Alice no País das Maravilhas
Lewis Carroll
(Charles Lutwidge Dodgson 1832-1898)
Ilustrações
Sir John Tenniel (1820-1914)
[Não disponíveis neste formato]
Tradução
Clélia Regina Ramos
mamalag@uol.com.br
Editorial Arara Azul
www.editora-arara-azul.com.br/
Versão para eBook
eBooksBrasil.com
Fonte Digital
Documento da Tradutora
©2002 — Lewis Carroll
Capítulo I
Para baixo na toca do coelho
Capítulo II
A lagoa de lágrimas
Capítulo III
Uma corrida de comitê e uma longa história
Capítulo IV
O coelho manda Bill O Lagartto
Capítulo V
Conselho de uma lagarta
Capítulo VI
Porco e pimenta
Capítulo VII
Um chá maluco
Capítulo VIII
O jogo de críquete no campo da rainha
Capítulo IX
A história da falsa tartaruga
Capítulo X
A dança da lagosta
Capítulo XI
Quem roubou as tortas?
Capítulo XII
O depoimento de Alice
Alice estava começando a ficar muito cansada de estar sentada ao lado de sua irmã e não ter nada para fazer: uma vez ou duas ela dava uma olhadinha no livro que a irmã lia, mas não havia figuras ou diálogos nele e “para que serve um livro”, pensou Alice, “sem figuras nem diálogos?”
Então, ela pensava consigo mesma (tão bem quanto era possível naquele dia quente que a deixava sonolenta e estúpida) se o prazer de fazer um colar de margaridas era mais forte do que o esforço de ter de levantar e colher as margaridas, quando subitamente um Coelho Branco com olhos cor-de-rosa passou correndo perto dela.
Não havia nada de muito especial nisso, também Alice não achou muito fora do normal ouvir o Coelho dizer para si mesmo “Oh puxa! Oh puxa! Eu devo estar muito atrasado!” (quando ela pensou nisso depois, ocorreu-lhe que deveria ter achado estranho, mas na hora tudo parecia muito natural); mas, quando o Coelho tirou um relógio do bolso do colete, e olhou para ele, apressando-se a seguir, Alice pôs-se em pé e lhe passou a idéia pela mente como um relâmpago, que ela nunca vira antes um coelho com um bolso no colete e menos ainda com um relógio para tirar dele. Ardendo de curiosidade, ela correu pelo campo atrás dele, a tempo de vê-lo saltar para dentro de uma grande toca de coelho embaixo da cerca.
No mesmo instante, Alice entrou atrás dele, sem pensar como faria para sair dali.
A toca do coelho dava diretamente em um túnel, e então aprofundava-se repentinamente. Tão repentinamente que Alice não teve um momento sequer para pensar antes de já se encontrar caindo no que parecia ser bastante fundo.
Ou aquilo era muito fundo ou ela caía muito devagar, pois a menina tinha muito tempo para olhar ao seu redor e para desejar saber o que iria acontecer a seguir. Primeiro, ela tentou olhar para baixo e compreender para onde estava indo, mas estava escuro demais para ver alguma coisa; então, ela olhou para os lados do poço e percebeu que ele era cheio de prateleiras: aqui e ali ela viu mapas e quadros pendurados em cabides. Alice apanhou um pote de uma das prateleiras ao passar: estava etiquetado “GELÉIA DE LARANJA”, mas para seu grande desapontamento estava vazio: ela não jogou o pote fora por medo de machucar alguém que estivesse embaixo e por isso precisou fazer algumas manobras para recolocá-lo em uma das prateleiras.
“Bem”, pensou Alice consigo mesma. “Depois de uma queda dessas, eu não vou achar nada se rolar pela escada! Em casa eles vão achar que eu sou corajosa! Porque eu não vou falar nada, mesmo que caia de cima da casa!” (O que era provavelmente verdade).
Para baixo, para baixo, para baixo. Essa queda nunca chegará ao fim?
“Eu adoraria saber quantas milhas eu caí até agora”, ela disse em voz alta. “Eu devo estar chegando em algum lugar perto do centro da terra. Deixe-me ver. Até aqui eu já desci umas 400 milhas, eu acho... (você vê, Alice aprendeu uma porção desse tipo de coisas na escola e pensou que seria muito boa a oportunidade de colocar para fora seu conhecimento; mesmo não havendo ninguém para ouvi-la, ainda assim era bom praticar.)
”Sim, acho que está correto, mas em que Latitude e Longitude estaríamos?” (Alice não tinha a mais leve idéia do que Latitude era, ou Longitude tampouco, mas ela pensava que eram boas palavras para se dizer.)
Logo ela começou novamente: “Eu queria saber se eu posso cair direto através da terra! Como seria engraçado surgir entre as pessoas que caminham com suas cabeças para baixo. Os antipáticos, eu acho... (ela estava menos triste que não houvesse ninguém ouvindo agora, porque aquela não soou como a palavra correta) mas eu tenho que pedir-lhes que digam o nome do país deles, sabe. Por favor, madame, aqui é a Nova Zelândia? Ou Austrália? (e ela tentou fazer uma reverência enquanto falava — tentar fazer uma reverência enquanto se cai no ar! Você acha que poderia controlar isso?) Ela iria pensar que eu sou uma garotinha ignorante por perguntar! Não, não vou perguntar nunca. Talvez eu possa ver o nome escrito em algum lugar.”
Para baixo, para baixo, para baixo. Não havia nada mais a fazer, então
Alice começou a falar novamente.
“Dinah vai sentir muito a minha falta esta noite, eu acho (Dinah era
a gatinha). Espero que eles lembrem de dar-lhe leite na hora do chá.
Dinah, minha querida! Eu queria que você estivesse aqui comigo agora.
Não há ratos no ar, eu temo, mas você poderia pegar um
morcego, e eles são tão parecidos com os ratos, você sabe.
Mas será que os gatos comem morcegos?” E aqui Alice começou
a ficar sonolenta e continuou falando para si mesma, de uma maneira sonhadora.
“Gatos comem morcegos?”, e às vezes “Morcegos comem
gatos?”
Como vocês podem ver, ela não conseguia responder nenhuma das
duas questões, portanto não importava muito de que maneira ela
as colocava. Alice sentiu que estava cochilando, e começou a sonhar
que caminhava de mãos dadas com Dinah e falava com ela, bem seriamente:
“Então, Dinah, diga-me a verdade...você já comeu
um morcego?”, quando subitamente, thump!thump!, caiu sobre uma pilha
de gravetos e folhas secas e a queda acabou.
Alice não estava nem um pouco machucada, e pôde saltar sobre
os pés num instante: olhou para cima mas estava tudo escuro sobre sua
cabeça, diante dela havia outro grande túnel e o Coelho Branco
ainda estava à vista, apressado.
Não havia nenhum momento a perder! lá se foi Alice como vento,
exatamente a tempo de ouvi-lo dizer, quando virara a esquina:
“Oh! minhas orelhas e minhas vibrissas, como está ficando tarde!”
Alice estava bem atrás dele quando dobrou a esquina, mas ainda era
possível avistar o coelho. A menina encontrou-se, então, em
um comprido e baixo aposento, que era iluminado por uma fileira de lâmpadas
penduradas no teto.
Havia portas por toda a volta do aposento, mas estavam todas trancadas, e
depois que Alice percorreu uma a uma, tentando cada porta sem sucesso, ela
voltou tristemente para o centro do quarto, pensando sobre como sairia daquela.
De repente, encontrou uma pequena mesa de três pés, toda feita
em vidro sólido: não havia nada sobre ela senão uma minúscula
chave dourada e a primeira idéia de Alice foi de que ela deveria pertencer
a uma das portas da sala; “mas, ai de mim!, ou as fechaduras são
muito grandes ou a chave muito pequena, mas de qualquer maneira não
iria abrir nenhuma das portas.” Entretanto, na segunda tentativa, Alice
encontrou uma cortina que não havia percebido antes, e atrás
dela existia uma pequena porta de aproximadamente 40 centímetros: a
menina colocou a pequena chave dourada na fechadura e, para seu grande prazer,
ela encaixou!
Alice abriu a porta e viu que dava para uma pequena passagem, não muito
maior que um buraco de rato: ela ajoelhou-se e avistou o mais adorável
jardim que jamais vira. Como ela gostaria de sair daquela sala escura e passear
por entre aqueles canteiros de flores viçosas e aquelas fontes geladas...mas
ela nem mesmo conseguiria fazer passar sua cabeça pela porta; “e
mesmo que a minha cabeça passasse”, pensou a pobre Alice, “teria
pouca utilidade sem meus ombros. Oh! como eu desejo poder encolher como um
telescópio. Eu acho que poderia, se ao menos soubesse como começar.”
Vejam só, tantas coisas estranhas tinham acontecido ultimamente que
Alice começara a pensar que muito poucas coisas eram na verdade realmente
impossíveis.
Não havia muito sentido em ficar esperando ao lado da portinha e então
Alice voltou em direção à mesa, com esperança
de poder encontrar outra chave sobre ela ou, quem sabe, um livro de regras
para ensinar as pessoas a encolherem como telescópios: desta vez ela
encontrou uma pequena garrafa sobre ela (“que certamente não estava
sobre aqui antes”, disse Alice) e amarrada ao redor do gargalo estava
uma etiqueta com as palavras “BEBA-ME” lindamente impressa em palavras
grandes.
Tudo bem dizer “BEBA-ME”, mas a sábia Alice não ia
fazer aquilo apressadamente. “Não, eu vou olhar primeiro”,
disse ela, “e ver se está marcado veneno ou não”; Alice
já lera muitas lindas histórias sobre criancinhas queimadas
ou engolidas por feras selvagens e outras coisas desagradáveis, tudo
porque não tinham lembrado das regras simples que seus amigos falavam
para elas. Por exemplo: um atiçador de lareira pode queimá-lo
se você segurar por muito tempo, ou, se você cortar seu dedo muito
fundo com uma faca, geralmente sangra; e ela nunca esquecera aquela: se você
beber de uma garrafa que diz “veneno” é quase certo que isso
irá prejudicá-lo, cedo ou tarde.
Entretanto, esta garrafa não tinha gravado “veneno”, daí,
Alice aventurou-se a experimentá-la e, achando o sabor muito gostoso
(o conteúdo tinha, de fato, um tipo de mistura de torta de cereja,
creme de ovos, leite e açúcar, abacaxi, peru assado, toffy e
torradas quentes), ela bem rápido acabou com ele.
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“Que sensação estranha”, disse Alice. “Eu devo
estar encolhendo como um telescópio!”
E daí era fato, ela estava agora com apenas 25 centímetros de
altura, e seu rosto resplandeceu ao pensar que aquele era o tamanho exato
para atavessar a portinha em direção ao adorável jardim.
Primeiro, entretanto, ela esperou alguns minutos para ver se ainda iria encolher:
ela sentiu-se um pouco nervosa em relação ao fato “porque
isso pode resultar, você sabe”, disse Alice para si mesma, “em
eu sumir como uma vela”. A menina ficou pensando como seria, tentando
imaginar como a chama de uma vela se parece depois que a vela acaba e ela
não conseguiu lembrar de ter visto alguma vez algo assim.
Afinal, achando que nada mais aconteceria, ela decidiu-se a entrar no jardim,
mas, pobre Alice! quando ela chegou na porta, lembrou-se que tinha esquecido
a pequena chave dourada, e quando voltou até à mesa, percebeu
que não era possível pegá-la: Alice podia avistá-la
através do vidro e tentou o máximo possível para escalar
uma das pernas da mesa, mas era muito escorregadia; e quando desistiu, a pobrezinha
sentou-se e chorou.
“Vamos, não há razão para chorar assim”, disse
Alice. “Eu lhe aconselho deixar isso pra lá neste minuto.” Normalmente
ela se dava bons conselhos (embora raramente os seguisse) e às vezes
repreendia-se tão severamente que chegava a ficar com lágrimas
nos olhos, e uma vez ainda lembrava-se de ter tentado boxear suas próprias
orelhas por ter trapaceado consigo mesma em um jogo de críquete que
jogava com ela mesma, pois essa curiosa criança gostava de fingir ser
duas pessoas.
“Mas não adianta agora”, pensou a pobre Alice, “querer
ser duas pessoas! Porque é suficientemente difícil para mim
ser uma pessoa respeitável.”
Logo seu olho caiu sobre uma pequena caixa de vidro que jazia sob a mesa:
ela abriu-a e encontrou um pequeno bolo, no qual a palavra “COMA-ME”
era lindamente inscrito. “Bem, eu vou comê-lo”, pensou Alice,
“e se isso me fizer crescer eu posso pegar a chave; se ele me tornar
muito pequena eu passo por baixo da porta. Então, de qualquer maneira,
eu vou para o jardim e não me importa o que acontecer!”
Alice comeu um pedacinho e disse ansiosamente para si mesma. “E agora?
E agora?”, colocando a mão no topo da cabeça para sentir
se estava crescendo. Ela ficou surpresa ao perceber que permanecera do mesmo
tamanho. Para falar a verdade, é isso o que normalmente acontece quando
se come um bolo, mas Alice já estava acostumada a não esperar
nada senão coisas extraordinárias acontecendo, que as coisas
acontecerem de uma maneira normal parececia chatisse.
Então, ela pôs mãos à obra e muito rapidamente acabou com o bolo.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
“Muito curiosíssimo e muito curiosíssimo!”, gritou
Alice (ela estava tão surpresa, que por um momento quase esqueceu
como falar um bom inglês).
“Agora eu estou esticando como o maior telescópio que nunca
houve! Adeus meus pezinhos!” Quando ela olhou para baixo, seus pés
pareceram-lhe já quase fora do seu campo de visão, tão
distante estavam.)
“Oh! meus pobres pezinhos, quem é que vai colocar seus sapatos
e meias para vocês, queridos? Eu tenho certeza que eu não serei
capaz! Eu estou muito longe para preocupar-me com vocês: vocês
agora têm que se virar o melhor que puderem...mas eu preciso ser boa
para eles”, pensou Alice, “ou eles podem não me levar
para onde eu quiser! Deixe-me ver...Eu vou dar para eles um par de botinas
todo Natal.”
Alice começou então a planejar consigo mesma como faria isso.
“As botinas poderão ir pelo correio”, pensou, “e como
vai ser engraçado, mandar presentes para seus próprios pés!
E como o endereço vai parecer maluco!
Ilustríssimo pé direito da Alice
Tapete Felpudo
perto da Lareira
(com amor, Alice).
Oh! Deus, quanta bobagem estou falando!”
Exatamente nesse instante a cabeça da menina bateu contra o teto
da sala: ela estava com mais de dois metros e meio de altura. Alice finalmente
apanhou a pequena chave dourada e apressou-se em direção à
porta do jardim.
Pobre Alice! Era tudo o que podia fazer, deitar-se de lado para olhar o
jardim com um olho, mas ir até lá era mais difícil
do que nunca: ela sentou-se e começou a chorar novamente.
“Você deveria estar envergonhada de si mesma”, disse Alice,
“uma menina crescida como você (ela bem podia dizer isso...)
chorando desse jeito! Pare agora, eu lhe ordeno!” Mas ela continuou
do mesmo jeito, derramando galões de lágrimas, até
que houvesse um grande lago ao seu redor, com quase meio palmo de fundura,
estendendo-se por metade da sala!
Depois de um tempo ela ouviu pisadinhas ao longe e rapidamente secou os
olhos para ver o que vinha vindo. Era o Coelho Branco voltando, muito bem
vestido, com um par de luvas brancas em uma mão e um grande leque
na outra: ele vinha trotando com muita pressa, resmungando consigo mesmo:
“Oh! Ela vai me matar se eu a fizer esperar!”
Alice sentia-se tão desesperada que estava pronta para pedir ajuda
a qualquer um: então, quando o Coelho chegou perto dela, a menina
começou com uma voz baixa, tímida: “Por favor, Senhor...”
O Coelho parou violentamente, derrubando as luvas brancas e o leque, e disparou
em direção à escuridão tão rápido
quanto pôde. Alice apanhou o leque e as luvas, e, como a sala estava
muito quente, começou a abanar-se enquanto falava:
“Puxa! Puxa! Como tudo está tão estranho hoje! E ontem
as coisas estavam tão normais! O que será que mudou à
noite? Deixe-me ver: eu era a mesma quando acordei de manhã? Tenho
a impressão de ter me sentido um pouco diferente. Mas se eu não
sou a mesma, a próxima questão é “Quem sou eu?”
Ah! esta é a grande confusão!” E Alice começou
a pensar em todas as crianças que ela conhecia e que tinham a mesma
idade dela, para ver se tinha se transformado em alguma delas.
“Eu tenho certeza que não sou Ada”, ela disse, “porque
os cabelos dela são enrolados e os meus não. E eu tenho certeza
que não sou Mabel porque eu sei muitas coisas e ela, oh!, ela sabe
tão pouco! Além disso ela é ela e eu sou eu e...puxa,
que confuso isso tudo é! Vou tentar ver se ainda sei tudo que sabia.
Deixe-me ver 4 vezes 5 são 12 e 4 vezes 6 são 13 e 4 vezes
7 são...nossa! Eu nunca vou chegar a vinte desse jeito! Entretanto
a tabuada não quer dizer nada: vamos tentar Geografia. Londres é
a capital de Paris, Paris é a capital de Roma, e Roma é...não,
não, está tudo errado. Eu tenho certeza! Eu devo ter me transformado
em Mabel! Eu vou tentar recitar “A abelhinha atarefada”. Ela cruzou
então as mãozinhas sobre o colo como se estivesse na escola
e começou a recitar a poesia, mas sua voz soava rouca e estranha
e as palavras não vinham como de costume:
Olha o pequeno crocodilo,
Mexendo sua cauda brilhante,
Espalha as águas do Nilo,
Que alegria!
Como ele fica feliz,
Que patas bonitinhas,
Bem vindos peixinhos,
Que dentões enormes!!!
“Tenho certeza que estas não são as palavras corretas”,
disse a pobre Alice, e seus olhos ficaram cheios d’água novamente.
“Eu devo ser Mabel, afinal, e eu vou ter que ir e viver naquela casa
tão pequena, e quase não ter brinquedos para brincar, e oh,
ter sempre tantas lições para aprender! Não, não
vou me convencer disso: se eu sou Mabel, eu vou ficar aqui embaixo.
Não adianta eles colocarem suas cabeças para baixo e dizer,
“venha para cima, querida”. Eu vou simplesmente olhar para cima
e dizer “Quem sou eu? Digam-me isso primeiro e depois, se eu gostar
de ser a tal pessoa, eu subirei: se não, vou ficar aqui até
ser outra...mas, puxa”, e Alice começou a chorar, com uma súbita
explosão de lágrimas.
“Eu queria que eles olhassem para baixo! Eu estou tão cansada
de estar aqui sozinha.”
Enquanto dizia isso, Alice olhou para baixo em direção a suas
mãos, e ficou surpresa ao notar que tinha vestido uma das luvas do
coelho enquanto falava.
“Como consegui fazer isso?”, ela pensou. “Eu devo estar encolhendo
novamente.” Ela então levantou-se e foi em direção
à mesa para medir-se em comparação a ela e descobriu
que, pelas suas contas, estava agora com mais ou menos sessenta centímetros
de altura e continuava a encolher rapidamente. Alice descobriu que a causa
daquilo era o leque que segurava, e jogou-o fora impetuosamente, exatamente
a tempo de salvar-se de encolher inteiramente.
“Escapei por um triz!”, disse Alice bastante assustada com a súbita
mudança, mas muito feliz por ainda existir.
“E agora para o jardim!” E ela correu com toda rapidez para a
portinha, mas, alas!, a pequena porta estava fechada novamente, e a pequena
chave dourada estava sobre a mesa de vidro como antes, “e as coisas
estão piores que nunca”, pensou a pobre criança, “porque
eu nunca fui menor que isso, nunca! E eu digo que isso é ruim, muito
ruim, é sim!”
