que os separava dos militantes provindos
das lutas dos anos 30, na sua quase totalidade operários autodidatas.
Seria complexa e difícil essa integração: a visão
do mundo, o discurso, a estratégia, a origem social — e até
os comportamentos — eram distintos, dificultando que a experiência e
a história que esses velhos militantes representavam se somasse ao
voluntarismo e criatividade das novas gerações.
Passaram a coexistir dois movimentos paralelos, com suas publicações
e grupos claramente identificáveis, que umas vezes se completavam,
mas em outras conflitavam. Com o tempo acabaram por estabelecer alguns contatos,
ligações e colaborações entre si, sem no entanto
vencer definitivamente essa barreira que os separava. Não era um resultado
do envelhecimento ou dogmatismo dos velhos militantes como alguns afirmavam,
mas tão só a barreira inexorável do tempo que afastava
esses experimentados ativistas da realidade da prática social. E que
aos jovens impedia de apreender o conhecimento e a experiência que
o movimento histórico havia acumulado. Os grupos surgidos a partir
do começo dos anos 70, iriam ainda ser marcados por uma fraqueza congênita, já que
eram constituídos por estratos sociais que se definem por sua
transitoriedade e descontinuidade: jovens e estudantes. Não conseguindo
superar o maior problema com que se debatia o anarquismo nas últimas
décadas, o da sua implantação nos movimentos sociais.
O anarquismo não acredita na existência de um sujeito
histórico único e predestinado, duma classe ou grupo social
capaz de realizar, em função dum destino histórico,
mudança social — nos moldes do marxismo—. As forças sociais
que os libertários consideravam mobilizáveis para um projeto
de mudança, sempre foram mais vastas e plurais. Desde Bakunin e Kropotkin,
sempre estiveram no centro do pensamento anarquista, ao lado do proletariado,
os camponeses, todos os explorados e excluídos, os marginais e jovens,
mas enquanto pessoas concretas, sujeitos capazes de assumirem sua liberdade
e se autodeterminarem historicamente. * No entanto, é uma
condição necessária de concretização dum
projeto de transformação social, que esses sujeitos sejam parte
de grupos e classes sociais com uma afinidade de interesses e com uma
estabilidade e continuidade estrutural que possibilitem formas de
associação e de luta a prazos mais longos.
O movimento anarquista só teria, ou terá, condições
de se tornar presente nos movimentos sociais, se participar da sua dinâmica
e de suas lutas, principalmente as que nascem das condições
básicas de produção e da resistência às
relações de dominação. Já que a fábrica,
o local de trabalho dos assalariados, será sempre — enquanto não
existir a robotização total da produção — o centro
das relações fundamentais de dominação e
conseqüentemente o núcleo potencial da resistência ao capitalismo
onde pode germinar uma alternativa social. Foi aí que o anarquismo
falhou nos últimos anos, e onde conseguiu retomar esse papel, como
no Estado espanhol, foi graças à tradição
libertária da CNT que ainda mobilizava largos setores. Mas mesmo aí,
não se traduziu numa recriação da estratégia
anarco-sindicalista adaptada às profundas transformações
da economia e da própria condição operária, que
haviam sido decisivas para debilitar o movimento.
Os problemas com que se tem debatido a CNT após sua
reconstrução em 1977 resultam em parte, — já que temos
de reconhecer que existiu e existe também uma tentativa de
infiltração e cerco por parte do Estado —, de duas causas: a
primeira foi a incapacidade da CNT romper com o fantasma da história
e se abrir ao novo movimento libertário que renascia nos anos 70 em
Espanha; por outro lado do fato da estratégia anarco-sindicalista,
como se definiu historicamente, não se mostrar operante numa sociedade
em que o Capital e o Estado tinham passado por mutações profundas.
O que não representa aceitar como certa e inevitável a teoria
que o sindicalismo morreu ou é, hoje, inevitavelmente
integrador, e menos ainda, que não existe espaço para
uma estratégia de confronto nas atuais relações de trabalho.
Embora tenhamos de reconhecer que essa margem se reduziu na maioria dos
países de capitalismo maduro, onde a consciência da
sujeição desapareceu perante a perspectiva de acesso ao consumo.
E onde uma nova e radical divisão se cria no mundo do trabalho, a
que nasce da oposição entre os garantidos e os excluídos
das relações de produção.