Enquanto dizia essas palavras seu pé escorregou e, num instante,
splash! ela estava até o queixo na água salgada. Sua primeira
idéia é que teria caído no mar, “e nesse caso
eu posso ir embora pela ferrovia”, disse Alice para si mesma. (Alice
tinha ido à praia apenas uma vez em sua vida, e tirara a conclusão
que em qualquer lugar da costa inglesa que se vá, você encontra
algumas cabines de troca de roupa, crianças cavando na areia com
pás de madeira, e uma fila de hospedarias atrás, e mais atrás
ainda a estação de trem). Mas logo percebeu que estava no
lago de lágrimas que derramara quando estava com dois metros e meio
de altura.
“Eu gostaria de não ter chorado tanto!”, disse Alice enquanto
nadava tentando encontrar a saída. “Eu devo estar sendo punida
por isso agora, suponho, afogando-me em minhas próprias lágrimas!
Isso sim será uma coisa estranha. Entretanto, tudo está estranho,
hoje. Nesse instante ela ouviu algo chapinhando no lago um pouco mais adiante
e nadou para perto tentando entender o que era aquilo: inicialmente ela
pensou que poderia ser uma morsa ou um hipopótamo, mas então
lembrou como estava pequena e logo compreendeu que era apenas um rato, que
tinha escorregado como ela.
“Será que adiantaria”, pensou Alice, “tentar falar
com esse rato? Tudo é tão fora do comum aqui, que eu posso
até pensar que ele pode falar: de qualquer maneira, não há
mal em tentar.”
Então ela começou: “Oh Rato, você conhece a saída
desse lago? Estou muito cansada de nadar de lá para cá, oh
Rato.” (Alice pensava que esta era a maneira certa de se falar com
um rato: ela nunca fizera isso antes, mas lembrava de ter visto na Gramática
do Latim de seu irmão: “Um rato...de um rato...para outro rato...um
rato...Oh rato!”) O rato olhou para ela inquisitivamente e parecia
piscar um dos seus olhinhos, mas não falava nada.
“Talvez ele não entenda inglês”, pensou Alice. “É
provável que seja um rato francês, vindo para cá com
William o Conquistador.” (Como todo seu conhecimento de história,
Alice não tinha noção clara sobre há quanto
tempo aquilo tinha acontecido) Ela começou novamente: “Où
est ma chatte?”, que era a primeira frase do seu livro de francês.
O Rato deu um súbito salto para fora da água e começou
a tremer inteirinho, com medo.
“Oh! desculpe-me”, gritou Alice apressadamente, temerosa de ter
ferido os sentimentos do pobre animal. “Eu quase esqueci que você
não gosta de gatos.”
“Não gosta de gatos”, gritou o Rato com uma voz nervosamente
aguda. “Você gostaria de gatos se fosse eu?”
“Bem, talvez não”, disse Alice num tom calmo. “Não
fique bravo com isso. E eu ainda queria lhe mostrar nossa gata Dinah. Eu
acho que você passaria a gostar de gatos se pudesse apenas olhar para
ela. Ela é uma coisinha linda”, Alice continuou, meio para ela
mesma, enquanto nadava preguiçosamente pela piscina afora, “ela
senta-se ronronando tão bonitinha ao lado do fogo, lambendo as patas
e lavando o rosto...e ela é tão fofa para se criar...e ela
é boa também para pegar ratos, oh, desculpe!”, gritou
Alice novamente, enquanto o rato arrepiava-se todo, e ela sentiu que dessa
vez realmente o ofendera.
“Nós não vamos mais falar sobre isso, se preferirmos.”
“Nós, realmente”, gritou o Rato, que tremia até
à ponta da cauda, “como se eu quisesse falar sobre esse assunto!
Nossa família sempre odiou gatos! Aquelas coisas detestáveis,
baixas, vulgares! Não me faça ouvir esse nome novamente.”
“Eu não faço, realmente”, disse Alice, querendo mudar
rapidamente o assunto da conversa. “Você...você, gosta
de cachorros?”
O Rato não respondeu, então Alice continuou impacientemente:
“Há um cachorrinho lindo, perto da nossa casa, eu gostaria de
lhe mostrar! É um pequeno terrier de olhos brilhantes, você
sabe, com oh!, com um pêlo marrom comprido e anelado! E ele pega as
coisas quando você joga, e senta-se e pede comida, e todo esse tipo
de coisas...eu não consigo lembrar de metade delas...e ele pertence
a um fazendeiro, você sabe, que diz que ele é muito útil,
vale mais de cem libras. Ele disse que o cachorrinho mata todos os ratos
e...oh! puxa!”, gritou Alice em um tom desconsolado. “Temo que
o ofendi novamente.”
O Rato nadava para longe dela o mais rápido posível, produzindo
uma grande agitação na lagoa à sua saída.
Alice chamava suavemente atrás dele: “Rato querido! Volte, e
nós não iremos falar de gatos, nem de cães, se você
não gosta deles!”
Quando o Rato ouviu isso, virou-se e nadou lentamente em direção
a Alice: seu rosto ainda estava pálido (de raiva, Alice pensou) e
disse, com uma vozinha baixa e trêmula.
“Vamos para a praia, e então eu vou lhe contar minha história
e você vai entender porque eu odeio gatos e cães.”
Estava mais do que na hora de ir, pois ao lagoa estava ficando cheia de
pássaros e animais que nela caíam. Havia um Pato e um Dodo,
um Papagaio e uma Aguiazinha, e muitas outras criaturas curiosas. Alice
seguiu o caminho e o grupo todo nadou junto para a praia.
Aquela era com certeza uma turma estranha que se reunia nas margens do lago:
os pássaros com suas plumas arrastando, os animais com o pêlo
grudado no corpo, e todos pingando, irritados e desconfortáveis.
A primeira questão era, evidentemente, como se secarem: eles estavam
reunidos em conselho para decidirem sobre isso e depois de poucos minutos
parecia natural para Alice encontrar-se conversando familiarmente com eles,
como se ela os tivesse conhecido toda a vida. Na verdade, ela travava uma
longa discussão com o Papagaio australiano, que no final tornara-se
zangado, e falara, “Eu sou mais velho que você, e devo saber
mais.” E com isso Alice não podia concordar, sem saber a idade
dele, e como o Papagaio recusava-se terminantemente a dizer sua idade, nada
mais havia a dizer.
Finalmente o Rato, que parecia ser a pessoa de maior autoridade entre eles,
bradou, “Sentem-se, todos vocês, e ouçam-me! Eu vou
fazê-los secar.” Eles sentaram-se então em círculo,
com o Rato no meio. Alice mantinha seus olhos fixados ansiosamente nele,
pois ela tinha certeza que pegaria um resfriado se não secasse logo.
“Aham!” disse o gato com um ar de importante. “Vocês
estão todos prontos? Essa é a coisa mais seca que eu conheço.
Silêncio na roda, por favor! William o Conquistador, cuja causa foi
favorecida pelo Papa, logo submetido pela Inglaterra, que desejava líderes,
acostumada à usurpação e à conquista. Edwin
e Morcar, os condes de Mercia e Northumbria...”
“Ugh!”, disse o Papagaio, com um calafrio.
“Desculpe-me” interferiu o Rato, carrancudo, mas educadamente.
“Você falou alguma coisa?”
“Eu não!” respondeu o Papagaio, rapidamente.
“Pensei que tivesse”, retrucou o Rato. “Prosseguindo: Edwin
e Morcar, os condes de Mercia e Northumbria, declararam para ele; e ainda
Stingand, o patriótico arcebispo de Canterbury, achou que...”
“Achou o quê?”, perguntou o Pato.
“Achou que”, o Rato replicou irritadamente, “é claro
que você sabe o que que significa.”
“Eu sei o que que significa muito bem, quando sou eu que acho”,
afirmou o Pato, “geralmente é um sapo ou uma minhoca. A questão
é: o que o arcebispo achou?”
O Rato não entendeu a pergunta, mas apressadamente foi em frente:
“achou que era aconselhável conhecer William e oferecer-lhe
a coroa. O procedimento de William no início era moderado. Mas a
insolência dos seus normandos...como você está indo,
minha querida”, ele continuou, virando-se para Alice enquanto falava.
“Tão molhada quanto antes”, respondeu a menina em um tom
melancólico, “isso não está parecendo me secar
afinal.”
“Nesse caso”, disse o Dodo solenemente, levantando-se, “eu
proponho que a assembléia seja suspensa para a adoção
imediata de medidas enérgicas...” “Fale inglês”,
gritou o Papagaio.
“Eu não sei o significado de metade dessas palavras, e mais,
não acredito que você saiba.” E o Papagaio torceu a cabeça
para esconder um sorriso: alguns dos outros pássaros riram às
escondidas audivelmente.
“O que eu estava dizendo”, retomou o Dodo em um tom ofendido,
“é que a melhor coisa para nós secarmos seria uma corrida
de comitê.”
“O que é uma corrida de comitê?”, perguntou Alice.
Não que ela quisesse mesmo saber, mas o Dodo fizera uma pausa como
se pensasse que alguém deveria falar, e ninguém parecia inclinado
a dizer nada.
“Bem”, disse o Dodo, “a melhor maneira de explicar isso é
fazendo.”
(E, como talvez você queira tentar essa corrida em algum dia de inverno,
vou contar como o Dodo fez.)
Primeiro ele delimitou a pista de corridas como um tipo de círculo
(a forma exata não importa, ele dissera) e então todo o destacamento
foi distribuído pela pista, aqui e ali. Não houve o tradicional
“Um, dois, três e já!”, mas todos começavam
a correr quando queriam e paravam quando queriam, daí não
era fácil saber quando a corrida terminava. Entretanto, quando eles
já estavam correndo há mais ou menos meia-hora, e já
estavam quase secos, o Dodo repentinamente gritou: “A corrida está
acabada”.
Então, todos se aglomeraram em torno dele, ofegando e perguntando:
“Mas quem ganhou?”
Essa pergunta o Dodo não poderia responder sem pensar muito, e ficou
parado um bom tempo com um dedo sobre a testa (a posição na
qual você normalmente vê Shakespeare nas gravuras) enquanto
o resto do pessoal ficava em silêncio.
“Todos ganharam, e todos devem ganhar prêmios.”
“Mas quem dará os prêmios?”, um coro de vozes perguntou.
“Ora, ela, claro”, respondeu o Dodo, apontando Alice com o dedo,
e já toda a turma rodeava a menina, gritando de maneira confusa:
“Prêmios! Prêmios!”
Alice não tinha a menor idéia sobre o que fazer, e, em desespero,
colocou a mão no bolso e puxou uma caixa de confeitos (felizmente
a água salgada não entrara nela), e distribuiu as balas como
se fossem prêmios. Deu na conta exata, um para cada um.
“Mas ela precisa ganhar um prêmio também”, lembrou o Rato.
“É claro”, replicou o Dodo solenemente. “O que mais
você tem no bolso?”, e se virou para Alice.
“Apenas um dedal”, respondeu a menina tristemente.
“Dê-me”, pediu o Dodo.
Então novamente eles a rodearam, enquanto o Dodo solenemente a presenteava
com o dedal, dizendo:
“Nós gostaríamos que você aceitasse esse elegante
dedal”, e ao final desse pequenino discurso, todos o aplaudiram.
Alice achou a coisa toda muito absurda, mas eles pareciam tão sérios
que ela não ousou rir, e, como não podia pensar em nada para
dizer, simplesmente fez uma reverência e apanhou o dedal, parecendo
o mais solene possível.
A próxima coisa a fazer era comer os confeitos; isso causou algum
barulho e bagunça, pois os pássaros grandes reclamavam que
não podiam saborear os seus e os pequenos engasgavam e tinham que
levar palmadas nas costas. Entretanto, afinal todos terminaram e sentaram-se
em círculo, pedindo ao Rato para lhes contar alguma coisa.
“Você prometeu nos contar sua história, você sabe”,
disse Alice, “e o porque você odeia G e C”, ela terminou
sussurrando, com medo que ele se ofendesse novamente.
“A minha é uma longa e triste história!”, disse
o Rato, virando-se para Alice, suspirando.
“É uma longa cauda, certamente”, replicou Alice, olhando
para o rabo do Rato com admiração, “mas porque você
a chama de triste?”
Alice continuava confusa sobre isso enquanto o Rato estava falando, pois
a história que ele contava era mais ou menos assim*:
Furioso diz para o
rato, Que ele
conheceu
em casa,
“Vamos
logo para o
tribunal: nós dois
Eu vou te
processar! —Pode,
vir logo,
não vou querer
adiar nem
um minuto
o julgamento
vai ser agora
Não tenho mesmo
nada para
fazer
esta manhã.”
Disse o
rato para o
monstro, “Este
processo,
prezado senhor,
sem
júri
ou jurados,
vai ser
uma grande
perda
de tempo.”
“Eu serei o
júri. Eu
serei o juiz,”
respondeu
o esperto
Furioso.
“Eu vou te
julgar
agora
e agora,
vou
condená-lo
à
morte!”
“Você não está prestando atenção!”,
disse o Rato para Alice, severamente. “No que você está
pensando?”
“Desculpe-me”, respondeu Alice humildemente, “você
já estava na quinta volta, não é?”
“Eu não!”, gritou o Rato com voz aguda, muito bravo. “Você
não presta atenção em nós!”**
“Um nó!”, disse Alice, sempre pronta para ajudar, olhando
para todos os lados. “Deixe-me ajudar a desfazer esse nó.”
“Eu não disse nada desse tipo”, disse o Rato, levantando-se
e andando. “Você me insulta falando estas besteiras.”
“Eu não quis dizer isso”, suplicava a pobre Alice. “Mas
você se ofende tão facilmente!”
O Rato apenas rosnou em resposta.
“Por favor, volte e termine sua história!”, Alice chamava.
E todos os outros juntaram-se em coro:
“Sim, por favor, conte!”
Mas o Rato apenas balançava a cabeça impacientemente e caminhou
ainda mais rapidamente.
“Que pena que ele não queira ficar”, suspirou o Papagaio,
e logo o Rato já estava longe. E uma velha Carangueja aproveitou
a oportunidade para dizer à sua filha:
“Ah!, minha querida. Que isso lhe sirva de lição para
que você nunca perca o seu humor.”
“Segure sua língua, Mãe”, retrucou a jovem Carangueja,
de um jeito meio impertinente. “Você acaba com a paciência
de qualquer ostra.”
“Eu queria que nossa Dinah estivesse aqui”, disse Alice em voz
alta, dirigindo-se a ninguém em particular. “Ela iria logo logo
trazê-lo de volta.”
“E quem é Dinah? Se é que eu posso fazer esta pergunta”,
interveio o Papagaio.
Alice replicou ansiosamente, porque ela estava sempre pronta para falar
do seu animalzinho de estimação: “Dinah é a nossa
gata. E ela é muito boa para pegar ratos, você nem pode imaginar...E,
oh, eu queria que você a visse atrás de pássaros! Ela
pode comer um passarinho tão rápido quanto olhar para ele!”
Esse discurso causou uma forte sensação entre o destacamento.
Alguns pássaros fugiram: uma velha Matraca começou a se agasalhar
muito cuidadosamente, observando: “Eu realmente preciso ir para casa,
o sereno não cai bem para minha garganta!”
E uma Canária chamou numa voz trêmula seus filhotes: “Vamos,
meus queridos! Já está na hora de vocês estarem na cama!”
Com diversos pretextos todos se foram, deixando Alice sozinha.
“Eu acho que não deveria ter mencionado Dinah”, ela disse
em um tom melancólico. “Parece que ninguém gosta dela
aqui em baixo, e eu tenho certeza que ela é a melhor gata do mundo!
Oh minha querida Dinah! Eu queria saber se volto a vê-la algum dia!
E aqui a pobre Alice começou a chorar novamente, pois se sentia muito
solitária e deprimida. Em pouco tempo, entretanto, ela novamente
ouviu o barulho de passos à distância e olhou ao redor impacientemente,
meio que esperando que o Rato tivesse mudado de idéia e voltado para
terminar a história.
Era o Coelho Branco, voltando vagarosamente, olhando ansiosamente para trás,
como se tivesse perdido algo. Alice ouvia-o resmungando consigo mesmo, “A
Duquesa! A Duquesa! Oh, minhas queridas patas! Oh minha pele e bigodes!
Ela irá me executar, tão certo quanto os furões são
furões! Onde posso tê-los derrubado, eu queria saber!”
Alice adivinhou no mesmo momento que o Coelho estava procurando pelo leque
e o par de luvas brancas, e ela muito naturalmente começou a ajudá-lo
na procura, mas os objetos não estavam por lugar nenhum à
vista...tudo parecia ter mudado desde que ela nadara no lago; e o grande
salão, com a mesa de vidro e a pequena porta desaparecera completamente.
Logo o Coelho percebeu Alice, que procurava pelas luvas. Ele disse em tom
enraivecido: “O que, Mary Ann, você está fazendo aqui
fora? Vá já para casa, já, e traga-me um par de luvas
e um leque! Rápido, já!”
E Alice estava tão assustada que correu na direção
que ele apontava, sem tentar explicar-lhe o erro cometido.
“Ele tomou-me por sua empregada”, a menina dizia para si mesma
enquanto corria.
“Como ele vai ficar surpreso quando descobrir quem eu sou! Mas seria
melhor pegar seu leque e luvas... isto é, se eu puder encontrá-los.”
Ao falar estas palavras, Alice chegou numa bonita casinha, na porta da qual
havia uma placa de latão bem brilhante com o nome “C. BRANCO”
gravado. Ela entrou sem bater, e subiu apressadamente as escadas, com muito
medo de que pudesse encontrar a Mary Ann verdadeira e ser expulsa da casa
antes de encontrar o leque e as luvas.
“Que estranho isso parece”, Alice disse para si mesma, “receber
ordens de um coelho! Imagine Dinah dando-me ordens!”, e ela começou
a imaginar o que poderia acontecer.
“Miss Alice! Venha cá e apronte-se para sua caminhada.”
“Já vou em um minuto, ama! Mas eu tenho que cuidar desse buraco
de rato até Dinah voltar, e ver se o rato não foge.”
“Eu acho”, Alice continuou, “que eles não iriam deixar
Dinah ficar em casa se ela começasse a dar ordens desse jeito.”
Nesse instante a menina percebeu que estava dentro de um pequeno quarto
arrumado com uma mesa em uma vitrine e sobre ela (como Alice desejara),
um leque e dois ou três pares de luvas brancas limpas. Ela apanhou
o leque e um par de luvas e já estava deixando o quarto quando seus
olhos caíram sobre uma garrafa que estava perto da janela. Não
havia nenhuma etiqueta desta vez com as palavras “BEBA-ME”, mas,
no entanto, ela desarrolhou e colocou-a nos lábios.
“Eu sei que algo interessante vai certamente acontecer”, ela disse
para si mesma, “sempre que eu bebo ou como alguma coisa por aqui. Então,
vou ver o que esta garrafa faz. Eu espero que me faça crescer novamente,
eu estou realmente cansada de ser essa coisinha.”
E a bebida fez efeito de verdade, e muito mais rápido do que Alice
esperava: antes que ela tivesse bebido metade da garrafa, percebeu sua cabeça
pressionando contra o teto, e então teve que parar para salvar seu
pescoço de ser quebrado. Ela rispidamente deixou de lado a garrafa,
dizendo para si mesma: “É o suficiente...eu espero não
crescer mais, porque se isso não acontecer, eu não vou poder
sair pela porta...eu queria não ter bebido tanto!”