Mesmo assim a existência da CNT em Espanha, da SAC na Suécia
e de outros núcleos de organização autônoma em
outros países, não deixam de ser um desafio que se mede pela
distância que vai desse sindicalismo revolucionário ao sindicalismo
atrelado, corporativista, e burocrático.* As formas de
organização, as táticas, os objetivos em tudo são
diferentes.
Mesmo assim temos de reconhecer com lucidez os limites atuais da prática
sindical que tende a se desvirtuar na prática negocial, ou a se encurralar
na intransigência do confronto, impedindo os ganhos imediatos, que
são uma componente necessária dessa forma de
organização. Ao contrário duma visão simplista
generalizada nos meios anarquistas, o sindicalismo burocrático e
corporativo predominante atualmente, não é um produto da
traição de dirigentes reformistas, mas a expressão dum
movimento operário que aderiu aos valores e à lógica
do capitalismo. A burocracia sindical, tal como a burocracia política,
só reflete a imagem dos movimentos sociais contemporâneos.
Esta reavaliação das relações anarquismo X
sindicalismo, e a definição duma estratégia atual
para a ação no mundo do trabalho não deixam de ser
importantes, mesmo que levando em consideração a
situação atual na maioria dos países, as perspectivas
para os anarquistas são, quando muito, a de contribuir para a
criação de núcleos de autonomia e
auto-organização nos locais de trabalho, aplicando as idéias
e táticas do anarco-sindicalismo adequadas a cada situação.
Hoje o sindicalismo para ser revolucionário, teria de se tornar mais
abrangente, mesmo ao nível reivindicativo, rompendo as amarras do
reacionarismo corporativo. Além das tradicionais lutas salariais,
de redução de horário, de melhoria das condições
de trabalho e contra o desemprego, teria de passar a intervir no
redimensionamento do papel do trabalho e da função do trabalhador.
E, indo mais além, atuar nas questões que envolvem o mundo
do trabalho, como os transportes, habitação, urbanismo, consumo
e qualidade de vida, já que são aspectos fundamentais se partirmos duma visão
integrada das relações de dominação e de suas
conseqüências na existência quotidiana dos assalariados.
** O sindicalismo revolucionário teria de retomar a
tradição perdida de ser o espaço de construção
de relações de afinidade e solidariedade e de criação
duma contracultura de resistência. Rompendo a barreira contemporânea
estabelecida entre os trabalhadores garantidos e excluídos, entre
os que possuem trabalho precário e trabalho seguro, criando formas
de organização e luta solidária junto com os desempregados.
As mudanças estruturais por que está passando a sociedade
capitalista tem como uma de suas conseqüências mais importantes
o declínio da coesão e consciência dos trabalhadores,
bem como a perda duma identidade construída ao longo do século
XIX e primeiras décadas do nosso século. O Estado do Bem Estar,
a sociedade de consumo e as tecnologias de massificação, em
particular o rádio e a televisão, podem ser apontadas como
algumas das razões fundamentais para esta realidade que se manifesta
de forma clara no primeiro mundo e já adquire os mesmos contornos
nos países do sul industrializados e urbanizados. Onde o espaço
comunitário e da socialização dá lugar à
realidade mediática duma televisão omnipresente. Se num primeiro
momento o sindicalismo e o anarquismo conseguiram se apropriar da tecnologia
da imprensa e a partir dela construir uma cultura operária e
libertária, o mesmo processo não ocorreu em relação
à rádio, televisão, vídeo e agora em
relação à informática, que foram usados quase
exclusivamente pelo sistema para unificar ideológica e culturalmente
toda a sociedade, destruindo as diferenças e neutralizando a
resistência cultural que se havia gerada a partir da crítica
anti-capitalista. Essa estratégia teve um outro desdobramento que
foi o da fragmentação do espaço coletivo quotidiano
das classes dominadas, que foram induzidas por essas mesmas tecnologias a
se fecharem sob o espaço individual e privado do lar. A
reconstrução desse espaço perdido da sociabilidade,
da comunicação e da cultura dos "de baixo" é possivelmente
o maior desafio que um projeto libertário terá de enfrentar.
O anarco-sindicalismo, principal responsável pela criação
dessa cultura operária, foi um exemplo de criatividade dos
operários libertários e de sua adaptação às
necessidades de luta da época em que surgiu. Foi também a
aplicação concreta de estruturas auto-controláveis e
auto-dirigidas à sociedade industrial.