Nossa! Era muito tarde para desejar isso! Ela continuou crescendo e crescendo,
e logo precisou ajoelhar-se no chão. Em outro minuto não havia
nem mesmo um quarto para isso, e ela tentou deitar-se com um cotovelo contra
a porta e o outro braço sobre a cabeça! Alice continuava a
crescer e, como último recurso, ela colocou um braço para
fora da janela e um pé para dentro da chaminé, dizendo para
si mesma “Agora eu não posso fazer mais nada, o que quer quer
seja que aconteça. O que vai ser de mim?”
Felizmente para Alice, a pequena garrafa mágica já fizera
todo seu efeito, e ela não cresceu mais: ainda era bem desconfortável
e parecia não haver nenhum tipo de chance de ela sair do quarto novamente.
Não admira que se sentisse infeliz.
“Era bem melhor em casa”, pensou a pobre Alice, “ninguém
fica crescendo e diminuindo, e recebendo ordens de ratos e coelhos. Eu quase
desejo não ter entrado na toca do coelho...mas, mas, é tão
curioso, sabe, esse tipo de vida! Eu queria saber o que pode ter acontecido
comigo. Quando eu lia contos de fada, ficava imaginando que esse tipo de
coisas nunca acontece e agora estou aqui no meio de um! Deveria haver um
livro escrito sobre mim, deveria sim! E quando eu crescer, eu vou escrever
um...mas...eu já cresci...”, ela continuou com uma vozinha triste,
“não há mais espaço para eu crescer aqui.”
“Mas então”, pensou Alice, “eu não vou nunca
ficar mais velha do que sou agora? Isso é um conforto, de qualquer
maneira...nunca ficar velha...e então...ter sempre que estudar. Oh!
eu não gostaria disso!”
“Ah, sua bobinha”, ela respondeu para si mesma. “Como você
quer estudar aqui? Afinal esse quarto já está tão pequeno
para você, quanto mais para livros de escola!”
E então ela continuou, fingindo que perguntava de um lado e respondia
do outro até que alguns minutos depois ela ouviu uma voz lá
fora e ficou atenta.
“Mary Ann! Mary Ann!”, dizia a voz. “Traga-me minhas luvas
imediatamente!”. Então ouviu-se passadas na escada. Alice sabia
que era o Coelho vindo procurar por ela. A menina tremia tanto que começou
a chacoalhar a casa, quase esquecendo que ela agora era quase mil vezes
maior que o Coelho e não havia razão para temê-lo.
O Coelho chegou até a porta e tentou abri-la. Mas como a porta abria
para dentro e o cotovelo de Alice estava contra ela, nada conseguiu. A menina
ouviu uma vozinha dizendo baixinho:
“Então eu vou dar a volta e entrar pela janela.”
“Isso você não vai fazer”, pensou Alice e, depois
de esperar que o Coelho pudesse estar embaixo da janela ela repentinamente
esticou a mão e tentou apanhá-lo fazendo um movimento no ar.
Ela não pegou nada, mas ouviu um pequeno grito e uma queda, e um
barulho de vidro quebrado, de onde ela concluiu que provavelmente o Coelho
caíra em uma estufa ou algo do tipo.
Em seguida uma voz irada, do Coelho : “Pat! Pat! Onde está você?”
E então uma voz que ela não ouvira ainda disse:
“Eu estou aqui! Colhendo maçãs, meu senhoir.”
“Colhendo maçãs, certamente”, retrucou o Coelho
nervosamente. “Aqui, venha me livrar disso” (Sons de mais vidros
quebrados.) “Agora diga-me, Pat, o que é isso na janela?”
“Com certeza é um braço, meu senhoir!” (Ele pronunciava
“Arrum”)***
“Um braço, seu ganso burro! Quem já viu um desse tamanho?
Ele toma toda a janela!”
“Com certeza, meu sinhoir! Mas que é um braço, isso é!”
“Bem, de um jeito ou de outro, vá e tire-o de lá.”
Houve um grande silêncio depois disso, com alguns cochichos de vez
em quando, tipo “Certo, eu não gosto disso, meu sinhoir, nadinha,
nadinha!” “Faça o que eu mando, seu covarde!”. No
fim de uns minutos Alice esticou sua mão novamente e fez outro movimento
no ar. Dessa vez foram dois gritinhos e mais som de vidro quebrado.
“Quantas estufas têm lá!”, pensou Alice. “Eu
gostaria de saber o que eles vão fazer! Para puxar-me para fora da
janela, o que será que eles vão poder! Tenho certeza que eu
não quero ficar aqui muito tempo!
Ela esperou por algum tempo sem ouvir nada mais. Por fim, ouviu um barulhão
de rodas de uma carroça e o som de muitas vozes falando juntas. Ela
conseguiu compreender as palavras: “Onde está a outra escada...Por
quê?...Eu só trouxe uma. Bill pegou a outra...Bill! Traga-me
a escada aqui rapaz...Aqui, coloque-as num canto. Não, amarre-as
juntas primeiro.”
“Oh! eles irão fazer bem o bastante. Não seja curioso...Aqui
Bill! Agarre esta corda! O teto aguentará! Cuidado com a telha solta...Lá
vem ela! Oh! está caindo! Abaixem as cabeças! (um barulho
de coisa quebrada) Agora, o que aconteceu? Foi Bill, eu acho...Quem vai
entrar na chaminé? Eu não! Vai sim! Eu não vou também!
Bill foi escolhido para descer. Aqui, Bill! O patrão diz que você
é quem vai descer pela chaminé.”
“Oh! Então o Bill vai descer pela chaminé, certo?”
pensou Alice consigo mesma. “Eles colocam tudo pra cima do pobre Bill.
Eu não gostaria de estar no lugar dele, esta lareira é estreita.
Mas para dizer a verdade eu acho que posso chutar um pouco.”
Ela puxou seu pé o mais longe possível da chaminé e
esperou até ouvir o pequeno animal (Alice não conseguia imaginar
que tipo ele seria) entrando no buraco da lareira. Então, dizendo
para si mesma “Este é Bill”, ela deu um brusco chute e
esperou para ver o que acontecia a seguir.
O que ela ouviu foi um coro geral de “Aí vai Bill” e depois
a voz do Coelho ...“Segure ele, você aí na cerca!”,
então silêncio e depois uma confusão de vozes...“Suspenda
a cabeça dele...Brandy agora...Não o estrangule...Como foi
isso companheiro? O que aconteceu com você? Conte-nos sobre isso!”
Por último veio uma vozinha débil, chiada (“Este é
o Bill”, pensou Alice) “Bem, eu não sei muito bem... Quero
mais não...Estou melhor agora...mas um bocado confuso pra contar
para voceis...tudo o que eu sei é que alguma coisa veio até
mim como se fosse um boneco de mola e eu fui pra cima como um foguete!”
“Você fez isso mesmo, velho companheiro”, disseram os outros.
“Nós precisamos derrubar a casa”, disse a voz do Coelho.
E Alice gritou, tão alto quanto pôde: “Se vocês
fizerem isso, eu mando a Dinah atrás de vocês!”
Houve um silêncio de morte no mesmo instante e Alice pensou consigo
mesma: “Eu gostaria de saber o que eles vão fazer a seguir!
Se eles tiverem algum juízo vão tirar o teto da casa.”
Depois de um minuto ou dois eles começaram a se movimentar novamente,
e Alice ouviu o Coelho dizer:
“Um carrinho cheio é o suficiente!”
“Um carrinho cheio de quê?”, pensou Alice. Mas ela não
teve tempo para ficar na dúvida, pois no momento seguinte uma chuva
de pequenos seixos veio bater na janela, alguns dele machucando seu rosto.
“Eu vou dar um basta nisso”, ela pensou. Alice gritou: “É
melhor vocês não fazerem isso novamente”, o que produziu
outro silêncio de morte.
Alice percebeu, com alguma surpresa, que os seixos estavam todos se transformando
em pedaços de bolo ao caírem no chão, e uma brilhante
idéia veio à sua mente.
“Se eu comer um desses pedaços do bolo”, ela pensou, “com
certeza acontecerá alguma mudança em meu tamanho, e, como
não vai poder me fazer ficar ainda maior, deve me fazer diminuir,
eu suponho.”
Então ela engoliu um dos pedaços, e foi maravilhoso descobrir
que começara a diminuir instantaneamente. Tão logo ficou pequena
o suficiente para passar pela porta, Alice saiu correndo da casa, encontrando
um grupo de pequenos animais e pássaros esperando lá fora.
O pobre pequeno lagarto, Bill, estava no meio, sendo seguido por dois porquinhos-da-índia
que lhe davam algo em uma garrafa. Todos correram em direção
a Alice mas ela fugiu o mais depressa que pôde, e logo encontrou-se
salva em uma densa floresta.
“A primeira coisa que eu tenho que fazer”, disse Alice para si
mesma, enquanto vagueava pela floresta, “é crescer até
meu tamanho normal outra vez, e a segunda coisa é encontrar o caminho
para aquele jardim adorável. Acho que este é o melhor plano.”
Soava como um excelente plano, sem dúvida, bem arrumado e arranjado
com simplicidade: a única dificuldade era que ela não tinha
a menor idéia de como fazer isso, e enquanto Alice espreitava ansiosamente
por entre as árvores, um pequeno latido agudo sobre sua cabeça
a fez olhar para cima com um sobressalto.
Era um enorme cachorrinho que olhava para ela com grandes olhos redondos
e debilmente lhe estendia uma patinha, tentando tocá-la.
“Pobre coisinha!”, disse Alice com um tom carinhoso, e tentou
com força assobiar para ele; mas a menina estava tão terrivelmente
assustada pensando que ele poderia estar com fome e querer comê-la
a despeito de todo seu carinho.
Sem saber o que fazer ela apanhou um pedaço de pau e jogou para o
cachorrinho: em conseqüência o cãozinho pulou no ar com
um ganido de prazer, e investiu contra o pau como se o temesse. Alice mantinha-se
escondida atrás de uma moita para evitar de ser avistada e, no momento
que apareceu do outro lado, o filhote deu outra corrida contra o galho acabando
por tropeçar nele mesmo na sua pressa de apanhá-lo. Então
Alice, como se estivesse brincando com uma carroça e esperando a
qualquer momento ser esmagada sob seus pés, correu para perto da
moita novamente. Daí, o filhote começou uma série
de pequenos ataques ao galho, correndo vários pouquinhos para frente
de cada vez e voltando para trás bastante depois, latindo rouco todo
o tempo, até que acabou sentando ofegante, com sua língua
para fora da boca e seus grandes olhos semi-cerrados.
Aquela parecia uma boa oportunidade para Alice fazer sua escapada e ela
então fugiu, correndo até estar muito cansada e sem ar, até
que o latido do cãozinho soasse bastante fraco ao longe.
“Mesmo assim, que lindo filhotinho ele era!”, disse Alice enquanto
apoiava-se em uma flor para descansar, abanando-se com uma das luvas. “Eu gostaria de ter-lhe ensinado alguns truques, se ao menos tivesse o tamanho
certo para isso! Oh puxa! Eu quase esqueci que tenho que crescer novamente!
Deixe-me ver — como é que se faz isso? Eu acho que deveria comer
ou beber alguma coisa ou outra, mas a grande questão é ‘O
quê?’”
A grande questão certamente era “O quê?” E Alice
olhou ao seu redor para as flores e a grama mas não pôde ver
nada que parecesse a coisa certa para comer ou beber nessa cirscunstância.
Havia um grande cogumelo crescendo perto dela, quase a mesma altura de Alice
e, ao dar uma olhada sob ele, de ambos os lados e ainda atrás dele,
ocorreu-lhe que ela poderia também dar uma olhada sobre ele.
Ela esticou-se na ponta dos dedos e olhou sobre a margem do cogumelo, seus
olhos imediatamente avistaram uma enorme lagarta azul, sentada no topo da
planta, com os braços cruzados calmamente fumando um narguilé,
não dando bola nem para ela nem para mais nada.
A Lagarta e Alice olharam-se uma para outra por algum tempo em silêncio:
por fim, a Lagarta tirou o narguilé da boca, e dirigiu-se à
menina com uma voz lânguida, sonolenta.
“Quem é você?”, perguntou a Lagarta.
Não era uma maneira encorajadora de iniciar uma conversa. Alice retrucou,
bastante timidamente: “Eu — eu não sei muito bem, Senhora, no
presente momento — pelo menos eu sei quem eu era quando levantei esta manhã,
mas acho que tenho mudado muitas vezes desde então.
“O que você quer dizer com isso?”, perguntou a Lagarta severamente.
“Explique-se!”
“Eu não posso explicar-me, eu receio, Senhora”, respondeu
Alice, “porque eu não sou eu mesma, vê?”
“Eu não vejo”, retomou a Lagarta.
“Eu receio que não posso colocar isso mais claramente”,
Alice replicou bem polidamente, “porque eu mesma não consigo
entender, para começo de conversa, e ter tantos tamanhos diferentes
em um dia é muito confuso.”
“Não é”, discordou a Lagarta.
“Bem, talvez você não ache isso ainda”, Alice afirmou,
“mas quando você transformar-se em uma crisálida — você
irá algum dia, sabe — e então depois disso em uma borboleta,
eu acredito que você irá sentir-se um pouco estranha, não
irá?”
“Nem um pouco”, disse a Lagarta.
“Bem, talvez seus sentimentos possam ser diferentes”, finalizou
Alice, “tudo o que eu sei é: é muito estranho para mim.”
“Você!”, disse a Lagarta desdenhosamente. “Quem é
você?”
O que as trouxe novamente para o início da conversação.
Alice sentia-se um pouco irritada com a Lagarta fazendo tão pequenas
observações e, empertigando-se, disse bem gravemente: “Eu
acho que você deveria me dizer quem você é primeiro.”
“Por quê?”, perguntou a Lagarta.
Aqui estava outra questão enigmática, e, como Alice não
conseguia pensar nenhuma boa razão, e a Lagarta parecia estar muito
chateada, a menina despediu-se.
“Volte”, a Lagarta chamou por ela. “Eu tenho algo importante
para dizer!”
Isso soava promissor, certamente. Alice virou-se e voltou.
“Mantenha a calma”, disse a Lagarta.
“Isso é tudo?”, retrucou Alice,engolindo sua raiva o quanto pôde.
“Não”, respondeu a Lagarta.
Alice pensou que poderia muito bem esperar, já que não tinha
nada para fazer, e talvez no fim das contas ela poderia dizer algo que valesse
a pena. Por alguns minutos a Lagarta soltou baforadas do seu cachimbo sem
falar; afinal, ela descruzou os braços, tirou o narguilé da
boca novamente e disse: “Então você acha que mudou, não é?”
“Temo que sim, Senhora”, respondeu Alice. “Não consigo
lembrar das coisas como antes — e não mantenho o mesmo tamanho nem
por dez minutos!”
“Não consegue lembrar que coisas?”, continuou a Lagarta.
“Bem, eu tentei recitar ‘Como a abelhinha estava atarefada’, mas
fiz tudo diferente!” Alice replicou numa voz muito melancólica.
“Repita ‘Você está velho, Pai William’, pediu
a Lagarta.
Alice cruzou as mãozinhas e começou:
Você está velho, Pai Joaquim, disse o jovem,
E seu cabelo está ficando branquinho,
Mas você ainda planta bananeira,
Você acha, que na sua idade, isso está certo?
Na minha juventude, Pai Joaquim respondeu,
Tinha medo de perder a cabeça,
Mas agora eu sei que não posso perder,
Porque não paro de plantar bananeira e estou inteiro.
Você está velho, já falei uma vez, retrucou o jovem,
E está engordando demais,
Mas ainda entra aqui dando cambalhotas,
Por favor, como você faz isso?
Na minha juventude, disse o velho,
Eu me mantive em forma,
Usando esse ungüento — é bem baratinho,
Posso vender uns dois potes para você?
Você está velho, disse o jovem, e seus dentes estão fraquinhos
Para mastigar qualquer coisa dura.
Mas você ainda come um ganso com osso e tudo,
Por favor, como você faz isso?
Na minha juventude, disse o velho, eu acreditava na Lei,
E discutia tudo com minha mulher,
O treino que fiz naquela época,
Durou para o resto da minha vida!
Você está velho, disse o jovem, e ninguém pode acreditar
que você ainda enxerga bem.
Mas ainda assim você equilibra uma enguia na ponta do nariz.
O que deixou você tão esperto?
Já lhe respondi três perguntas, agora chega,
Disse o velho, e não pense que você me agrada!
Você acha que vou perder meu dia ouvindo suas bobagens?
Pode sumir, ou vai levar um pontapé no traseiro!
“Isso não está dito certo”, disse a Lagarta.
“Não bem certo, eu receio”, respondeu Alice timidamente,
“algumas das palavras podem ter sido trocadas”.
“Está errado do começo ao fim”, afirmou a Lagarta
decididamente. Então fez-se um silêncio por alguns minutos.
A Lagarta foi a primeira a falar.
“De que tamanho você quer ser?”, ela perguntou.
“Oh, eu não ligo para qual tamanho”, respondeu Alice apressadamente,
“apenas um que não fique mudando sempre, a senhora sabe.”
“Eu não sei”, retrucou a Lagarta.
Alice não disse mais nada: ela nunca fora tão contradita em
toda sua vida antes e sentia que estava perdendo a paciência.
“Você está satisfeita agora?”, indagou a Lagarta.
“Bem, eu gostaria de ser um pouco maior, Senhora, se não se
importar”, disse Alice, “oito centímetros é um tamanhozinho
meio pequeno demais.”
“É um ótimo tamanho certamente!”, vociferou a Lagarta, levantando-se
enquanto falava (ela tinha exatamente oito centímetros de altura).
“Mas eu não estou acostumada com isso!”, alegou a pobre
Alice em um tom consternado.
“Você se acostumará com o tempo”, retrucou a Lagarta,
e colocou o narguilé na boca, começando a fumar novamente.
Desta vez Alice esperou pacientemente até a Lagarta querer falar
novamente. Depois de um ou dois minutos a Lagarta tirou o cachimbo da boca,
e bocejou uma ou duas vezes e espreguiçou-se. Então desceu
do cogumelo e arrastou-se para longe, simplesmente observando, ao sair:
“Um lado irá fazê-la crescer e o outro irá fazê-la
diminuir.”
“Um lado do quê? Outro lado do quê?”, pensava Alice
consigo mesma.
“Do cogumelo”, respondeu a Lagarta, como se Alice tivesse falado
alto, e já no momento seguinte ela estava fora da vista.
Alice permaneceu olhando pensativamente para o cogumelo por um minuto, tentando
compreender quais eram os dois lados da planta, e, como ela era perfeitamente
redonda, sentiu-se em meio a uma difícil questão. Entretanto,
afinal a menina esticou seus braços o mais que pôde em torno
do cogumelo e cortou um pedaço da borda com cada mão.
“E agora, qual é qual?” disse Alice para si mesma, mordiscando
um pouco da mão direita para sentir o efeito. No momento seguinte
ela sentiu um violento golpe debaixo do queixo: ela batera no seu pé.
Ela estava muito assustada com esta súbita mudança, mas sentiu
que não havia tempo a perder, pois estava encolhendo rapidamente.
Alice colocou mãos à obra para comer do outro pedaço.
Seu queixo estava tão fortemente pressionado contra seu pé,
que não havia espaço para abrir a boca; mas ela conseguiu
afinal, e esforçou-se para engolir um bocado da mão esquerda.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
“Puxa, minha cabeça está livre afinal!”, disse Alice
num tom de prazer, que mudou para um tom alarmado no momento seguinte, quando
ela descobriu que seus ombros não estavam em lugar nenhum à
vista: tudo o que ela podia ver ao olhar para baixo era uma imensidão
de pescoço, que parecia nascer como um caule sobre um mar de folhas
verdes que se estendiam lá embaixo.