Sua recriação atual, terá de afastar qualquer
pretensão de imitação saudosista e considerar que é
uma das estratégias possíveis de luta anti-capitalista.
Talvez a que maiores potencialidades ainda tem entre os setores sociais sujeitos
as condições de exploração violenta ou em
regiões do mundo onde o quotidiano de miséria e
exploração mantém desperto o instinto combativo dos
assalariados.
Mas não perdendo de vista que toda a análise social centrada
exclusivamente sobre as relações de produção,
não dá conta dos problemas levantados no passado, e menos ainda
nos últimos anos, pelos novos movimentos sociais, nascidos como respostas
as situações e conflitos diferenciados. O anarquismo que já
no passado se manifestava e agia nas mais diferentes áreas, do
anti-militarismo e pacifismo, ao naturismo, do esperanto às
experiências educacionais, deveria estar especialmente atento às
potencialidades libertárias destes novos movimentos. Mas nem por isso
deixando de apontar sua principal limitação que é a
de se assumir uma visão parcelada e limitada dos problemas estruturais
da sociedade, perdendo-se a noção do todo social.
Da organização dos consumidores, ao ambientalismo, da ecologia
ao feminismo, do anti-militarismo às prisões, muitos são
os objetivos e as formas de associação que potenciam a
auto-organização de largos setores da sociedade em defesa dos
seus interesses e certamente em todos os casos pode haver uma proposta e
uma presença libertária que potencie a articulação
e globalização de cada uma dessas lutas.
A ecologia social e o anti-militarismo, pelas suas tradicionais afinidades
com os valores libertários, são áreas onde a
militância anarquista mais se tem exprimido, mas também aí
as potencialidades são limitadas, se for perdido o sentido duma
estratégia global de ruptura. * Uma alternativa social
não é possível construir a partir do espaço
fragmentado da particularidade e da diferença, mas somente a partir
da cooperação em torno de um projeto de mudança que
una diferentes grupos e tendências sociais. Caso contrário
acabarão engolidos — como temos assistido nos últimos tempos
— pelo movimento permanente de integração, através do
qual o sistema tende a recuperar em seu benefício toda a crítica
parcelar.
Também as lutas relativas às liberdades se tem tornado mais
comuns nos chamados países democráticos, sendo decisivas para
impedir a expansão do Estado autoritário. Delas não
se podem ausentar os anarquistas com o inócuo pretexto de que em muitas
delas estão em causa apenas regras jurídicas, já que
são estes espaços de liberdade que o movimento social impôs
ao Estado, como seus direitos que estão ameaçados.
As garantias penais e processuais, os direitos dos presos, o direito de asilo
e de emigração, são entre muitos outros, os que os Estados
vem paulativamente eliminando ou reduzindo. A nossa crítica ao Estado
se concretiza no estabelecimento de metas imediatas para a luta social nesta
área. Contrariamente a uma recusa abstrata ou a uma concepção
doutrinária, devemos opor uma prática radical anti-estatista,
que em cada caso e situação se oponha à expansão
e hegemonia das relações de Poder e favoreça a autonomia
e a criação de espaços de liberdade a partir da
própria sociedade.
Todas estas possibilidades, em aberto, para nossa intervenção,
estão condicionadas pela capacidade de nos articularmos e associarmos,
já que só movimentos sociais organizados têm
condições para transformar qualquer situação
social. Nossa fragilidade organizativa: incapacidade de associação
e coordenação em cada região e mais ainda
internacionalmente, são por demais evidentes para não serem
vistas como um dos problemas chaves do que genericamente chamamos de movimento
libertário. Não se solucionando isto, será impossível
qualquer acutíssimo profícuo ou qualquer resultado duradouro
para a nossa atividade militante. O processo de globalização
da sociedade industrial, está entrando num momento decisivo, onde
o internacionalismo e a solidariedade dos povos é o único
antídoto contra a xenofobia e a ghetização dum mundo
repartido entre o desperdício da abundância no Norte e a mais
absurda das misérias no Sul. Usando as palavras de Noam Chomsky:
"o principal hoje é que se a resistência popular quiser ter
alguma significância, terá que ser internacional..., isto
começa a ser compreendido e é preciso que haja algum tipo de
reação em escala internacional, um tipo de solidariedade
transnacional entre pobres e trabalhadores".
Por essa razão podemos afirmar que, de forma imediata, teremos de
encarar a questão da associação, articulação
e coordenação de nossas práticas. O que passa também
pela clarificação do papel da organização
libertária, que é, antes do mais, o de criação
dum espaço coletivo, livre e fraterno, onde se forjem novas
relações sociais e se viva de acordo com os valores duma cultura
alternativa libertária. "Nessa época os trabalhadores e os
pobres não estavam nem de longe tão isolados e nem submetidos
ao monopólio ideológico da mídia dos negócios."
* E por essa razão a esperança e a utopia se reproduziam
nesses espaços libertados onde viviam os excluídos. É
esta uma das funções que temos de recuperar para as
associações libertárias, ao mesmo tempo que se assumam
como um núcleo de difusão das idéias anarquistas e de
articulação da luta de resistência anti-capitalista.
As formas concretas podem ser diversas, das organizações
anarco-sindicalistas, às federações de grupos de afinidade,
das redes de informação, às associações
de ateneus e centros de cultura. O fundamental é federalizar e coletivizar
práticas e experiências isoladas, ampliando assim as possibilidades
de * intervenção social. A ruptura com o isolamento e o
individualismo do cidadão-consumidor-espectador é o passo mais
decisivo no caminho da reconstrução do espaço coletivo
da alternativa social.
Só através da associação e do respeito pela
autonomia, singularidade e diferença entre cada indivíduo ou
grupo, mas também potenciando, acima de tudo, o que temos em comum,
que é fundamento de qualquer relação de afinidade,
solidariedade e apoio mútuo, poderemos criar uma dinâmica nova
no movimento e concretizarmos no imediato as formas organizacionais que propomos
para a sociedade.
Este é o modelo reconhecido por qualquer militante libertário,
mas que tantas vezes negamos ao adotar posturas dogmáticas, confrontos
personalizados, criticismos inconseqüentes, resultantes dum
descomprometimento com a ética anarquista. A ética que nos
leva a exigir uma adequação dos meios aos fins, sempre foi um ponto central da nossa crítica ao socialismo
autoritário, assumindo um papel central na militância
libertária e condicionando imperativamente nossa prática social.
Uma realidade em que estão presentes tensões permanentes,
resultantes das pressões do meio social, da introjeção
dos valores dominantes e das limitações pessoais, mas que
será sempre o critério determinante para a avaliação
da coerência de cada um de nós.
A ética anarquista e os valores libertários tornam-se assim
pontos duma ruptura radical com as ideologias autoritárias. É
o ponto mais profundo de clivagem com o socialismo autoritário e sua
visão mecanicista e determinista. A rebeldia, a transformação
social só podem ser um produto da vontade livre de sujeitos
autodeterminados e solidários vivendo dentro duma dada realidade
histórica e social. Jamais produto das condições materiais
de produção. Essas sempre potenciarão a
maximização da alienação e da sujeição.
Nenhum materialismo vulgar poderá explicar Miguel Angiolillo. Um
operário italiano refugiado em Londres, que depois de conhecer os
depoimentos de anarquistas espanhóis vítimas de prisão
e tortura, decide em 1896 calma e pacientemente procurar o primeiro ministro
dum país estranho e o assassinar, morrendo no garrote após
realizar o que para si era imperativo pessoal de solidariedade.
Uma sociedade que se auto-organiza sem autoridade, está sempre
ao nosso alcance como uma semente debaixo da neve, enterrada pelo peso do
Estado e sua burocracia...
Colin Ward
Ao contrário do que muitos gostariam o anarquismo não é
uma espécie exótica em extinção, em todos os
países eles estão presentes na manifestação ruidosa
na praça pública ou na recusa silenciosa. Mas certamente poderemos
afirmar que enquanto movimento com o mínimo de organicidade,
o anarquismo desapareceu nos últimos cinqüenta anos. Existem
coletivos, publicações e associações em muitos
países, mas não mais um movimento federalizado e internacionalista
que se relacione de forma ativa e se afirme como alternativa social. A
incapacidade organizativa, a reduzida atuação do anarquismo
nos movimentos sociais e a cristalização teórica são
essas as questões centrais que os libertários têm de enfrentar
nos tempos presentes.