“O que podem ser todas estas porcarias verdes?”, disse Alice. “E
para onde foram meus ombros? E oh, minhas pobres mãos, como é
isso, eu não posso vê-las”. Ela as estava movendo enquanto
falava, mas parecia que não adiantava nada, exceto por um leve chacoalhar
nas distantes folhas verdes.
Como parecia não haver chances de trazer suas mãos até
a cabeça, Alice tentou levar a cabeça até elas e descobriu
com alegria que seu pescoço podia tombar facilmente em qualquer
direção, como se fosse uma serpente. A menina estava justamente
conseguindo curvar seu pescoço em um gracioso zigue-zague que a levaria
a um mergulho nas folhas, que ela achava serem as copas das árvores
sob as quais anteriormente vagueara, quando um agudo silvo a fez retroceder
rapidamente: uma grande pomba voava contra seu rosto, e batia em sua faces
com as asas.
“Serpente!”, gritou a Pomba.
“Eu não sou uma serpente!”, afirmou Alice indignadamente.
“Deixe-me.”
“Serpente, eu digo novamente!”, repetiu a Pomba, mas em um tom
mais moderado, e continuou, com um tipo de soluço, “Eu tentei
de todas as maneiras, mas nada parece satisfazê-las.”
“Eu não tenho a menor idéia sobre o que você está
falando”, disse Alice.
“Eu já tentei as raízes das árvores, já
tentei as margens e já tentei as sebes”, a Pomba continuou,
sem prestar atenção em Alice. “Mas estas serpentes, nada
as satisfaz!”
Alice estava mais e mais confusa, mas achou que não adiantava falar
nada até a Pomba terminar.
“Como se não houvesse problema nenhum em chocar os ovos”,
disse a Pomba, “mas ainda tenho que ficar de olho nas serpentes, noite
e dia! Eu não tirei uma soneca sequer nesses últimos três
dias!”
“Eu sinto muito que a senhora esteja irritada”, falou Alice, que
estava começando a entender o que isso significava.
“E eu escolhi a mais alta árvore da floresta”, continuou
a Pomba, cuja voz se transformara num guincho, “e estava achando que
estaria livre delas afinal, e elas precisam serpentear até no céu!
Ugh, Serpente!”
“Mas eu não sou uma serpente, já falei!”, insistiu
Alice. “Eu sou uma...Eu sou uma...”
“Bem! O que é você?”, perguntou a Pomba. “Eu
posso ver que você está tentando inventar alguma coisa.”
“Eu...eu sou uma menininha”, disse Alice, um pouco em dúvida,
pois relembrava o número de mudanças pelas quais tinha passado
naquele dia.
“Uma história promissora, certamente!”, disse a Pomba,
com um tom do mais profundo desprezo. “Eu tenho visto muitas menininhas
em minha vida, mas nem uma com um pescoço como este. Não,
não! Você é uma serpente, e não há porque
negar isso. Eu suponho que agora você vai me dizer que nunca comeu
um ovo!”
“Eu já experimentei ovos, com certeza”, respondeu Alice,
que era uma menina que não mentia, “mas menininhas comem ovos
tanto quanto serpentes, sabe.”
“Eu não acredito nisso”, disse a Pomba, “mas se elas
comem, então elas são um tipo de serpente: isso é o
que eu posso dizer.”
Essa era uma idéia nova para Alice, ela ficou então um ou
dois minutos em silêncio, que deu à Pomba a oportunidade de
adicionar:
“Você está procurando por ovos, eu sei disso muito bem,
então o que me interessa se você é uma menininha ou
uma serpente?”
“Isso já é demais para mim”, falou Alice rudemente,
“mas eu não estou procurando por ovos como parece; e, se estivesse,
eu não iria querer os seus, eu não gosto de ovos crus.”
“Bem, saia daqui, então”, disse a Pomba em um tom amuado,
e acomodou-se novamente em seu ninho. Alice agachou-se entre as árvores
o melhor que pôde, pois seu pescoço enganchava-se nos galhos
das árvores e de vez em quando ela precisava parar e livrá-lo.
Depois de um tempo, Alice lembrou que ainda tinha pedaços de cogumelo
em suas mãos, e pôs mãos à obra bem cuidadosamente,
mordiscando de uma e depois de outra mão, e crescendo um pouco e
encolhendo um pouco, até que conseguiu colocar-se em seu tamanho
normal.
Fazia tanto tempo que ela não estava no seu tamanho normal, que sentiu-se
um pouco estranha no início, mas acostumou-se em poucos minutos,
começando a falar consigo mesma, como de costume: “Bem, metade
do meu plano já está feito! Que estranhas todas essas mudanças
são! Eu nunca tenho certeza do que vai acontecer, de um minuto para
outro! Entretanto, eu voltei ao meu tamanho de sempre: a próxima
coisa é entrar no lindo jardim — como é que isso vai ser feito,
eu gostaria de saber?
Quando a garotinha disse isso, subitamente avistou um lugar descampado,
com uma pequena casinha de mais ou menos um metros e vinte de altura.
“Quem quer que viva lá”, pensou Alice, “acho que não
seria apropriado entrar com esta altura. Posso assustá-los.” Então
ela começou a mordiscar pedacinhos da mão direita novamente
mas não se atreveu a chegar perto da casa até chegar aos
vinte e cinco centímetros de altura.
Por um minuto ou dois Alice parou olhando para a casa, tentando imaginar
o que fazer a seguir, quando repentinamente um lacaio vestido com libré
apareceu correndo vindo da direção da floresta — (ela considerou
que ele era um lacaio porque vestia um libré; por outro lado, julgando
apenas pelo seu rosto, poderia chamá-lo de peixe) — e bateu com estardalhaço
na porta com os nós dos dedos. Quem abriu foi outro lacaio de libré,
com uma cara bem redonda, e olhos grandes como um sapo; e ambos os lacaios,
Alice notou, tinham os cachos dos cabelos empoados. Ela estava muito curiosa
para saber o que se passava e rastejou para fora da floresta para ouvir.
O Peixe-Lacaio começou por retirar por debaixo do braço uma
enorme carta, quase tão grande como ele mesmo, e a estendeu para
o outro, dizendo, num tom solene: “Para a Duquesa. Um convite da Rainha
para jogar críquete.” O Sapo-Lacaio repetiu, no mesmo tom solene,
apenas mudando a ordem das palavras um pouquinho: “Da Rainha. Um convite
para a Duquesa jogar críquete.”
Então, ambos fizeram uma reverência, e seus cachos embaraçaram-se.
Alice riu tanto disso, que teve que correr de volta para a floresta de medo
que eles a tivessem ouvido; e, quando ela espiou novamente, o Peixe-Lacaio
já tinha ido embora e o outro estava sentado no chão perto
da porta, olhando fixo estupidamente para o céu.
Alice dirigiu-se timidamente até a porta, e bateu.
“Não adianta nada bater”, disse o Lacaio, “e por dois
motivos. Primeiro, porque estou no mesmo lado da porta que você, segundo,
porque eles estão fazendo muito barulho lá dentro, ninguém
vai ouvi-la.”
E certamente havia um barulho muito extraordinário acontecendo lá
— constantes uivos e espirros e de vez em quando um enorme barulho de coisa
quebrando, como se um prato ou um chaleira estivesse sendo quebrada em pedacinhos.
“Por favor, então”, disse Alice, “como eu posso entrar?”
“Haveria alguma razão em você bater na porta”, o
Lacaio continuou, sem dar importância a Alice, “se houvesse uma
porta entre nós. Por exemplo, se você estivesse dentro, você
poderia bater, e eu poderia deixar você sair, certo?” Ele olhava
para o céu durante todo o tempo que falava, e isso Alice achou decisivamente
grosseiro.
“Mas talvez ele não possa evitar”, a menina disse para
si mesma, “seus olhos são tão perto do fim da cabeça.
Mas de qualquer maneira ele poderia responder as perguntas. Como eu posso
entrar?”, ela repetiu em voz alta.
“Eu tenho que ficar aqui”, o Lacaio retomou, “até
amanhã.”
Neste momento a porta da casa abriu-se e um prato grande veio voando diretamente
até o nariz do Lacaio, machucando seu nariz e terminando por quebrar-se
em mil pedaços contra uma das árvores atrás dele.
“...ou no outro dia, talvez”, o Lacaio continuou no mesmo tom,
como se nada tivesse acontecido.
“Como eu posso entrar?”, perguntou mais uma vez Alice, mais alto
ainda.
“Você ainda quer entrar?”, disse o Lacaio. “Esta é
a primeira pergunta, você sabe.”
Isso era, sem dúvida: apenas Alice não gostou que lhe dissessem
isso. “É realmente espantoso”, murmurou para si mesma,
“a maneira com que essas criaturas falam. É o suficiente para
deixar qualquer um maluco!”
O Lacaio parecia pensar que aquela seria uma boa oportunidade de repetir
sua fala, com variações. “Eu devo sentar aqui”,
disse ele, “de vez em quando, por dias e dias”.
“Mas o que eu posso fazer?” disse Alice.
“Nada que você goste”, disse o Lacaio e começou a assoviar.
“Oh, não adianta falar com ele,” disse Alice desesperadamente,
“ele é completamente idiota!” Ela então abriu a
porta e entrou.
A porta dava diretamente para uma grande cozinha, que estava cheia de fumaça
de um lado ao outro: a Duquesa estava sentada num tamborete de três
pernas bem no meio, embalando um bebê. A cozinheira estava inclinada
sobre o fogo, mexendo um enorme caldeirão que parecia estar cheio
de sopa.
“Certamente temos muita pimenta na sopa!”, Alice disse para si
mesma, ao mesmo tempo que espirrava.
Havia certamente muita pimenta no ar. Mesmo a Duquesa espirrava ocasionalmente;
o mesmo acontecia com o bebê, que espirrava e uivava alternadamente,
sem um momento de pausa. As únicas duas criaturas na cozinha que
não espirravam eram a cozinheira e um grande gato, que estava deitado
no centro e sorria de orelha a orelha.
“Por favor, a senhora poderia me dizer”, perguntou Alice timidamente,
pois não estava muito certa se era educado falar primeiro, “porque
seu gato sorri desse jeito?”
“Porque ele é um Gato de Cheshire”, respondeu a Duquesa, “é
por isso. Porco!”
Ela pronunciou a última palavra com tanta violência que Alice
deu um pulo; mas ela percebeu no instante seguinte que o chamado era dirigido
ao bebê, e não a ela, então armou-se de coragem e tentou
novamente:
“Eu não sabia que os gatos de Cheshire sempre sorriam, de fato,
eu nunca soube que gatos pudessem sorrir.”
“Todos eles podem”, afirmou a Duquesa, “e muitos deles o fazem.”
“Eu não conheço nenhum”, disse Alice muito polidamente,
sentindo-se agradecida por ter conseguido iniciar uma conversa.
“Você não sabe muito”, disse a Duquesa, “e isso é um fato.”
Alice não gostou do tom da voz da Duquesa, e pensou que seria melhor
introduzir um outro tema de conversa. Enquanto ela tentava encontrar um,
a cozinheira tirou o caldeirão de sopa do fogo e começou a
atirar sobre a Duquesa e o bebê todos os objetos que via pela frente
— os atiçadores de fogo vieram primeiro, depois uma chuvarada de
panelas de molho, pratos e louças. A Duquesa não ligava para
nada, mesmo quando um dos utensílios a atingia: e o bebê estava
uivando tanto, que era impossível dizer se os projéteis machucavam
ou não.
“Oh, por favor, veja o que a senhora está fazendo!”, gritou
Alice, pulando de um lado para outro com agonia e terror. “Oh, lá
vai seu precioso nariz” pois um enorme caçarola voou bem perto
do bebê, e por muito pouco não o carregou.
“Se cada um se preocupasse com seus próprios negócios”,
disse a Duquesa, rosnando roucamente, “o mundo giraria mais rápido
do que gira.”
“O que não seria uma vantagem”, respondeu Alice, que sentia-se
muito feliz pela oportunidade de mostrar um pouco do seu conhecimento. “Eu
fico pensando que trabalho deve ser fazer o dia e a noite! A senhora vê,
a terra leva vinte e quatro horas para girar em torno do seu eixo...”
“Falando em eixos”, disse a Duquesa, “cortem a cabeça
dela!”
Alice olhou de soslaio ansiosamente para a cozinheira, para ver se ela iria
seguir a sugestão; mas a cozinheira estava muito ocupada emxendo
a sopa e parecia não ouvir nada; então, ela continuou: “Vinte
e quatro horas, eu acho, ou seriam vinte? Eu...”
“Ora, não me amole”, falou a Duquesa, “eu nunca tolerei
números!” E começou a embalar o bebê novamente,
cantando um tipo de canção de ninar, dando no bebê um
violento chacoalhão ao final de cada linha:
Fala bruto com o bebezinho
Dá-lhe firme quando ele espirra
Sem dó torce-lhe o focinho
Ele faz isso só de birra.
Coro
(com a cozinheira e o bebê)
Urra! Urra! Urra!
Enquanto a Duquesa cantava o segundo verso da canção, ela começou a balançar violentamente o bebê para cima e para baixo, e a pobre coisinha berrava tanto que Alice quase não conseguia ouvir as palavras:
Fala bruto com seu bebê
Bate nele quando espirra
Ele só quer encher a paciência
Porque é mesmo um chatinho!
Falo bruto com meu menino
Bato nele quando espirra
Torço bem seu nariz
Ele adora uma pimentinha!
“Tome aqui! Você pode embalá-lo um pouco se quiser!”
a Duquesa disse para Alice, arremessando o bebê para ela enquanto
falava. “Eu preciso estar pronta para jogar críquete com a Rainha”,
e apressou-se para fora da cozinha. A cozinheira atirou contra ela uma frigideira
com óleo fervente, mas não conseguiu atingi-la.
Alice apanhou o bebê com alguma dificuldade, pois a pequena criatura
tinha uma forma estranha, esticando seus braços e pernas para todas
as direções, “como uma estrela do mar” pensou Alice.
A pobre pequena coisinha bufava como uma máquina a vapor quando ela
o pegou, e continou se retorcendo e se esticando e se dobrando todo o tempo,
de modos que, no primeiro minuto ou dois, isso foi o muito que ela poderia
fazer para segurá-lo.
Tão logo ela pôde compreender a maneira correta de embalar
o bebê (que consistia em enrolá-lo em uma espécie de
nó bem apertado entre sua orelha direita e seu pé esquerdo,
para impedir que ele se desatasse). “Se eu não afastar esta
criança de mim”, pensou Alice, “tenho certeza que vou acabá-la
matando em um dia ou dois. Não seria um crime deixá-la aqui?”
Ela falou as últimas palavras em voz alta, e a pequena coisinha grunhiu
em resposta (ela já tinha parado de espirrar). “Não grunha”,
disse Alice. “Não é uma maneira muito apropriada de se
expressar.”
O bebê grunhiu novamente e Alice olhou ansiosamente para seu rosto
para tentar ver o que se passava com ele. Não havia dúvidas
de que ele tinha um nariz muito virado para cima, muito mais um focinho
que um nariz de verdade: também seus olhos estavam se tornando muito
pequenos para um bebê, Alice realmente não gostava do olhar
da coisinha. “Mas talvez ele esteja apenas soluçando”, ela
pensou, e olhou mais uma vez para seus olhos, para ver se havia alguma lágrima.
Não, não havia lágrimas. “Se você está
se transformando em um porco, meu querido”, disse Alice, seriamente,
“eu não posso fazer nada por você. Entenda!” A pobre
coisinha soluçou novamente (ou grunhiu, era impossível dizer
o que, e os dois ficaram em silêncio por algum tempo).
Alice começou a pensar consigo mesma,“Agora, o que posso eu
fazer com essa criatura, quando eu voltar para casa?”. Nesse momento
ele grunhiu mais uma vez, tão violentamente, que ela olhou para seu
rosto alarmada. Dessa vez não podia haver nenhuma dúvida:
ele não era nada mais nada menos que um porco, e ela percebeu o quão
absurdo era ela carregá-lo para qualquer lugar.
Então, soltou a pequena criatura e percebeu bastante aliviada que
ele fugiu calmamente em direção à floresta. “Se
ele crescesse”, continuou ela, “ia se tornar uma criança
extremamente feia, mas vai ser um porco bonito, eu acho.” E ela começou
a pensar em outras crianças que ela conhecia, que poderiam muito
bem ser porcos, e estava justamente dizendo para si mesma “se apenas
soubesse a maneira certa de mudá-los...” quando levou um pequeno
susto ao ver o Gato de Cheshire sentado sobre o ramos de uma árvore
a pouca distância.
O Gato apenas sorriu quando viu Alice. Ele parecia bem natural, ela pensou,
e tinha garras muito longas e muitos dentes grandes, assim ela sentiu que
deveria tratá-lo com respeito.
“Gatinho de Cheshire”, começou, bem timidamente, pois não
tinha certeza se ele gostaria de ser chamado assim: entretando ele apenas
sorriu um pouco mais. “Acho que ele gostou”, pensou Alice, e
continuou. “O senhor poderia me dizer, por favor, qual o caminho que
devo tomar para sair daqui?”
“Isso depende muito de para onde você quer ir”, respondeu o Gato.
“Não me importo muito para onde...”, retrucou Alice.
“Então não importa o caminho que você escolha”, disse o Gato.
“...contanto que dê em algum lugar”, Alice completou.
“Oh, você pode ter certeza que vai chegar”, disse o Gato,
“se você caminhar bastante.”
Alice sentiu que isso não deveria ser negado, então
ela tentou outra pergunta.
“Que tipo de gente vive lá?”
“Naquela direção”, o Gato disse, apontando sua pata
direita em círculo, “vive o Chapeleiro, e naquela”, apontando
a outra pata, “vive a Lebre de Março. Visite qualquer um que
você queira, os dois são malucos.”
“Mas eu não quero ficar entre gente maluca”, Alice retrucou.
“Oh, você não tem saída”, disse o Gato, “nós
somos todos malucos aqui. Eu sou louco. Você é louca.”
“Como você sabe que eu sou louca?”, perguntou Alice.
“Você deve ser”, afirmou o Gato, “ou então não
teria vindo para cá.”
Alice não achou que isso provasse nada afinal: entretanto, ela continuou:
“E como você sabe que você é maluco?”
“Para começar”, disse o Gato, “um cachorro não
é louco. Você concorda?”
“Eu suponho que sim”, respondeu Alice.
“Então, bem”, o Gato continuou, “você vê
os cães rosnarem quando estão bravos e balançar o rabo
quando estão contentes. Bem, eu rosno quando estou feliz e balanço
o rabo quando estou bravo. Portanto, eu sou louco.”
“Eu chamaria isso de ronronar, não rosnar”, disse Alice.
“Chame do que você quiser”, disse o Gato. “Você
vai jogar críquete com a Rainha hoje?”
“Eu gostaria muito”, respondeu Alice, “mas ainda não fui convidada.”
“Você me verá lá”, disse o Gato, e desapareceu.
Alice não ficou muito surpresa com isso, ela estava se acostumando
com coisas estranhas acontecendo. Enquanto ela ainda estava olhando para
o lugar onde o Gato estivera, ele reapareceu repentinamente.
“A propósito, no que se transformou o bebê?”, perguntou
o Gato. “Eu quase esqueci de perguntar.”
“Transformou-se num porco”, Alice respondeu calmamente, como se o Gato tivesse voltado da maneira mais natural possível.
“Eu pensei que ele iria”, disse o Gato, e desapareceu novamente.
Alice esperou um pouco, meio que esperando vê-lo novamente, mas ele
não apareceu, e depois de um minuto ou dois ela começou a
caminhar na direção de onde foi dito que a Lebre de Março
morava. “Eu já vi Chapeleiros antes”, disse ela para si
mesma, “a Lebre de Março será bem mais interessante,
e talvez, como é Maio ela não estará delirante — pelo
menos não tão loucamente como ela deve ficar em Março.”