Existe uma relação direta entre estes dois aspectos já
que, quer o pensamento individual, quer a elaboração dum
conhecimento coletivo, estão ligados indissociavelmente à
participação da práxis dum grupo social. Como alguns
libertários gostam de afirmar "os anarquistas são teóricos
da sua prática e práticos da sua teoria". É em
função do agir sobre a realidade que qualquer teoria social
se vai elaborando, desdobrando e auto-corrigindo. Cada sucesso ou fracasso,
impõe uma reavaliação do nosso pensar.
Esta relação primordial entre teoria e prática, sempre
existiu no movimento anarquista histórico, essa foi uma das razões
porque não se constituiu uma intelligentzia especializada em pensar a mudança social, entre os
libertários. No marxismo essa ruptura gerou na maioria dos casos um
pensamento essencialmente ideológico e contemplativo, tipicamente
acadêmico e nesse sentido inútil para o movimento anti-capitalista.
Desde sua prisão na Saxonia escreveu Bakunin uma carta em que dizia:
"Encontro-me agora no ponto zero, quero dizer que estou condenado à
condição de ser exclusivamente pensante, ou seja, não
vivente." Se existe corrente socialista que assumiu a 11ª Tese de Marx contra
Feuerbach: "Os filósofos se limitaram a interpretar o mundo
diferentemente, cabe transformá-lo" foram os libertários. No
anarquismo os intelectuais do movimento sempre se assumiram mais como militantes
do que como pensadores, sua radicalidade, e a opção pela
coerência impossibilitaram que o anarquista produzisse essa
subespécie de teóricos contempladores. Mesmo os que como
intelectuais brilhantes como Kropotkin, Reclus ou Santillan acabaram não
dispondo do tempo e meios que lhes possibilitassem procurar suas cadeiras
em alguma Biblioteca do exílio. Mas certamente é difícil
encontrar movimento social que tenha conseguido produzir tantos autodidatas
críticos e pensadores quanto o anarquismo, usando a deliciosa
expressão do historiador do anarquismo Edgar Rodrigues — também
ele um autodidata — que movimento conseguiu produzir um "engraxate e intelectual"
como Ossep Stefanovetch ucrâniano anarquista que viveu no Brasil?.
A própria natureza heterodoxa do anarquismo impedia essa
recuperação ideológica, até porque desde Proudhon
se recusava a construção dum sistema fechado e auto-suficiente:
"Acolhamos, encoragemos todos os protestos, desonremos as exclusões,
todos os misticismos: não olhemos jamais uma questão como esgotada,
e quando tivermos usado até ao nosso último argumento, recomecemos,
se for preciso, com eloqüência e ironia" * O que também
o diferenciava daquela corrente que se proclamava do socialismo científico
e que era uma manifestação duma imensa arrogância e
dogmatismo intelectual.
Só que na medida em que o anarquismo se foi afastando da realidade
social, perdendo suas raízes nos movimentos sociais, também
ele se encaminhou para a cristalização teórica, que
se traduziu num pensamento fechado e doutrinário em uns casos, numa
reflexão acadêmica sem qualquer conteúdo de crítica
social, em outros ou num niilismo chique para consumo de classe média.
O anti-dogmatismo essencial do anarquismo, não justifica, que nos
possamos agarrar a algumas idéias gerais e excluir o sentido da
dúvida sistemática e uma necessária recriação
permanente, o que nos impõe um aguçado sentido autocrítico.
Ao contrário, a complexidade social atual, os novos problemas a encarar
e a ampliação permanente do conhecimento, deve-nos levar a
novas elaborações de valores e objetivos libertários.
Não como forma de adaptação à realidade
— do tipo libertarista pós-moderno —, mas sim como meio de responder
à crítica necessária dessa realidade.
Conjugar o sentido utópico do anarquismo com a reflexão
teórica e uma prática social, é condição
desse pensamento revolucionário. Caso contrário ficará
reduzido a uma ética de comportamento ou a uma seita messiânica
sem qualquer condição de interação com os
acontecimentos reais.
Quanto às novas teorizações que tem ocorrido nos
últimos anos, um pouco por todo o lado, na linha libertarista
norte-americana de um Robert Nozick *, há muito se afastou
dos valores radicais do anarquismo para se aproximar dum liberalismo, que
não tem correspondência com a realidade cínica do sistema
dominante. Mais que um pensamento reformista —já que nem radicais
são em suas exigências de reforma—, é um pensamento
acomodado, incapaz de questionar profundamente a realidade e apostar na vontade
e desejo utópico que sempre estiveram presentes nos movimentos sociais
dos oprimidos.
Ao contrário do que apregoam os libertaristas, o pensamento anarquista
clássico sobre o Estado e o Poder, mantém toda a sua
pertinência e o conceito libertário duma comunidade autogovernada,
descentralizada e federalizada é mais atual que nunca. A
intuição e lucidez na crítica do socialismo
autoritário e do Estado, demonstrou-se duma objetividade
insofismável.
O que não nos impede de reconhecer que as idéias expostas por
Proudhon, Bakunin, Kropotkin, Malatesta e Landauer, entre outros, não
tiveram os desenvolvimentos posteriores que se faziam necessários.
Muitas questões abertas pela experiência da Revolução
Soviética e da Revolução libertária em Espanha,
bem como muitas outras surgidas com as mutações ocorridas na
sociedade industrial (das novas tecnologias, à ecologia) estão
em aberto. Uma teoria do Poder; uma concepção libertária
de organização; a análise das formas de autogestão;
os problemas de escala e da complexidade tecnológica na sociedade
contemporânea; um entendimento dos mecanismos psicológicos da
agressividade e da dominação; as relações de
micropoder na família e nos grupos, um estudo das potencialidades
libertadoras da robótica e da telemática, são entre
outros temas que precisam de ser aprofundados desde uma perspectiva
libertária.
Enquanto o anarquismo esteve no centro dos movimentos sociais e se afirmava
como pensamento rebelde, manteve sua capacidade de atração
sobre uma intelectualidade desvinculada e crítica. Até ao
começo do século conhecidos pensadores se interessavam pelas
idéias e as principais figuras do movimento como Kropotkin e Reclus,
encontravam-se envolvidas nos grandes debates intelectuais da época.
Nos anos 20 ainda muitos pensadores da importância de Buber, Lukács
e Benjamin estavam próximos de posições libertárias,
o mesmo ocorrendo com muitos escritores e artistas. * Após
os anos 30 a atração exercida pelo socialismo
possível abriu o caminho à hegemonia do marxismo-leninismo
nos meios intelectuais, passando o anarquismo a persistir como referência
só em alguns meios dissidentes : dos teóricos do comselhismo,
pacifistas, ou escritores como Perét, Breton, Orwell, Huxley e Camus.
Um movimento inverso, embora minoritário, haveria de ocorrer, quando
a consciência dos crimes cometidos pelas burocracias vermelhas, aproximou
do anarquismo importantes intelectuais oriundos do marxismo, entre os quais
Herbert Read, Daniel Guerin, Murray Bookchin, Chomsky e Paul Goodman. Com
eles o pensamento libertário ganhou importantes contribuições
em novas áreas, da arte, educação, urbanismo e ecologia
social.
Mas foi só a partir dos anos 60, que assistimos a uma ruptura ampla
dos intelectuais como o socialismo autoritário, quer pelo conhecimento
da realidade do estalinismo, quer pela influência da explosão
libertária ocorrida no final dessa década. Só que essa
ruptura haveria de tomar duas direções: de um lado uma maioria
intelectual que adotou a postura acomodada de conivência tácita
ou adesão explícita ao capitalismo, sob o eufemismo de adesão
aos valores democráticos; de outro uma minoria que persistiu com uma
posição crítica e autônoma, vindo vários
a se aproximar dos valores libertários e da tradição
anarquista, mesmo que em alguns casos tenham permanecido com posições
oscilantes e contraditórias, já que por pruridos marxistas
ou por preconceitos acadêmicos, acabavam não reconhecendo
explicitamente essa vinculação. Dos situacionistas, a Guattari,
Bosquet e Castoriadis, a contribuição a um pensamento
libertário contemporâneo ainda é feita com preconceitos
e mal entendidos em relação à corrente social que mais
pensou e lutou por esses valores.
Não está em causa a eliminação dum sentido
crítico sobre o próprio anarquismo, ou a identificação
apriorística do libertário com aquele que se diz ser anarquista,
mas certamente é contraditório se posicionar como libertário
e ostensivamente ignorar um pensamento e uma prática social que se
traduziram na história contemporânea, essencialmente, no movimento
anarquista.
Pelo contrário, entre os anarquistas sempre houve uma procura permanente
das fontes do pensamento libertário, dos heréticos do passado
aos do presente, de Illich a Marcuse e Reich, uma posição aberta
à heterodoxia. Mesmo que em alguns casos também tenham ocorrido
resistências a essas críticas libertárias que não
eram de matriz anarquista, como se por esse fato, fossem menos fundamentais
para nós.