Ao dizer estas palavras ela olhou para cima e lá estava o Gato novamente,
sentado no galho de uma árvore.
“Você falou porco ou figo? (pig or fig)”, disse o Gato.
“Eu disse porco”, retrucou Alice, “e eu gostaria que você
parasse de aparecer e desaparecer repentinamente: você deixa a gente
tonta!”
“Tudo bem”, disse o Gato, e desta vez ele desapareceu bem lentamente,
começando pelo final do rabo e terminando pelo sorriso, que permaneceu
por algum tempo depois do resto ter ido embora.
“Bem! Eu tenho visto muitos gatos sem sorriso”, pensou Alice, “Mas
um sorriso sem um gato! É a coisa mais curiosa que já vi em
toda minha vida!”
Ela não tinha ido muito longe antes antes de avistar o que imaginou
ser a casa da Lebre de Março: ela achou que deveria ser a casa certa
porque as chaminés eram feitas com a forma de orelhas e o teto era
coberto com peles. A casa era tão grande que Alice não queria
se aproximar até mordiscar um pedaço da mão esquerda
do cogumelo, e crescer para mais ou menos 70 centímetros: mesmo depois
disso ela caminhou em sua direção timidamente, dizendo para
si mesma: “Suponhamos que ela esteja delirante afinal! Eu quase desejo
que tivesse ido ver o Chapeleiro!”
Havia uma mesa arrumada embaixo de uma árvore, em frente à
casa, e a Lebre de Março e o Chapeleiro estavam tomando chá;
um Leirão estava sentado entre os dois, dormindo profundamente, e
os outros dois o usavam como almofada, descansando sobre ele e conversando
sobre sua cabeça. “Muito desconfortável para o Leirão”,
pensou Alice, “mas já que ele está dormindo, acho que
não se importa.”
A mesa era bem grande, mas os três amontoavam-se num canto. “Não
tem lugar! Não tem lugar!”, eles gritaram ao ver Alice chegando. “Tem
muito lugar!”, disse Alice com indignação, e sentou-se
em uma grande poltrona numa das cabeceiras da mesa.
“Tome um pouco de vinho”, a Lebre de Março ofereceu em
um tom encorajador.
Alice olhou ao redor por sobre a mesa e não havia nada senão
chá.
“Eu não vejo nenhum vinho”, ela observou.
“Não tem nenhum mesmo”, retrucou a Lebre de Março.
“Então não é muito educado de sua parte oferecer”,
respondeu Alice com raiva.
“E não é muito educado de sua parte sentar-se sem ser
convidada”, disse a Lebre de Março.
“Eu não sabia que era sua mesa”, insistiu Alice, “ela
está arrumada para muito mais que três convidados.”
“Seu cabelo está precisando ser cortado”, disse o Chapeleiro.
Ele estivera olhando para Alice por algum tempo com grande curiosidade e
esta fora sua primeira intervenção.
“Você deveria aprender a não fazer esse tipo de comentário
pessoal”, Alice retrucou com severidade. “Isso é muito
grosseiro.”
O Chapeleiro arregalou os olhos ao ouvir isso, mas, tudo que ele disse foi:
“Por que um corvo se parece com uma escrivaninha?”
“Legal, vamos ter diversão agora!”, pensou Alice. “Fico
feliz que ele tenha começado a propor charadas — acho que posso adivinhar
essa”, ela completou em voz alta.
“Você acha que pode encontrar a resposta dessa?” perguntou
a Lebre de Março.
“Exatamente”, respondeu Alice.
“Então você pode dizer o que acha”, a Lebre de Março
continuou.
“E vou”, Alice replicou rapidamente, “pelo menos — pelo menos,
eu acho o que digo — o que é a mesma coisa, você sabe.”
“Não é a mesma coisa nem um pouco!”, disse o Chapeleiro.
“Senão você também poderia dizer”, completou
a Lebre de Março, “que ‘Eu gosto daquilo que tenho’ é
a mesma coisa que ‘Eu tenho aquilo que gosto.’”
“Seria o mesmo que dizer”, interrompeu o Leirão, que parecia
estar falando enquanto dormia, “que ‘Eu respiro enquanto durmo’ é
a mesma coisa que ‘Eu durmo enquanto respiro!’”
“Isso é a mesma coisa para você”, disse o Chapeleiro,
e nesse ponto a conversa parou e a reunião ficou em silêncio
por um minuto. Enquanto isso Alice tentava lembrar tudo que ela sabia sobre
corvos e escrivaninhas, que não era muito.
O Chapeleiro foi o primeiro a quebrar o silêncio. “Que dia do
mês é hoje?”, perguntou, virando-se para Alice: ele tinha
tirado seu relógio do bolso e olhava para ele ansiosamente, chacoalhando-o
de vez em quando e levantando-o no ar.
Alice pensou um pouco e então falou: “É dia quatro.”
“Dois dias errado”, suspirou o Chapeleiro. “Eu falei pra
você que a manteiga não ia adiantar nada”, ele completou,
olhando raivosamente para a Lebre de Março.
“Era a melhor manteiga”, a Lebre de Março replicou mansamente.
“Sim, mas algumas migalhas devem ter caído”, o Chapeleiro
rosnou. “Você não deveria ter passado com uma faca de
pão.”
A Lebre de Março apanhou o relógio e olhou para ele melancolicamente;
então afundou-o na sua xícara de chá, e olhou novamente
para ele: mas parecia que não encontrava nada melhor para dizer que
o que já dissera: “Era a melhor manteiga, você sabe.”
Alice estivera olhando por cima dos ombros com curiosidade. “Que relógio
engraçado!”, ela observou. “Ele diz o dia do mês
e não diz a hora!”
“Porque deveria?”, resmungou o Chapeleiro. “Por acaso o seu
relógio diz o ano que é?”
“É claro que não”, Alice replicou rapidamente, “mas
é porque o ano permanece por muito tempo o mesmo.”
“Este é exatamente o caso do meu”, disse o Chapeleiro.
Alice sentiu-se terrivelmente perturbada. O comentário do Chapeleiro
parecia para a menina completamente sem sentido, e ainda assim era inglês.
“Eu não estou entendendo nada”, ela disse, o mais educadamente
que pôde.
“O Leirão está dormindo novamente”, disse o Chapeleiro,
e despejou um pouco de chá quente sobre seu nariz.
O Leirão balançou a cabeça impacientemente e disse,
sem abrir os olhos: “É claro, é claro, é justamente
o que eu ia dizer.”
“Você já adivinhou a charada?”, perguntou o Chapeleiro,
virando-se novamente para Alice.
“Não, eu desisto”, Alice respondeu. “Qual é
a solução?”
“Eu não tenho a mínima idéia”, disse o Chapeleiro.
“Nem eu”, disse a Lebre de Março.
Alice suspirou enfastiadamente. “Eu acho que você deveria fazer
coisa melhor com seu tempo”, ela disse, “ao invés de gastá-lo
com charadas que não têm resposta.”
“Se você conhecesse o Tempo tão bem quanto eu conheço”,
o Chapeleiro falou, “não falaria em gastá-lo como se
fosse uma coisa. Ele é uma pessoa.”
“Eu não sei o que você está dizendo”, disse
Alice.
“Claro que não!”, o Chapeleiro disse, sacudindo a cabeça
desdenhosamente. “É muito provável que você nunca
tenha falado com o Tempo!”
“Talvez não”, Alice replicou cautelosamente, “mas
eu sei que tenho que marcar o tempo quando aprendo música.”
“Ah! Isso explica”, concluiu o Chapeleiro. “Ele não
vai ficar marcando compasso para você. Agora, se você ficar
numa boa com ele, poderá fazer o que quiser com o relógio.
Por exemplo, suponha que são nove horas da manhã, bem a hora
de começar a fazer as lições de casa, você apenas
tem que insinuar no ouvido do Tempo e o ponteiro dá uma virada num
piscar de olhos! Uma e meia, hora do almoço!”
(“Eu queria que fosse”, a Lebre de Março disse para si
mesma num sussurro.)
“Isso seria ótimo, com certeza”, disse Alice pensativamente;
“mas então...eu poderia ainda não estar com fome, você
sabe.”
“A princípio não, talvez”, retomou o Chapeleiro,
“mas você poderia ficar na uma e meia da tarde tanto tempo quanto
você quisesse.”
“É assim que você faz?”, perguntou Alice.
O Chapeleiro balançou a cabeça com ar de lamento. “Eu
não”, ele replicou. “Eu e o Tempo tivemos uma disputa março
passado...um pouco antes dela enlouquecer, você sabe...” (apontando
a Lebre de Março com a colher de chá) “...foi no grande
concerto dado pela Rainha de Copas e eu tinha que cantar
Pisca, pisca, pequeno morcego!
Como eu queria saber onde você está!
“Você conhece a canção, por acaso?”
“Já ouvi alguma coisa parecida”, disse Alice.
“Ela continua, você sabe”, o Chapeleiro prosseguiu, “dessa
maneira:
Muito acima do mundo você voa,
Parece uma bandeja de chá no céu,
Pisca, pisca...”
Nesse instante o Leirão estremeceu e começou a cantar dormindo
“Pisca, pisca, pisca, pisca...” e continuou repetindo tantas vezes
a palavras que tiveram que lhe dar um beliscão para que ele parasse.
“Bem eu mal tinha acabado de cantar o primeiro verso”, disse o
Chapeleiro, “quando a Rainha berrou ‘Ele está matando o tempo!
Cortem-lhe a cabeça!’”
“Que selvageria”, exclamou Alice.
“E desde então”, o Chapeleiro continuou num tom de lamento,
“ele não faz nada do que eu peço! É sempre seis
da tarde agora!”
Uma idéia brilhante veio à mente de Alice. “Esta é
a razão de tantas coisas para o chá colocadas na mesa?”
ela perguntou.
“É, é isso”, respondeu o Chapeleiro com um suspiro,
“é sempre hora do chá, e nós não temos
tempo de lavar as coisas entre um chá e outro.”
“Então vocês ficam rodando em volta da mesa, não
é?”, disse Alice.
“Exatamente”, disse o Chapeleiro, “à medida que as
coisas vão ficando sujas.”
“Mas o que acontece quando vocês chegam ao início outra
vez?”, Alice aventurou-se a perguntar.
“Eu proponho que mudemos de assunto”, a Lebre de Março
interrompeu, bocejando. “Estou ficando cansada disso. Eu voto para
que a jovem senhorita conte-nos uma história.”
“Eu temo que não conheço nenhuma”, disse Alice,
um pouco alarmada com a proposta.
“Então o Leirão contará!”, os outros dois
gritaram.“Acorde, Leirão!” E beliscaram-no dos dois lados.
O Leirão abriu os olhos lentamente. “Eu não estava dormindo”,
ele falou numa voz rouca, fraquinha, “eu ouvi cada palavra que meus
amigos falavam.”
“Conte-nos uma história!”, disse a Lebre de Março.
“Sim, por favor!”, implorou Alice.
“E seja rápido”, completou o Chapeleiro, “ou você
poderá dormir novamente antes de acabar.”
“Era uma vez três irmãzinhas”, ele começou
apressadamente, “e seus nomes eram Elsie, Lacie e Tillie, e elas viviam
no fundo de um poço...”
“E o que elas comiam?”, perguntou Alice, que sempre se interessava
pelas questões sobre comida e bebida.
“Elas comiam melado”, respondeu o Leirão, depois de pensar
por um minuto ou dois.
“Elas não poderiam viver só de melado, você sabe”,
Alice observou gentilmente. “Elas ficariam doentes.”
“E ficaram”, disse o Leirão, “muito doentes.”
Alice tentou um pouquinho imaginar quão extraordinário seria
este modo de vida, mas ficou muito confusa e assim, continuou: “Mas
porque elas viviam no fundo de um poço?”
“Tome mais um pouco de chá”, ofereceu a Lebre de Março
para Alice, com um ar sério.
“Mas eu ainda não tomei nada”, replicou Alice em um tom
ofendido, “portanto eu não posso tomar mais.”
“Você quer dizer que não pode tomar menos”, disse
o Chapeleiro, “é mais fácil tomar mais do que nada.”
“Ninguém perguntou sua opinião”, disse Alice.
“Quem está fazendo observações pessoais agora?”,
o Chapeleiro perguntou triunfalmente.
Alice não tinha o que responder no momento, daí, aproveitou
para tomar um pouco de chá com torradas. Virou-se então para
o Leirão e repetiu sua pergunta: “Porque elas viviam no fundo
de um poço?”
Mais uma vez o Leirão demorou um minuto ou dois para responder e
então disse: “Era um poço de melado.”
“Isso não existe!”, Alice estava ficando muito brava, mas
o Chapeleiro e a Lebre de Março começaram a fazer psiu e o
Leirão com um ar amuado observou: “Se você não
consegue se comportar civilizadamente, é melhor que acabe a história
por conta própria.”
“Não, por favor, continue!”, disse Alice humildemente.
“Eu não vou mais interromper. É muito provável
que existe mesmo um poço assim.”
“Um, certamente!”, retomou o Leirão indignadamente. Entretanto,
ele continuou. “Bem, daí as três irmãzinhas...elas
estavam aprendendo a extrair, sabe...”
“O que elas extraíam?”, perguntou Alice, já esquecendo
da promessa.
“Melado”, respondeu o Leirão, sem levar em conta a quebra
da promessa, dessa vez.
“Eu quero uma xícara limpa”, interrompeu o Chapeleiro,
“vamos mudar de lugar.”
Ele avançou um lugar enquanto falava, e o Leirão o seguiu,
a Lebre de Março ficou no seu lugar e Alice com má vontade
ficou com o lugar da Lebre de Março. O Chapeleiro foi o único
que ficou com a xícara limpa e Alice ficou em um lugar bem pior do
que estava antes, pois a Lebre de Março tinha acabado de derramar
leite no prato.
Alice não queria ofender o Leirão novamente, por isso começou
a falar com cautela:
“Mas eu não entendi. De onde elas extraíam o melado?”
“Você pode extrair água de um poço de água”,
disse o Chapeleiro, “portanto eu acho que pode extrair melado de um
poço de melado, não é, imbecil?”
“Mas elas estavam dentro do poço”, Alice disse para o Leirão,
como se não tivesse ouvido o último comentário.
“É claro que estavam”, respondeu o Leirão, “bem
no fundo”.
Esta resposta confundiu de tal forma a pobre Alice, que ela deixou o Leirão
prosseguir por algum tempo sem interrompê-lo.
“Elas estavam aprendendo a extrair”, continuou o Leirão,
bocejando e esfregando os olhos, pois estava ficando com muito sono, “e
elas extraíam todo tipo de coisas...tudo o que começava com
M...”
“Por que com M?”, disse Alice.
“Por que não?” respondeu a Lebre de Março.
Alice ficou em silêncio.
O Leirão aproveitou para fechar os olhos e já estava começando
a cochilar, mas, ao ser beliscado pelo Chapeleiro, acordou novamente com
um gritinho e continuou, “...que começava com M, como mouse-traps (ratoeira)
e moon (lua) e memory (memória, lembranças) e muchness (advérbio
de intensidade)... você sabe, quando você diz que as coisas
são um monte de muitão... você já pensou nisso
como um extração de muitão?”
“Realmente, agora que você me pergunta”, disse Alice, bem
confusa, “eu acho que não...”
“Então você não deveria falar nada”, disse
o Chapeleiro.
Esse tipo de grosseria era mais do que Alice conseguia suportar: ela
levantou-se muito brava e foi saindo. O Leirão caiu no sono imediatamente
e nenhum dos outros dois deu a mínima para sua saída, embora
ela tenha olhado para trás uma ou duas vezes, meio que querendo que
eles a chamassem. A última vez que Alice os avistou eles estavam
tentando enfiar o Leirão dentro do bule de chá.
“Eu não volto lá de jeito nenhum!”, disse Alice,
enquanto abria caminho em direção à floresta. “Foi
o mais estúpido chá do qual participei em toda minha vida!”
Ao dizer isso ela percebeu que uma das árvores tinha uma porta que
dava para seu interior. “Que curioso!”, ela pensou. “Mas
tudo está tão curioso hoje. Eu acho que posso muito bem entrar
nessa árvore.” E entrou.
Uma vez mais ela encontrou-se naquela sala comprida e com a pequena mesa
de vidro. “Desta vez já sei como fazer”, ela disse para
si mesma, e começou por apanhar a pequena chave dourada, depois abriu
a porta que dava para o jardim. Só então ela começou
a mordiscar o cogumelo (que ela mantivera em seu bolso) até que estivesse
com mais ou menos 30 centímetros de altura: daí ela atravessou
a pequena passagem e então... ela estava em um lindo jardim entre
canteiros de flores resplandecentes e fontes de água fresca.
Uma grande roseira imperava na entrada do jardim: as rosas que nela cresciam eram brancas, mas havia três jardineiros que se ocupavam em pintá-las de vermelho. Alice achou que aquilo era uma coisa estranha e aproximou-se para ver melhor. Justamente na hora que chegou perto deles, ouviu um dos jardineiros dizer:
“Cuidado, Cinco! Não jogue tinta em mim!”
“Eu não tive culpa”, disse o Cinco em um tom aborrecido.
“O Sete empurrou meu cotovelo.”
Nisso o Sete olhou para cima e retrucou:
“Muito bem, Cinco! Sempre colocando a culpa nos outros!”
“É melhor você não falar nada!”, disse o Cinco.
“Ontem mesmo eu ouvi a Rainha dizer que você merecia ser decapitado!”
“Por quê?”, disse aquele que tinha falado primeiro.
“Não é de sua conta, Dois!”, disse o Sete.
“É sim, é da conta dele!”, disse o Cinco. “E
eu vou dizer pra ele... é porque você levou raízes de
tulipa ao invés de cebolas para a cozinheira.”
O Sete jogou o pincel fora, e estava começando a falar “Bem,
de todas as injustiças...”, quando seus olhos caíram
sobre Alice, que os estava observando. Ele calou-se subitamente: os outros
olharam ao redor e todos curvaram-se em respeitosa reverência.
“Vocês poderiam dizer-me, por favor”, disse Alice, um pouco
timidamente, “por que estão pintando estas rosas?”
O Cinco e o Sete não disseram nada, mas olharam para o Dois. O Dois
começou, em um tom baixo:
“Porque, de fato, você vê, Senhorita, esta deveria ser
uma roseira vermelha, e nós plantamos uma roseira branca por engano,
e, se a Rainha descobrir, nós todos seremos decapitados, sabe. Portanto,
você vê, Senhorita, estamos fazendo o melhor possível,
antes que ela chegue para...”
Neste exato momento, o Cinco, que estivera todo o tempo olhando ansiosamente
para o jardim, gritou: “A Rainha! A Rainha!” E os três jardineiros
atiraram-se instantaneamente de bruços no chão. Havia o som
de muitas passadas, e Alice olhava ao redor, doida para ver a Rainha.
Em primeiro lugar chegaram dez soldados carregando clavas: eles eram todos
da mesma forma que os jardineiros, retangulares e achatados, com as mãos
e os pés saindo dos quatro cantos; depois vinham dez cortesãos,
que eram ornamentados com diamantes e caminhavam de dois em dois, como os
soldados. Depois desses vinham as crianças reais, dez delas, e as
gracinhas iam saltitando alegremente de mãos dadas, em duplas também.
A seguir vinham os convidados, a maior parte de Reis e Rainhas, e entre
estes Alice reconheceu o Coelho Branco, falando apressadamente de um jeito
nervoso, sorrindo para tudo o que era dito. Ele seguiu sem reconhecer Alice.