Essa forma de preconceito, também leva ao dogmatismo e traduz-se na
maioria dos casos, numa recusa de toda a produção teórica
que seja exterior ao movimento. Uma obstinada cegueira que impossibilita
uma leitura proveitosa, por exemplo, do pensamento de raiz marxista,
principalmente aquele elaborado por intelectuais anti-autoritários.
Esta intransigência não leva em conta o que Kropotkin um dia
caracterizou como a luta permanente de duas tendências na história
e na sociedade: uma corrente autoritária e uma corrente libertária.
E que esta última não pode ser reduzida a uma expressão
pura, pelo contrário é produto duma prática e dum
processo reflexivo contínuo e tantas vezes contraditório em
que cada grupo e indivíduo, de forma cooperativa, vão acrescentando
algo de novo, numa superação permanente de dúvidas e
dificuldades. Usando as palavras de Colin Ward: "a escolha entre as
soluções libertária e autoritária não consiste
em uma luta catastrófica definitiva, mas em uma série de
compromissos atuais, muitos deles inconclusos, que ocorrem e ocorrerão,
ao largo de toda a história". *
No entanto, é sintomático a dificuldade do anarquismo absorver
o novo pensamento libertário. Tirando algumas excepções
como Itália, onde tem estado presente nos coletivos anarquistas assumindo
aí uma contemporaniedade radical, em Espanha depois do período
dinâmico do fim dos anos 70, quando publicações como
a Bicicleta trouxeram esse novo rosto do pensamento libertário, logo
se voltou a um discurso carregado de fantasmas e saudades.
Esta cristalização ideológica do anarquismo, como teoria
definida e acabada, leva a uma concepção sectária e
religiosa, Víctor Garcia velho militante anarquista colocou o dedo
na ferida numa crítica ácida ao ortodoxismo quando escreveu:
"El anarquismo debe vigorizar-se y actualizar-se, condición imprescindible
si deseamos tener auditorio. El anarquismo organizado, en particular, ha
sufrido una exagerada tirania por parte de vestales, exégetas y
Torquemadas que no han permitido nunca el re-examen y la renovación
de unas táticas por miedo a que se resintieran los principios y las
finalidades. Esta imposición oficialista ortodoxa no ha permitido
el airear nuestros recintos que se han llenado de telerañas mientras
el mundo intelectual y la ciência continuaba una marcha vertiginosa
que nos costará esfuerzos supremos si queremos darle alcance. Todo
el que no se renueva, muere..." **
O anarquismo nasceu da dissidência e da heterodoxia, em Godwin, Bakunin
ou Malatesta não encontramos esse sectarismo e ortodoxia, essa
tentação que não esteve de todo ausente em outras
épocas, acabou sufocada pela diversidade e radicalidade heterodoxa.
Anarquistas, sindicalistas, individualistas, pacifistas e
insurreicionalístas, foram a expressão dessa pluralidade
libertária que fizeram do anarquismo uma manifestação
viva do pensamento anti-dogmático. Estas são algumas das
características que temos de preservar, a tolerância é
uma componente básica do movimento anti-autoritário, sem ela
não é possível pensar qualquer forma de associativismo
ou qualquer forma de renovação.
Os homens temem este desconhecido no qual entrariam se renunciassem à
atual ordem de vida conhecida. Sem dúvida, é bom temer o
desconhecido, quando nossa situação conhecida é boa
e segura; mas este não é o caso e sabemos, sem margem de
dúvida, que estamos à beira do abismo.
Liev Tolstoi
Mesmo neste momento de maior arrogância do sistema capitalista que
se travestiu em sociedade democrática e só por esse nome quer
ser conhecido — principalmente do seu Estado—, quando a ideologia do Poder
e da Sujeição se escuta em todo o lado, não se descortinam
argumentos a favor dum sistema essencialmente — e historicamente — infame.
Sua irracionalidade econômica e social é por demais evidente.
A pequena ilha de abundância, cercada de pobreza, pode até ser
o paraíso, ou um pobre sucedâneo, para os que aí vivem.
Só que não passa disso, uma ilha que é abastecida e
financiada pelos que vivem fora dela. Uma multidão de esfomeados,
desesperados ou dos conformados na miséria que povoam as grandes
regiões do planeta. Como é possível falar de progresso,
desenvolvimento e êxito do gênero humano neste contexto em que
uma parte da Humanidade se dessolidariza da restante?