Finalmente vinha o Valete de Copas, que carregava a coroa do Rei sobre uma
almofada de veludo escarlate, antecipando o final do grande cortejo, que
trazia O REI E A RAINHA DE COPAS.
Alice estava em dúvida se deveria ou não atirar-se ao chão
de bruços como os três jardineiros, mas não conseguia
se lembrar se já tinha ouvido falar sobre tal regra em cortejos,
“e além disso, qual seria a utilidade de um cortejo”, pensou,
“se as pessoas ficam de bruços e não podem vê-lo?”
Então ela ficou como estava e esperou.
Quando o cortejo passou por Alice, todos pararam e olharam para ela. A Rainha
disse, severamente: “Quem é isso?”, dirijindo-se ao Valete
de Copas, que apenas curvou-se e sorriu em resposta.
“Idiota!”, disse a Rainha, balançando a cabeça impacientemente,
e, dirigindo-se para Alice, prosseguiu: “Qual é o seu nome,
criança?”
“Meu nome é Alice, às suas ordens Majestade”, disse
Alice bem educadamente, mas acrescentou, para si mesma, “Oras, afinal
de contas eles não passam de um baralho de cartas. Eu não
preciso ter medo deles!”
“E quem são esses?”, perguntou a Rainha, apontando para
os três jardineiros que estavam ainda estendidos ao lado da roseira.
Isso porque, vocês sabem, como eles estavam de bruços e a parte
de trás do baralho era igual a todo o resto do baralho, ela não
poderia dizer se eles eram jardineiros, ou soldados, ou cortesãos
ou três das crianças reais.
“Como é que eu poderia saber?”, disse Alice surpreendida
por sua coragem. “Não é da minha conta.”
A Rainha ficou vermelha de raiva e depois de encará-la por um momento
como uma fera selvagem, começou a gritar: “Cortem-lhe a cabeça!
Cortem-lhe...”
“Besteira!”, retrucou Alice, em tom alto e decidido, e a Rainha
calou-se.
O Rei pousou sua mão sobre o braço da esposa e disse timidamente:
“Deixe pra lá, minha querida: ela é apenas uma criança!”
A Rainha afastou-se dele com raiva e disse para o Valete:
“Vire-os!”
O Valete os virou, muito delicadamente, com um pé.
“Levantem-se!”, disse a Rainha com uma voz estridente e alta,
e os três jardineiros instantaneamente saltaram e começaram
a fazer reverências para o Rei, a Rainha, as crinças reais
e todo o resto do pessoal.
“Parem com isso”, gritou a Rainha. “Vocês me deixam
tonta.” Então, virando-se para a roseira, ela continuou falando:
“O que vocês estavam fazendo aqui?”
“Para servir à Sua Majestade”, disse o Dois, humildemente,
ficando sobre um joelho enquanto falava, “nós estávamos
tentando...”
“Eu entendo!”, disse a Rainha, enquanto examinava as rosas. “Cortem-lhe
as cabeças!” e o cortejo prosseguiu, com três dos soldados
ficando para trás para executar os desafortunados jardineiros, que
correram na direção de Alice em busca de proteção.
“Vocês não serão decapitados!”, disse Alice,
colocando-os dentro de um grande jarro de flores que estava por perto. Os
três soldados ficaram confusos por um minuto ou dois, procurando por
eles e então voltaram para o final do cortejo.
“As cabeças já foram cortadas?”, berrou a Rainha.
“Suas cabeças se foram, para servi-la, Majestade!”,
os soldados gritaram em resposta.
“Muito bem!”, gritou a Rainha. “Você sabe jogar críquete?”
Os soldados permaneceram em silêncio e olharam para Alice, pois a
pergunta era evidentemente dirigida a ela.
“Sim!”, gritou Alice.
“Então venha”, rugiu a Rainha e Alice juntou-se ao cortejo,
doida para saber o que aconteceria a seguir.
“É um...é um belo dia!” disse uma vozinha tímida
ao seu lado. Ela estava caminhando bem ao lado do Coelho Branco, que ficava
olhando o tempo todo para ela.
“Muito”, disse Alice. “Onde está a Duquesa?”
“Psiu!Psiu!”, disse o Coelho em voz baixa, assustado. Ele olhava
ansiosamente por sobre os ombros enquanto falava e então ergueu-se
na ponta das patinhas, colocando a boca bem perto dos ouvidos de Alice e
cochichou: “Ela foi condenada.”
“A que pena?” perguntou Alice.
“Você disse ‘Que pena!’?”, o Coelho perguntou.
“Não, eu não disse”, retrucou Alice. “Não
acho que seja uma pena. Eu disse ‘A que pena?’!”
“Ela deu um murro nos ouvidos da Rainha...”, o Coelho começou
a contar. Alice disparou a rir. “Oh, psiu!”, o Coelho murmurou
em um tom assustado. “A Rainha irá ouvi-la! Mas você entende,
a Duquesa chegou muito tarde e a Rainha falou...”
“Tomem seus lugares!”, gritou a Rainha em uma voz de trovão,
e as pessoas começaram a correr em todas as direções,
batendo umas nas outras. Entretanto, em um minuto ou dois estavam todos
em seus lugares e o jogo começou.
Alice pensou que ela nunca em sua vida vira um campo de críquete
tão curioso: ele era todo cheio de saliências e sulcos, as
bolas de críquete eram ouriços vivos e os tacos eram flamingos
também vivos. Os soldados curvavam-se e colocavam as mãos
no chão para fazer os arcos do jogo.
A principal dificuldade que Alice encontrou no início foi como segurar
seu flamingo: ela poderia manter o corpo dele sob seu braço com razoável
conforto, com as pernas da ave penduradas. Mas, geralmente quando conseguia
esticar o pescoço do flamingo e ia fazê-lo chutar o ouriço
com a cabeça, ele virava-se e olhava para Alice com uma expressão
tão confusa que ela não conseguia parar de rir. Depois, quando
desvirava a cabeça dele e se preparava para começar tudo de
novo, era irritante perceber que o ouriço tinha se desenroscado e
fugia. Além disso, sempre havia uma saliência ou sulco no caminho
em que ela queria mandar o ouriço e os soldados-arcos estavam sempre
se levantando e mudando de lugar. Alice logo chegou à conclusão
que aquele era realmente um jogo muito difícil.
Os jogadores jogavam todos ao mesmo tempo, sem esperar sua vez, discutindo
o tempo todo, brigando pelos ouriços; logo a Rainha estava furiosa
e batia com os pés no chão, gritando: “Cortem a cabeça
dele!”, ou “Cortem a cabeça dela!” o tempo todo.
Alice começou a sentir-se muito mal: para dizer a verdade, ela ainda
não tinha discutido nenhuma vez com a Rainha no jogo mas sabia que
poderia acontecer a qualquer minuto, “e então”, ela pensou,
“o que irá acontecer comigo? Eles são loucos para cortar
as cabeças por aqui. A grande dúvida é como ainda existe
alguém vivo!”
Ela estava procurando alguma maneira de escapar, imaginando se daria para
fugir sem ser vista quando percebeu uma curiosa aparição no
ar: aquilo a confundiu muito no início, mas depois de olhar por um
minuto ou dois percebeu que era um sorriso e ela disse para si mesma: “É
o Gato de Cheshire: agora eu tenho alguém com quem falar.”
“Como você está se saindo?”, perguntou o Gato, tão
logo ele teve boca o suficiente para falar.
Alice esperou até que seus olhos surgissem e então cumprimentou-o com a cabeça.
“Não adianta falar com ele”, ela pensou, “até
que suas orelhas apareçam, ao menos uma delas.” Em um minuto
toda a cabeça apareceu e então Alice colocou seu flamingo
no chão e começou a comentar o jogo, sentindo-se muito feliz
por ter alguém para ouvi-la. O Gato parecia achar que já havia
parte suficiente sua aparente e nada mais surgiu.
“Eu não acho que eles joguem de maneira muito certa”, Alice
começou em um tom de queixa, “e discutem de um jeito tão
maluco que você não consegue ouvir ninguém falar...e
parece que eles não têm nenhuma regra. Finalmente, se têm,
ninguém parece respeitar...você não faz idéia
de como é confuso jogar com todas essas coisas vivas. Por exemplo,
o arco sob o qual deveria passar minha bola mudou-se para o outro lado do
campo...e quando eu deveria atingir o ouriço da Rainha agora há
pouco, ele saiu correndo ao ver o meu se aproximando!”
“O que é que você acha da Rainha?”, perguntou o Gato
em uma voz baixa.
“Nada em especial”, respondeu Alice, “ela é tão
extremamente...” Exatamente neste instante ela percebeu que a Rainha
estava bem ao seu lado, ouvindo, “...boa nesse jogo que vai ser muito
difícil chegar ao final da partida.”
A Rainha sorriu e seguiu em frente.
“Com quem você está falando?”, perguntou o Rei, vindo
em direção de Alice e olhando para a cabeça do Gato
com muita curiosidade.
“É um amigo meu...o Gato de Cheshire”, respondeu Alice.
“Deixe-me apresentá-lo.”
“Eu não gosto do jeito dele”, disse o Rei. “Entretanto
ele pode beijar minha mão, se quiser.”
“Eu prefiro não beijar”, o Gato retrucou.
“Não seja impertinente”, disse o Rei, “e não
me olhe dessa maneira!”, escondendo-se atrás de Alice enquanto
falava.
“Um gato pode olhar para um rei”, disse Alice. “Eu já
li isso em algum livro, mas não me recordo qual.”
“Bem, ele tem que retirar-se daí”, disse o Rei decidido,
e chamou a Rainha, que passava por ali naquele momento: “Minha querida!
Eu gostaria que você mandasse retirar esse gato daqui!”
A Rainha só tinha uma maneira de remover todas as dificuldades, grandes
ou pequenas. “Cortem-lhe a cabeça!”, ela ordenou sem nem
mesmo olhar para os lados.
“Eu mesmo vou buscar o carrasco”, disse o Rei impacientemente
e apressou-se.
Alice pensou que seria melhor voltar e ver como andava a partida, quando
ouviu ao longe a voz da Rainha gritando enlouquecidamente. Ela já
ouvira por três vezes a sentença de execução
para jogadores que tinham perdido sua vez e não estava gostando nada
disso, pois com o jogo confuso como estava ela nunca sabia se era sua vez
ou não de jogar. Daí, ela saiu procurando seu ouriço.
O ouriço estava engalfinhado com outro ouriço, o que pareceu
para Alice uma excelente oportunidade para atirar um contra o outro: a única
dificuldade foi que o seu flamingo tinha corrido para o outro canto do campo,
onde Alice podia vê-lo tentando, sem grandes resultados, levantar
vôo até uma árvore.
Quando finalmente ela conseguiu apanhar o flamingo e trazê-lo novamente
de volta, a luta entre os ouriços tinha terminado e os dois animais
tinham sumido: “Mas isso não importa”, Alice pensou, “pois
todos os arcos se foram desse lado do campo.” Então ela novamente
colocou o flamingo debaixo do braço para que ele não escapasse
novamente, e voltou para conversar um pouquinho mais com seu amigo.
Quando ela voltou para onde estava o Gato de Cheshire, surpreendeu-se com
uma multidão ao seu redor: havia uma discussão entre o carrasco,
o Rei e a Rainha, todos falando ao mesmo tempo, enquanto o resto permanecia
em silêncio, parecendo bastante constrangidos.
No momento em que Alice apareceu, foi chamada pelos três para decidir
a questão. Eles repetiram seus argumentos, mas, como todos falavam
ao mesmo tempo, ela achou muito difícil entender exatamente o que
diziam.
O carrasco argumentava que não se pode cortar uma cabeça ao
menos que ela não esteja presa a um corpo. Que ele nunca fizera uma
coisa dessas na vida e não seria desta vez que ele começaria.
O Rei argumentava que qualquer coisa que tivesse cabeça poderia ser
decapitada, e que aquela conversa era besteira.
A Rainha argumentava que, se alguma coisa não fosse feita rapidamente,
ela iria mandar executar todo mundo em volta. (Esta última observação
é que deixara o grupo com aquele tom sério e ansioso.)
Alice não encontrou nada melhor para dizer que “Ele pertence
à Duquesa: seria melhor perguntar para ela sobre isso.”
“Ela está na prisão”, a Rainha disse ao carrasco.
“Vá buscá-la.” E o carrasco saiu disparado como
uma flecha.
A cabeça do Gato começou a desaparecer bem no momento em que
ele se foi e na hora que o carrasco voltou com a Duquesa já tinha
sumido totalmente. O Rei e o carrasco começaram a procurá-lo
desesperadamente por todo lado, enquanto o restante do grupo voltou ao jogo.
“Você não pode imaginar como eu estou feliz em vê-la
novamente, minha queridinha”, disse a Duquesa, tocando afetuosamente
o braço de Alice, passando a caminhar junto com ela.
Alice ficou feliz por encontrá-la de bom humor, e pensou consigo
mesma que talvez fosse a pimenta que a deixava tão selvagem como
quando as duas se conheceram na cozinha.
“Quando eu for uma Duquesa”, ela disse para si mesma (não
em um tom muito esperançoso), “não vou usar pimenta em
minha cozinha de jeito nenhum. Sopa cai muito bem sem isso talvez seja a
pimenta que deixe as pessoas mal-humoradas”, ela continuou, bem feliz
de ter descoberto um novo tipo de regra, “e o vinagre as deixa azedas...e
a camomila as deixa amargas...e...e as balas de cevada e este tipo de coisas
é que deixam as crianças tão doces. Eu queria que as
pessoas soubessem disso: então, eles não seriam tão
sovinas com doces, sabe...”
Ela quase se esqueceu da Duquesa nessa hora e levou um pequeno susto quando
ouviu sua voz perto dos ouvidos.
“Você está pensando em alguma coisa, minha querida, e
isso faz você esquecer de falar. Eu não posso lhe dizer agora
qual é a moral disso mas vou lembrar num instante.”
“Talvez não haja nenhuma”, Alice aventurou-se a observar.
“Ora, ora, criança!”, retrucou a Duquesa. “Tudo tem
uma moral, se você encontrá-la.” E foi se apertando contra
Alice enquanto falava.
Alice não gostou muito de estar tão perto dela, em primeiro
lugar porque a Duquesa era muito feia, e em segundo lugar porque era do
tamanho exato para apoiar o queixo sobre o ombro de Alice, e possuía
um queixo muito pontudo. Entretanto, Alice não queria ser rude e
por isso agüentou o quanto pôde.
“O jogo parece estar bem melhor agora”, disse para manter a conversa.
“Perfeito”, respondeu a Duquesa, “e a moral disso é...‘Oh!, é o amor, é o amor que faz o mundo girar!’”
“Alguém disse”, Alice murmurou, “que ele gira quando
cada um cuida dos seus próprios negócios.”
“Ah! Bem! Isto quer dizer quase a mesma coisa”, disse a Duquesa
enfiando o queixo pontudo nos ombros de Alice, completando, “e a moral
disso é...‘Tome conta do sentido e os sons tomarão conta de
si mesmos.”
“Como ela gosta de achar uma moral em tudo!”, Alice pensou consigo
mesma.
“Aposto como você está pensando porque eu não coloco
meu braço na sua cintura”, a Duquesa falou, depois de uma pausa.
“A razão é: tenho dúvidas em relação
ao humor do seu flamingo. Posso experimentar?”
“Ele pode bicar”, Alice cautelosamente replicou, não se
sentindo nem um pouco a fim de que ela tentasse.
“Bem verdade”, disse a Duquesa, “flamingos e a mostarda bicam.
E a moral disso é...‘Pássaros da mesma plumagem voam juntos’.”
“Só que a mostarda não é um pássaro”, Alice observou.
“Certo. Como sempre”, disse a Duquesa, “você tem uma
maneira muito clara de colocar as coisas!”
“É um mineral, eu acho”, disse Alice.
“É claro que é”, disse a Duquesa, que parecia pronta
para concordar com tudo que Alice dissesse. “Há uma grande máquina
de mostarda perto daqui. E a moral disso é...‘Quanto mais tenho para
mim, menos sobra para os outros’.”
“Ah!, já sei!”, exclamou Alice, que não tinha prestado
atenção à última observação da
Duquesa. “É um vegetal. Não parece com um mas é.”
“Eu concordo com você”, disse a Duquesa, “e a moral
disso é...‘Seja o que você parece ser’...ou, se você prefere
colocar isso de um jeito mais simples...‘Nunca se imagine diferente do que
deveria parecer para os outros o que você fosse ou poderia ter sido
não seja diferente do que você tendo sido poderia ter parecido
para eles ser diferente’.”
“Eu acho que poderia entender melhor”, disse Alice polidamente,
“se eu tivesse isso por escrito: não consigo seguir com você
falando.”
“Isso não é nada em comparação com o que
eu poderia dizer, se quisesse”, replicou a Duquesa num tom de prazer.
“Por favor, não se dê ao trabalho de dizer isso mais complicado
que já disse”, falou Alice.
“Oh, não fale em dar trabalho”, disse a Duquesa. “Dou-lhe
de presente tudo o que já falei até agora.”
“Um tipo de presente bem barato!”, pensou Alice. “Fico feliz
que as pessoas não costumem dar presentes de aniversário como
esses!”. Mas ela não se aventurou a dizer issso em voz alta.
“Pensando novamente?”, perguntou a Duquesa, com outro cutucão
do seu queixo pontudo.
“Eu tenho o direito de pensar”, disse Alice asperamente começando
a se sentir aborrecida.
“Tem tanto direito”, disse a Duquesa, “quanto os porcos têm
de voar, e a mo...”
Mas nesse instante, para grande surpresa de Alice, a voz da Duquesa sumiu,
bem no meio da sua palavra favorita, moral, e o braço que estava
grudado no seu começou a tremer. Alice olhou para cima e lá
estava a Rainha diante dela, com os braços cruzados, franzindo o
cenho como uma tempestade de raios e trovões.
“Um belo dia, não é, Majestade?”, a Duquesa começou,
com uma vozinha débil, frágil.
“Agora, eu vou lhe dar um aviso sincero”, gritou a Rainha, batendo
os pés no chão enquanto falava, “ou você ou a sua
cabeça devem sair daqui, e já! Faça sua escolha!”
A duquesa fez sua escolha e sumiu no mesmo instante.
“Vamos continuar com o jogo”, a Rainha disse para Alice, e a menina
estava assustada demais para dizer qualquer coisa, por isso seguiu-a lentamente
em direção ao campo de críquete.
Os outros convidados tiraram vantagem com a ausência da Rainha e estavam
descansando na sombra: entretanto, tão logo a avistaram correram
apressados para o jogo, pois a Rainha tinha reforçado que um minuto
sequer de atraso iria lhes custar a vida.
Todo o tempo em que eles estiveram jogando a Rainha não parou nem
um minuto de discutir com os jogadores e gritar “Cortem a cabeça
dele!”, ou “Cortem a cabeça dela!”. Aqueles que eram
sentenciados ficavam sob custódia dos soldados, que, é claro,
tinham que deixar seus postos de arcos do jogo para isso, daí, lá
pelo final da primeira meia-hora de jogo, já não havia mais
arcos e todos os jogadores, com exceção do Rei, da Rainha
e de Alice estavam presos e sob sentença de execução.
Então a Rainha abandonou o jogo, quase sem fôlego e perguntou
para Alice: “Você já viu a Falsa Tartaruga?”
“Não”, respondeu Alice. “Eu nem mesmo sei quem é
a Falsa Tartaruga.”
“É com o que se faz a Sopa de Falsa Tartaruga”, completou
a Rainha.
“Nunca vi uma, nem mesmo ouvi falar”, disse Alice.
“Venha, então”, disse a Rainha, “e eu vou lhe contar
a história dela.”
Como todos caminhavam juntos, Alice ouviu o Rei dizer em voz baixa para
os condenados: “Vocês estão todos perdoados.”
“Bem, isso é uma boa coisa!”, Alice disse para si mesma,
pois estava se sentindo muito triste com as execuções que
a Rainha ordenara.
Logo eles chegaram junto a um Grifo, que jacarezava ao sol. (Se você
não sabe o que é um Grifo, olhe a figura)
“Levante-se, preguiçoso!”, disse a Rainha. “E leve
esta senhorita para ver a Falsa Tartaruga e ouvir sua história. Eu
preciso voltar para verificar algumas execuções que ordenei”,
e afastou-se, deixando Alice sozinha com o Grifo.
Alice não gostou muito do visual da criatura, mas ela pensou que
no fim das contas estaria mais a salvo ficando com ele do que seguindo com
a selvagem Rainha. Pelo menos era o que esperava.
O Grifo sentou-se e esfregou os olhos, olhando a Rainha até que ela
sumisse de vista. Então começou a rir por entre os dentes.
“Qual é a graça?”, perguntou Alice.
“Ela”, disse o Grifo. “Tudo é fantasia dela. Eles
nunca executam ninguém, sabe. Vamos!”
“Todo mundo diz ‘vamos’ por aqui”, pensou Alice, ao mesmo tempo
que começou a segui-lo lentamente. “Eu nunca fui tão
mandada em toda minha vida antes, nunca!”
Eles ainda não tinham ido muito longe, quando avistaram a Falsa Tartaruga
ao longe, sentada triste e solitária sobre a pequena saliência
de uma pedra e, ao chegarem mais perto, Alice pôde ouvi-la suspirar
como se seu coração estivesse partido. Alice sentiu uma grande
pena dela.
“Porque ela está triste?”, perguntou ao Grifo. E o Grifo
respondeu com quase as mesmas palavras que dissera em relação
à Rainha: “É tudo fantasia dela, ela não tem pelo
que entristecer, sabe. Vamos!”
Eles foram então na direção da Falsa Tartaruga, que
olhou para eles com seus grandes olhos cheios de lágrimas, mas não
disse nada.
“Esta jovem”, disse o Grifo, “quer saber sua história,
quer sim.”
“Eu vou lhe contar”, disse a Tartaruga, com uma voz profunda,
cavernosa. “Sentem-se os dois, e não digam nenhuma palavra até
eu terminar.”
Então eles sentaram-se e ninguém falou nada por alguns minutos.
Alice pensou consigo mesma. “Eu não sei como ela pode terminar
se nem mesmo começa.”
Mas esperou pacientemente.
“Uma vez”, disse a Falsa Tartaruga afinal, com um suspiro profundo.
“Eu era uma Tartaruga de verdade!”
Estas palavras foram seguidas de um grande silêncio, quebrado apenas
por uma ocasional exclamação “Hjckrrh!”, vindo do
Grifo e os constantes e fortes soluços da Falsa Tartaruga. Alice
já estava a ponto de levantar e dizer “Obrigada, Senhora, pela
sua interessante história”, mas ela não podia deixar
de pensar que deveria haver mais algo a ser dito e então ficou sentada
e não disse nada.
“Quando nós éramos pequenos”, a Falsa Tartaruga
continuou afinal, mais calmamente, embora ainda soluçando um pouquinho,
“íamos para a escola no mar. O professor era uma velha Tartaruga.
Nós costumávamos chamá-la Tartenruga****.
“E por que chamá-la de Tartenruga se ela era uma Tartaruga?”,
perguntou Alice.
“Nós a chamávamos assim porque tinha rugas”, a Falsa
Tartaruga respondeu com irritação. “Você é
mesmo muito tonta!”
“Você deveria envergonhar-se de fazer uma pergunta tão
boba”, completou o Grifo, e então os dois sentaram-se e ficaram
em silêncio olhando para a pobre Alice, que sentiu-se a ponto de enfiar
a cabeça no chão de vergonha. Finalmente o Grifo disse para
a Falsa Tartaruga:
“Vai em frente, velha amiga! Não vamos ficar aqui o dia inteiro!”.
Ela então prosseguiu:
“Sim, nós íamos para a escola no mar... mas parece que
você não acredita mesmo...”
“Eu não disse nada!”, interrompeu Alice.
“Disse sim!”, retrucou a Falsa Tartaruga.
“Segure sua língua”, completou o Grifo, antes que Alice
pudesse retrucar. A Falsa Tartaruga continuou:
“Nós tivemos a melhor educação...na verdade, nós
íamos à escola diariamente...”
“Eu também ia à escola todos os dias”, falou Alice,
“você não tem porque ficar orgulhosa disso.”
“Com aulas extras?”, perguntou a Falsa Tartaruga um pouco ansiosa.
“Sim”, respondeu Alice, “nós aprendíamos Francês
e música.”
“E lavagem?”, mais uma vez perguntou a Falsa Tartaruga.
“É claro que não”, disse Alice indignadamente.
“Ah! Então a sua escola não era realmente boa”,
acrescentou a Falsa Tartaruga em um tom de grande alívio. “Agora,
na nossa tinha, afinal, ‘Francês, música e lavagem’...extra.”
“Vocês não precisavam muito disso”, retomou Alice,
“vivendo no meio do mar.”
“Eu não tinha recursos para pagá-los”, insistiu
a Falsa Tartaruga com um suspiro. “Eu só freqüentava os
cursos regulares.”
“E quais eram?” indagou a menina.
“Enrolação e Contorção, é claro,
para começar”, a Falsa Tartaruga replicou, “e depois os
diferentes ramos da Aritmética: Ambição, Distração,
Enfeiação e Derrisão.”
“Eu nunca ouvi falar em ‘Enfeiação’”, Alice atreveu-se
a dizer. “O que é isso?”
O Grifo levantou as patas em sinal de surpresa. “Nunca ouviu falar
em ‘Enfeiação’!”, exclamou, “Você sabe o que
é embelezamento, acredito eu!”
“Sim”, respondeu Alice sem muita certeza, “significa...fazer...alguma
coisa...mais bonita...”
“Bem, então”, o Grifo continuou, “se você não
sabe o que é enfeiação, você é muito boba
mesmo.”
Alice não teve coragem de perguntar mais nada sobre o assunto. Virou-se
então para a Falsa Tartaruga e disse:
“O que mais você aprendeu?”
“Bem, havia Mistério”, e a Falsa Tartaruga começou
a enumerar as matérias nas patas. “Mistério antigo e
moderno, com Marografia: também Arrastamento...o professor de Arrastamento
era um velho congro, que vinha uma vez por semana. Ele nos ensinava Arrastamento,
Esticamento e ainda Desmaios em Bobinas.”
“E como é isso?”, disse Alice.
“Bem, eu não vou poder mostrar para você”, completou
a Falsa Tartaruga. “Ando meio fora de forma. E o Grifo não aprendeu
isso.”
“Não tive tempo”, disse o Grifo. “Eu estudei com o
mestre das Clássicas. Ele era um velho caranguejo, se era.”
“Nunca tive aulas com ele”, retomou a Falsa Tartaruga com um suspiro.
“Ele ensinava Risando e Desgosto, dizem.”
“É isso mesmo, isso mesmo” disse o Grifo, suspirando também.
Os dois esconderam as caras nas patas.
“E quantas horas vocês estudavam por dia?”, perguntou Alice,
apressando-se em mudar de assunto.
“Dez horas no primeiro dia”, respondeu a Falsa Tartaruga, “nove
no segundo e assim por diante.”
“Que coisa estranha!”, exclamou Alice.
“É por isso que chamávamos as aulas de lições
(lessons)”, o Grifo explicou, “porque elas diminuíam (lessen)
cada dia.”
Aquela era uma idéia nova para Alice, e ela parou para pensar um
pouco antes da sua próxima observação. “Então
o décimo-primeiro dia tinha que ser feriado?”
“Claro que era”, respondeu a Falsa Tartaruga.
“E como era no décimo-segundo?”, perguntou com vivacidade
Alice.
“Chega de lições”, o Grifo interrompeu em um tom
decidido. “Conte a ela sobre os jogos agora.”
A Falsa Tartaruga suspirou profundamente e enxugou os olhos com o dorso
de uma patinha. Ela olhou para Alice e tentou falar, mas, durante um ou
dois minutos, soluços impediram-na de dizer qualquer coisa.
“Parece que ela tem um osso na garganta”, disse o Grifo e pôs-se
a caminhar mexendo-se pra lá e pra cá, lançando-se
para trás. Afinal a Falsa Tartaruga recobrou a voz e, com lágrimas
escorrendo pelas faces, recomeçou:
“...Você talvez não tenha vivido muito no fundo do mar...”
(“Não mesmo”, disse Alice) “...e talvez não
tenha sido apresentada jamais a uma lagosta...” (Alice começou a dizer
“Uma vez eu experimentei...” mas conteve-se rapidamente e respondeu
“Não, nunca”) “... daí você não
deve ter idéia de que coisa deliciosa que a Dança da Lagosta
é!”
“Não, realmente”, disse Alice. “Que tipo de dança
é?”
“Bem”, disse o Grifo, “você primeiro forma uma fila
na praia...”
“Duas filas!”, gritou a Falsa Tartaruga. “Focas, tartarugas,
salmões, e todo o resto então, depois de tirar todas as água-vivas
do caminho...”
“O que normalmente leva um bom tempo”, interrompeu o Grifo.
“... você dá dois passos para frente...”
“Cada qual com sua lagosta fazendo par!”, gritou o Grifo.
“Exatamente”, disse a Falsa Tartaruga, “dá dois passos
para frente, vira-se para seu par...”
“...troca de lagosta e anda dois passos para trás...”,
continuou o Grifo.
“Então, sabe”, a Falsa Tartaruga continuou, “você
atira as...”
“As lagostas!” o Grifo exclamou, com um salto no ar.
“...o mais para longe no mar que você possa...”
“E nada atrás delas!”, gritou o Grifo.
“E dá um salto mortal no mar!”, gritou desta vez a Falsa
Tartaruga, dando cambalhotas para todos os lados.
“E troca de lagosta novamente”, berrou o Grifo o mais alto que
pôde.
“Daí volta para a terra de novo, e... assim completa-se a primeira
figura”, terminou a Falsa Tartaruga, repentinamente abaixando a voz;
e as duas criaturas, que estavam pulando como dois malucos antes, sentaram-se
muito tristes e quietinhas, olhando para Alice.
“Deve ser uma dança muito bonita”, disse Alice timidamente.
“Você gostaria de ver um pedacinho dela?”, perguntou a Falsa
Tartaruga.
“Claro, gostaria muito”, respondeu Alice.
“Venha, vamos tentar fazer a primeira figura!”, disse a Falsa
Tartaruga para o Grifo. “Nós não podemos fazer isso sem
as lagostas, você sabe muito bem. Quem iria cantar?”
“Oh, você canta”, disse o Grifo. “Eu esqueci as palavras.”
Então eles começaram a dançar solenemente ao redor
de Alice, às vezes pisando na ponta dos seus pés quando passavam
muito perto dela, e agitando as patas dianteiras para marcar o tempo da
música. A Falsa Tartaruga começou, então, a cantar
esta música, muito lenta e triste:
“Não dá pra ir mais rápido?” disse a enchova para o caracol
Tem um delfim atrás de mim, e ele está me empurrando.
Olha só as lagostas e as tartarugas, todo mundo tá andando!
O pessoal tá esperando lá na areia — quer vir e juntar-se à
nossa dança?
Você quer, ou não quer, você quer, ou não quer, você quer se
juntar à nossa dança?
Você quer, ou não quer, você quer, ou não quer, você quer se
juntar à nossa dança?
“Você não pode acreditar como vai ser bom,
Eles vão nos pegar e nos rodar e vão nos atirar com as lagostas
para o mar!”
Mas o caracol respondeu:
“Muito longe, muito longe!” E deu uma
olhadela de lado...
Agradeceu o gentil convite mas não, ele não queria se juntar à
nossa dança.
Não queria, ou não podia, não queria, ou não podia se juntar à
nossa dança!
Não queria, ou não podia, não queria, ou não podia se juntar à
nossa dança!
“E daí que seja longe?” disse a amiga enfastiada,
Tem outra praia, você sabe, outra praia do outro lado,
Quanto mais longe da Inglaterra, mais perto se está da França.
Não fique nervoso, querido caracol, e sim venha e se junte à
nossa dança.
Você quer, ou não quer, você quer, ou não quer, você quer se
juntar à nossa dança?
Você quer, ou não quer, você quer, ou não quer, você quer se
juntar à nossa dança?
“Muito obrigada, é uma dança muito interessante para se assistir”, disse Alice bastante aliviada por tudo ter acabado afinal, “e também achei muito curiosa esta canção sobre
a enchova!”
“Oh, a enchova”, retrucou a Falsa Tartaruga, “elas...você
já viu uma delas, não?”
“Sim”, respondeu Alice, “eu sempre as vejo no jan...”
e calou-se na hora.
“Eu não sei onde fica este Jan”, disse a Falsa Tartaruga,
“mas, se você as vê lá sempre, é claro que
você sabe como elas são.”
“Acho que sim”, Alice replicou pensativamente. “Elas têm
o rabo na boca...e são cobertas de farinha de rosca.”
“Você está errada sobre a farinha de rosca”, disse
a Falsa Tartaruga. “Iria se dissolver toda no fundo do mar. Mas elas
têm o rabo na boca, e a razão para isso é...”,
aqui a Falsa Tartaruga bocejou e esfregou os olhos. “Conte para ela
a razão e tudo o mais”, finalmente a Falsa Tartaruga disse para
o Grifo.
“A razão é”, disse o Grifo, “que elas queriam
de qualquer maneira ir dançar com as lagostas. Daí elas foram
atiradas ao mar. Daí a queda foi muito longa. Daí elas colocaram
os rabos nas bocas. Daí elas não conseguiram tirá-los
mais. Isso é tudo.”
“Obrigada”, disse Alice, “isso é muito interessante.
Eu nunca aprendi tanto sobre enchovas antes.”
“Eu posso contar mais, se você quiser”, disse o Grifo. “Você
sabe porque elas são chamadas de enchovas?”
“Eu nunca pensei nisso. Por quê?”
“Por causa das botas e sapatos”, o Grifo replicou solenemente.
Alice estava totalmente confusa. “Por causa das botas e sapatos?”,
ela repetiu em um tom interrogativo.
“Ora, como você dá lustre em seus sapatos?”, perguntou
o Grifo. “Eu quero dizer, o que os faz brilhar?”
Alice olhou para os sapatos e pensou um pouco antes de dar sua resposta.
“Acho que são lustrados com uma escova, eu acho. São
escovados.”
“Botas e sapatos no fundo do mar”, o Grifo continuou com uma voz
profunda, “são enchovados. Agora você sabe.”
“E do que são feitos os sapatos no mar?”, Alice perguntou
com grande curiosidade.
“Linguados e enguias, é claro”, o Grifo retrucou um pouco
impacientemente, “qualquer camarão poderia lhe dizer isso.”
“Se eu fosse a enchova”, disse Alice, cujos pensamentos ainda
estavam passeando pela canção que ouvira, “teria dito
ao delfim...Vá embora, por favor. Não queremos você
conosco...”
“Mas elas eram obrigadas a aceitá-lo”, a Falsa Tartaruga
disse. “Nenhum peixe sensato vai a lugar nenhum sem um delfim.”
“Não, de verdade?”, disse Alice em um tom surpreso.
“É claro que não”, disse a Falsa Tartaruga. “Por
exemplo, se um peixe vem a mim e diz que vai fazer um passeio, e digo logo
‘Com que delfim?’”
“Você não está querendo dizer ‘com que fim?’”
“Eu quero dizer o que disse”, a Falsa Tartaruga replicou em um
tom ofendido. E o Grifo completou, “Venha, agora queremos ouvir algumas
das suas aventuras.”
“Eu posso contar-lhes minhas aventuras...começando por esta
manhã”, disse Alice um pouco timidamente. “Mas não
adianta contar desde ontem, porque eu era uma pessoa diferente ontem.”
“Explique isso melhor”, disse a Falsa Tartaruga.
“Não, não! As aventuras primeiro”, disse o Grifo
em um tom impaciente. “Explicações tomam um tempo louco!”
Então Alice começou a contar suas aventuras desde a primeira
vez que viu o Coelho Branco. Ela estava um pouco nervosa porque logo que
começou a falar as duas criaturas sentaram-se bem perto da menina
e abriam os olhos e e boca de uma maneira tão enorme...mas ela ganhou
coragem e seguiu em frente.Os ouvintes estavam em perfeito silêncio
até que ela chegou na parte sobre ela recitar Você está
velho, Pai Joaquim para a Lagarta, e as palavras vindo todas diferentes,
e então a Falsa Tartaruga soltou um longo suspiro e disse: “Que
curioso!”
“Tão curioso quanto poderia ser”, disse o Grifo.
“Saiu tudo diferente”, a Falsa Tartaruga repetiu pensativamente.
“Eu gostaria de ouvi-la tentar repetir agora.” “Diga a ela
para começar”, e olhou para o Grifo como se pensasse que ele
tinha algum tipo de autoridade sobre Alice.
“Levante-se e recite Esta é a voz do malandro”, disse o Grifo.
“Como as criaturas gostam de mandar aqui, e fazer-nos recitar lições!”,
pensou Alice. “Parece que estou na escola, afinal”. Apesar de
reclamar, ela levantou-se e começou a recitar, mas sua mente estava
tão repleta da Dança da Lagosta, que mal sabia o que estava
dizendo; e as palavras saíram realmente muito estranhas:
Essa voz é da lagosta. Eu a ouvi declarar:
“Você me deixou muito bronzeada, preciso açucarar meus cabelos.”
Como um pato cuidando das sobrancelhas, ela cuida do nariz
Arruma o cinto e os botões, e revira seus sapatos.
Quando a maré está baixa, ela canta uma canção,
Vai falando com a voz forte de tubarão,
Mas, quando a maré enche e os tubarões aparecem,
Sua voz fica fininha e trêmula.
“É bem diferente do que eu costumava dizer quando era criança”,
disse o Grifo.
“Bem, eu nunca ouvi isso antes”, disse a Falsa Tartaruga, “mas
soa sem pé nem cabeça.”
Alice não disse nada, apenas sentou-se com o rosto entre as mãos,
pensando se alguma coisa aconteceria de maneira normal novamente.
“Eu gostaria que isso fosse explicado”, disse a Falsa Tartaruga.
“Ela não pode explicar nada”, o Grifo retrucou rispidamente.
“Siga para o segundo verso.”
“Mas e os botões?”, insistiu a Falsa Tartaruga. “Como
é que ela poderia tê-los arrumado com o nariz, você sabe?”
“Esta é a primeira posição na dança”,
Alice respondeu. Mas ela estava tão confusa com a coisa toda que
queria mudar logo de assunto.
“Siga para o segundo verso”, o Grifo repetiu. “Ele começa
com ‘Ao passar pelo jardim’”.
Alice não pensou em desobedecer, embora sentisse que tudo iria dar
errado, e começou com uma vozinha trêmula...
Eu passava pelo jardim e vi, com uma olhada de um só olho,
Que a Pantera e o Mocho estavam dividindo uma torta;
A Pantera comia a massa, o molho e a carne,
Já ao Mocho o prato é que sobrava no trato.
Quando a torta estava finda, ao Mocho, com muita educação,
Ofereceu a Pantera uma colher.
Já a Pantera ficou com o garfo e a faca,
E assim pôde completar o banquete...
“Qual é a graça de ficar repetindo esta besteira toda?”,
a Falsa Tartaruga interrompeu. “Se você não explica enquanto
vai dizendo? Esta é, de longe, a coisa mais confusa que eu já
ouvi na vida!”
“Sim, acho melhor você parar”, disse o Grifo e Alice estava
muito feliz por isso.