Como admitir como política ou eticamente admissível um sistema
social que perpetua tal realidade?
Que Futuro aponta essa realidade?
Certamente não é a ampliação da sociedade de
consumo, à escala universal, mesmo que se amplie a novas ilhas, no
oceano do apartheid social. Os recursos escassos e a crise ecológica
provocada pela economia do lucro e do desperdício, só permitem
visualizar uma planificação autoritária à escala
mundial, com o controle rigoroso dos recursos, da destruição
ambiental e da própria população. * Em resumo,
um sistema ainda mais autoritário e injusto.
O contraponto a esse futuro será sempre uma possibilidade, criada
a partir da vontade, desejo e consciência dos de baixo, dos
excluídos deste sistema, mas também de todos os estratos sociais
para quem a Humanidade é maior que o Estado, evocando as palavras
de Martin Buber. Dos que tem consciência que as opções
são mais vastas e que o futuro e o mundo são criados pelos
seres humanos e, como tal, sempre estarão abertos à nossa
ação criadora.
Do ponto de vista do anarquismo, do movimento dos que recusam todas as formas
de dominação, não podemos deixar de considerar uma prova
da perenidade do inconformismo e da rebeldia, a persistência do movimento
e das idéias nesta época de restauração e
conformismo. O aparecimento de novos grupos no Leste europeu e em países
do Terceiro Mundo, bem como a aproximação de intelectuais dos
princípios libertários, sinalizam a pertinência da
reflexão anarquista sobre o poder, a dominação e o estado.
Abrindo possibilidades para o ressurgir dum socialismo libertário,
orgânico e federalista. A própria generalização
nas redes sociais de conceitos como autonomia, apoio mútuo,
descentralização, democracia direta, federalismo que afloram
dentro das chamadas Organizações Não Governamentais
principalmente nos países do Sul permitem ter a esperança que
as sociedades se aproximem em suas buscas dum modelo libertário, mesmo
que essa forma de organização não assuma os contornos
idealizados pelos militantes do passado.
A crítica da política como ocultação e falsa
consciência, e do Estado como burocracia da inutilidade, que se manifesta
também nos movimentos sociais reabre o caminho libertário dos
projetos sociais autogestionários.
A idéia libertária manifestou-se sob várias formas no
passado, da antigüidade aos movimentos religiosos e messiânicos,
no presente se manifesta nas experiências autogestionárias da
América Latina, nos movimentos ecológico, feminista e pacifista,
não sendo propriedade de nenhum grupo. Mas ninguém foi tão
longe como os anarquistas na tentativa de modelar um projeto social
libertário, fazendo convergir a igualdade e a liberdade, o indivíduo
e a comunidade, a autonomia e a cooperação. Por isso podemos
dizer que o anarquismo é uma síntese dos ideais que revolucionaram
a época moderna, uma utopia subversiva que questiona a realidade sobre
valores fundamentais ainda não realizados.
Mas estará o anarquismo condenado à sua condição
de utopia?
Certamente que o pensamento libertário também é feito
de desejo e utopia, mas como disse Bakunin "foi na busca do impossível
que o homem realizou e reconheceu o possível". No entanto o anarquismo
é também uma práxis e um projeto social objetivo, que
se assumindo como uma visão otimista da Humanidade, propõe
a mudança positiva, onde as comunidades valorizem a vertente do apoio
mútuo, da liberdade e igualdade e recusem as formas mediáticas,
centralizadoras e autoritárias de organização social.
Colocando ante nós algumas interrogações:
Porquê reconhecer no capitalismo o último e definitivo modo de produção e no Estado com sua "democracia" representativa a derradeira forma das comunidades se organizarem?A realidade contraditória que estamos vivendo abre novas possibilidades ao renascimento dum pensamento e duma prática libertária que contribua para responder a essas perguntas. Certamente que esta mesma realidade pode forjar novas sujeições e autoritarismos: poderes supranacionais, integrismos religiosos, nacionalismos dementes, violência autofágica, manipulação genética, etc.
Porquê não retomar e aprofundar a tradição libertária, descentralizadora e federalista que persistiu em várias épocas e civilizações?
©2000,2006 - Arquivo de História Social Edgar Rodrigues
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Abril 2000
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