“Vamos tentar outra figura da Dança da Lagosta?”, continuou
o Grifo. “Ou você preferia que a Falsa Tartaruga cantasse outra
canção?”
“Ah, outra canção, por favor, se a Falsa Tartaruga não
se incomodar”, Alice replicou, tão em cima que o Grifo disse,
com uma cara de ofendido:
“Gosto não se discute! Cante a Sopa de Tartaruga, você
poderia, velha amiga?”
A Falsa Tartaruga suspirou profundamente, e começou com uma voz entrecortada
por soluços, a cantar isso:
Que bela sopa, tão rica e verde,
Esperando no caldeirão a ferver!
Quem consegue parar de comer?
Sopa do jantar, bela sopa!
Sopa do jantar, bela sopa!
Que be....la so....pa!
Que be....la so....pa!
Soooo...pa do jantar!
Bela, bela sopa!
Que bela sopa, quem liga para um peixe,
Carne ou outro prato?
Quem não daria tudo o que tivesse por essa bela sopa?
Sopa do jantar, bela sopa!
Sopa do jantar, bela sopa!
Que be....la so....pa!
Que be....la so....pa!
Soooo...pa do jantar!
Bela, bela sopa!
“O coro novamente!”, gritou o Grifo, e a Falsa Tartaruga estava
justamente começando a repeti-lo quando ouviu-se um grito à
distância: O julgamento está começando!.
“Vamos”, berrou o Grifo, pegando na mão de Alice e saiu
apressado, sem esperar pelo fim da canção.
“Que julgamento é esse?”, Alice ofegava enquanto corria.
Mas o Grifo apenas respondeu:
“Venha!” e correu mais rápido ainda, enquanto cada vez
mais longe, trazido pela brisa, ouvia-se o melancólico estribilho:
Soooo...pa do jantar!
Bela, bela sopa!
O Rei e a Rainha de Copas estavam sentados em seus tronos quando eles chegaram,
com uma multidão em volta...todo tipo de pequenos pássaros
e animais além de todas as cartas do baralho: o Valete estava parado
na frente deles, acorrentado, com um soldado em cada lado o guardando; e
perto do Rei estava o Coelho Branco, com uma trombeta em uma mão
e um pergaminho na outra. Bem no meio da corte havia uma mesa, com um grande
prato de tortas sobre ela: elas pareciam tão deliciosas que Alice
ficou com fome só de olhá-las e pensou “Tomara que o
julgamento termine logo e eles sirvam o lanche!”. Mas parecia que a
coisa não tinha chance e então, para passar o tempo, ela começou
a olhar para tudo em volta.
Alice nunca estivera numa corte de justiça antes, mas já tinha
lido sobre elas nos livros e estava satisfeita por perceber que sabia o
nome de quase tudo em volta. “Aquele é o juiz”, ela disse
para si mesma, “por causa da sua grande peruca.”
O juiz, aliás, era o Rei, que vestia a coroa sobre a peruca (vejam
o frontipício do livro, se vocês quiserem ver como ele fazia
isso). Ele não parecia muito confortável e com certeza não
estava muito charmoso também.
“E aquele é o lugar destinado aos jurados”, pensou Alice,
“e aquelas doze criaturas” (ela foi obrigada a pensar “criaturas”, sabe, porque algumas eram animais e outras eram pássaros), “suponho
que sejam os jurados”. Ela repetiu a última palavra duas ou
três vezes para si mesma, bastante orgulhosa disso: pois pensava,
com razão, que muito poucas meninas da sua idade sabiam o significado
dessa palavra. Entretanto se ela tivesse dito “membros do júri”
também estaria certa.
Os doze jurados estavam escrevendo muito ocupados em suas lousas.
“O que eles estão fazendo?”, Alice sussurrou para o Grifo.
“Eles não tem nada para escrever ali, antes de o julgamento
começar.”
“Eles estão colocando seus nomes”, o Grifo sussurrou em
resposta, “pois estão com medo de esquecê-los antes do
julgamento terminar.”
“Que estúpidos!”, Alice começou a falar de alto
e bom som, mas logo parou pois o Coelho Branco gritou “Silêncio
na corte!” e o Rei colocou seus óculos para olhar ansiosamente
em volta, procurando quem estava falando.
Alice podia ver, tão bem como se estivesse olhando por cima dos ombros,
que todos os jurados tinham escrito “Que estúpidos!” em
suas lousas e pôde ver também que um deles estava em dúvida
sobre a grafia correta de “estúpidos” e tinha pedido para
seu vizinho dizer para ele. “Uma bela bagunça vão estar
as lousas até o final do julgamento!”, Alice pensou consigo
mesma.
Um dos jurados tinha um giz que rangia. Isso, é claro, Alice não
agüentava, e então ela deu a volta na corte até chegar
atrás dele e na primeira oportunidade arrancou-lhe o giz. Alice fez
isso tão rápido que o pobre pequeno jurado (era Bill o Lagarto)
não pôde perceber o que tinha acontecido: então, depois
de procurar por toda parte ele foi obrigado a escrever com o dedo o resto
do dia. É claro que não adiantava nada, pois não deixava
marca nenhuma na lousa.
“Arauto, leia a acusação!”, ordenou o Rei.
Nesse momento, o Coelho Branco assoprou três vezes a trombeta e a
seguir desenrolou o pergaminho, lendo o que se segue:
“A Rainha de Copas fez algumas tortas,
Em um dia de verão:
O Valete de Copas roubou todas elas,
E levou embora sem hesitação.”
“Pensem no veredito”, disse o Rei para o júri.
“Ainda não, ainda não!”, o Coelho interrompeu com
pressa. “Há muito o que fazer antes disso!”
“Chame a primeira testemunha”, o Rei disse, e o Coelho Branco
assoprou três vezes sua trombeta, chamando a seguir:
“Primeira testemunha!”
A primeira testemunha era o Chapeleiro. Ele chegou com uma xícara
de chá em uma das mãos e um pedaço de pão com
manteiga na outra.
“Eu peço-lhe desculpas sua Majestade”, ele começou,
“por trazer estas coisas, mas eu ainda não tinha terminado meu
chá quando fui chamado.”
“Você deveria ter terminado”, disse o Rei. “Quando
você começou?”
O Chapeleiro olhou para a Lebre de Março, que o tinha seguido até
à corte de braços dados com o Leirão.
“Catorze de março, eu acho que era”, ele respondeu.
“Quinze”, disse a Lebre de Março.
“Dezesseis”, disse o Leirão.
“Escrevam isso” o Rei disse para o júri; e os jurados apressaram-se
em escrever as três datas em suas lousas, somando-as e chegando a
uma conta maluca que incluía valores em dinheiro.
“Tire seu chapéu”, o Rei ordenou ao Chapeleiro.
“Não é meu”, respondeu o Chapeleiro.
“Roubado!”, o Rei exclamou, virando-se para o júri, que
no mesmo instante anotaram o fato.
“Eu os tenho para vender”, o Chapeleiro continuou com sua explicação.
“Nenhum deles é meu. Eu sou um chapeleiro.”
Nesse instante a Rainha colocou seus óculos e começou a encarar
o Chapeleiro, que empalideceu e inquietou-se.
“Faça seu depoimento”, disse o Rei, “e não
fique nervoso, ou eu mandarei executá-lo imediatamente.”
Essa frase parece que não encorajou a testemunha, que começou
a ficar sobre apenas um pé, alternando, olhando inquietamente para
a Rainha. Na confusão acabou mordendo um pedaço da sua xícara
de chá ao invés de morder seu pão com manteiga.
Exatamente nessa hora Alice teve uma curiosa sensação, que
a perturbou bastante até que ela percebesse o que se estava passando:
Alice estava começando a crescer novamente. No início ela
achou que deveria levantar-se e deixar a corte, mas depois decidiu ficar
enquanto houvesse espaço para ela.
“Eu queria que você não me espremesse tanto”, disse
o Leirão, que estava sentado ao seu lado. “Eu quase não
consigo respirar.”
“Eu não posso ajudá-lo. Eu estou crescendo.”
“Você não tem o direito de crescer aqui”, disse o
Leirão.
“Não fale bobagens”, respondeu Alice destemidamente, “você
sabe que você está crescendo também.”
“Sim, mas eu estou crescendo em uma velocidade razoável”,
retrucou o Leirão, “e não desse jeito ridículo.”
A seguir ele levantou-se com irritação e atravessou a sala
até chegar do outro lado da corte.
Todo o tempo a Rainha não tirou os olhos do Chapeleiro e, no instante
que o Leirão atravessou a corte, ela ordenou a um dos oficiais da
corte: “Tragam-me a lista dos cantores no último concerto!”.
O coitado do Chapeleiro começou a tremer tanto que seus sapatos escorregaram
dos pés.
“Dê seu depoimento”, o Rei repetiu muito bravo, “ou
você será decapitado, esteja você nervoso ou não.”
“Eu sou um homem pobre, Majestade”, o Chapeleiro começou
com uma voz trêmula, “e eu nem bem tinha começado a tomar
meu chá... há mais ou menos uma semana... e como a fatia de
pão estava ficando tão fina...e a cintilação
do chá...”
“A cintilação do quê?”, perguntou o Rei.
“Ela começa com C”, o Chapeleiro retrucou.
“É lógico que cintilação começa
com C”, disse o Rei agudamente. “Você acha que eu sou burro?
Vá em frente!”
“Eu sou um homem pobre”, o Chapeleiro continuou, “e quase
tudo começou a cintilar depois que...e a Lebre de Março disse...”
“Eu não disse nada”, a Lebre de Março interrompeu
rapidamente.
“Disse”, replicou o Chapeleiro.
“Eu nego isso!”, disse a Lebre de Março.
“Ela nega”, disse o Rei. “Deixemos o tema de lado.”
“Bem, de qualquer maneira, o Leirão disse...”, e o Chapeleiro
continuou, olhando ansiosamente ao redor para ver se ele iria negar também;
mas o Leirão não negou nada, já que dormia a sono solto.
“Depois disso”, continuou o Chapeleiro, “eu cortei algumas
fatias de pão...”
“Mas o que o Leirão disse?”, um dos jurados perguntou.
“Isso eu não lembro”, disse o Chapeleiro.
“Você precisa lembrar”, observou o Rei, “ou você
será executado.”
O coitado do Chapeleiro derrubou sua xícara de chá e o pão
com manteiga e colocou-se de joelhos.
“Eu sou um homem pobre, Majestade”, ele começou.
“Você é um muito pobre orador”, disse o Rei.
Nesse instante um dos porcos-da-índia começou a aplaudir,
mas imediatamente foi abafado pelos oficiais da corte. (Como essa palavra
abafar pode ser difícil para alguns, eu vou explicar como eles fizeram
a coisa. Eles tinham um grande saco de lona, com a boca que fechava com
cordões: eles enfiaram lá dentro o porco-da-índia,
de cabeça para baixo e depois sentaram sobre ele).
“Eu estou muito feliz de ver como eles fazem isso”, pensou Alice. “Já
tinha lido tantas vezes no jornal, que no fim dos julgamentos...Houve uma
tentativa de aplauso, que foi imediatamente abafada pelos oficiais da corte...e
nunca tinha entendido direito o que isso significava.”
“Se isso é tudo o que você sabe a respeito do caso, pode
descer”, continuou o Rei.
“Eu não posso descer mais”, disse o Chapeleiro. “Eu
já estou no chão, como o senhor pode ver.”
“Então pode sentar-se”, replicou o Rei.
Outro porco-da-índia começou a aplaudir e também foi
abafado.
“Bem, com isso se acabam os porcos-da-índia”, pensou Alice.
“Vamos ver se agora melhora.”
“Eu preferia terminar meu chá.”, disse o Chapeleiro, olhando
ansiosamente para a Rainha, que estava lendo a lista dos cantores.
“Você pode ir embora”, disse o Rei. E o Chapeleiro deixou
a corte apressadamente, sem nem mesmo esperar para calçar seus sapatos.
“...e cortem-lhe a cabeça lá fora”, a Rainha complementou
para um dos oficiais; mas o chapeleiro já sumira de vista antes que
o oficial chegasse até à porta.
“Chamem a próxima testemunha!”, ordenou o Rei.
A próxima testemunha era a cozinheira da Duquesa. Ela trazia a pimenteira
na mão, e Alice adivinhou quem era antes mesmo dela entrar na corte,
pois as pessoas perto da porta começaram a todas a espirrar.
“Faça seu depoimento”, disse o Rei.
“Faço não”, disse a cozinheira.
O Rei olhou ansiosamente para o Coelho Branco, que disse, em voz baixa:
“Vossa Majestade deve o senhor mesmo submeter essa testemunha ao interrogatório.”
“Bem, se é necessário, eu faço”, o Rei respondeu
com ar melancólico, após cruzar os braços e franzir
as sombrancelhas até que seus olhos quase sumissem. Ele perguntou
então, com uma voz profunda:
“De que são feitas as tortas?”
“Principalmente de pimenta”, respondeu a cozinheira.
“Melado”, disse uma voz sonolenta atrás dela.
“Prendam esse Leirão!”, a Rainha gritou esganiçada! “Retirem esse Leirão da corte! Sufoquem esse Leirão! Abafem! Cortem-lhe os bigodes!”
Começou então a maior confusão, e até que eles
conseguissem expulsar o Leirão e todos se sentassem novamente, a
cozinheira sumira.
“Não importa!”, disse o Rei, com um ar de alívio.
“Chamem a próxima testemunha”. Ele completou, à
meia-voz para a Rainha, “Realmente, minha querida, você precisa
interrogar a próxima testemunha. Isso tudo está me dando a
maior dor de cabeça!”
Alice estava olhando para o Coelho Branco, que remexia na lista de testemunhas,
curiosa para saber quem seria a próxima, “pois até agora
ainda não consegui entender nada do caso”. Imaginem sua surpresa
quando o Coelho Branco leu bem alto, com sua vozinha esganiçada o
nome “Alice!”.
“Presente”, gritou Alice, esquecendo na excitação
do momento o quanto tinha crescido nos últimos minutos. Ela saltou
com tamanha pressa que acabou virando o banco do júri com a barra da
saia, deixando os jurados de cabeça para baixo, esperneando. Alice
lembrou-se muito do aquário de peixinhos dourados que tinha virado
acidentalmente na semana anterior.
“Oh, eu peço mil perdões!”, ela exclamou consternada,
e começou a levantá-los o mais rapidamente que podia, pois o
acidente com os peixinhos ainda estava em sua mente e ela estava com a sensação
de que se não os recolocasse nos seus lugares eles poderiam morrer.
“A audiência não poderá prosseguir”, disse o
Rei, com uma voz grave, “até que os jurados estejam de volta a
seus lugares... todos”, ele repetiu com grande ênfase, olhando
duramente para Alice ao falar.
Alice olhou para o banco dos jurados e percebeu que, em sua pressa, tinha
colocado o Lagarto de cabeça para baixo e a pobre coisinha estava lá,
agitando melancolicamente a cauda, incapaz de se mover. Ela apanhou-o novamente
e colocou o pobre de cabeça para cima. “Não que isso mude
alguma coisa”, disse para si mesma, “eu penso que de uma maneira
ou de outra ele tem a mesma utilidade.”
Tão logo o júri recuperou-se do choque e que suas lousas e lápis
foram encontrados e devolvidos, eles sentaram-se e começaram a trabalhar
diligentemente no relato do acidente. Todos, exceto o Lagarto, que parecia
muito chocado para fazer outra coisa que ficar com a boca aberta, olhando
para o teto da corte com os olhos esgazeados.
“Que você sabe a respeito do caso?”, o Rei perguntou a Alice.
“Nada”, respondeu Alice.
“Nada de nada?”, insistiu o Rei.
“Nada de nada”, disse Alice.
“Isso é muito importante”, disse o Rei, voltando-se para
o júri. Os jurados estavam começando a escrever em suas lousas
quando o Coelho interrompeu:
“Desimportante, é o que Vossa Majestade quer dizer, claro”,
ele disse, em um tom respeitoso, mas franzindo o cenho e fazendo caretas.
“Desimportante, é claro, foi o que eu quis dizer”, o Rei
retomou rapidamente, e continuou falando consigo mesmo a meia-voz “importante...
desimportante... desimportante... importante...” como se estivesse procurando
qual palavra soava melhor.
Alguns dos jurados escreveram “importante” e alguns “desimportante”.
Alice pôde ver porque estava perto o suficiente para ver as lousas.
“Mas isso não tem a menor importância”, ela pensou
consigo mesma.”
Nesse momento o Rei, que estivera ocupado por algum tempo escrevendo alguma
coisa em um caderno de anotações, gritou: “Silêncio!”
e leu o que estava escrito.
“Artigo Quarenta e dois. Todas as pessoas com mais de um quilômetro
e meio de altura devem abandonar o tribunal.”
Todo mundo olhou para Alice.
“Eu não tenho mais de um quilômetro e meio”, disse
Alice.
“Tem sim”, disse o Rei.
“Quase três quilômetros”, completou a Rainha.
“Bem, de qualquer jeito, não vou embora”, disse Alice. “Além
do mais, esse artigo não é legal, pois vocês acabaram
de inventá-lo.”
“É o artigo mais antigo do código”, retrucou o Rei.
“Então deveria ser o Número Um”, argumentou Alice.
O Rei empalideceu, fechando seu livro de notas rapidamente.
“Façam seu veredito”, o Rei ordenou ao júri, com uma
voz baixa e trêmula.
“Por favor, Vossa Majestade, ainda há evidências a serem
examinadas”, disse o Coelho Branco, levantando-se apressado. “Esse
papel acabou de ser descoberto.”
“O que há nele?”, perguntou a Rainha.
“Eu ainda não abri”, respondeu o Coelho Branco, “mas
parece ser uma carta, escrita pelo prisioneiro para...para alguém.”
“Para quem ela é endereçada?”, perguntou alguém
do júri.
“Não está endereçada a ninguém”, disse
o Coelho Branco. “Na verdade, não tem nada escrito do lado de
fora.” Ele foi abrindo o papel enquanto falava e completou: “Não
é uma carta, afinal, são apenas versos.”
“E é a letra do prisioneiro?”, perguntou outro jurado.
“Não, não é”, respondeu o Coelho Branco, “e
isso é o mais estranho.” (Os jurados pareciam confusos.)
“Talvez ele tenha imitado a letra de outra pessoa”, disse o Rei. (O júri ficou alegre novamente.)
“Por favor, Vossa Majestade”, pediu o Valete. “Eu não
escrevi isso e ninguém pode provar que fui eu: não há
nenhum nome assinado no final.”
“Se você não assinou”, disse o Rei, “apenas torna
a situação pior para você. Com certeza você estava
fazendo alguma coisa errada, senão teria assinado seu nome como um
homem honesto.”
Houve um aplauso geral: aquilo fora a primeira coisa inteligente que o Rei
tinha falado naquele dia.
“Isso prova sua culpa, logicamente”, continuou a Rainha, “portanto,
cortem-lhe a...”
“Isso não prova coisa alguma”, gritou Alice. “Vocês
nem ao menos sabem o que dizem os versos!”
“Leia-os”, ordenou o Rei.
O Coelho Branco colocou seus óculos. “Por onde devo começar,
se Vossa Majestade permite?”, ele perguntou.
“Comece pelo começo”, disse o Rei com muita gravidade, “e
siga até o fim: daí pare.”
Fez-se um silêncio mortal na corte enquanto o Coelho Branco lia estes
versos:
Eles falaram que você chegou perto dela
E de mim para ela falou
Ela achou que eu era um bom caráter
Mas não me deixou nadar ainda assim.
Ele deu sua palavra que não tinha sido eu
(E todos sabemos, isso é verdade)
Se ela quisesse mesmo saber
O que aconteceria com você?
Eu dei para ele um, eles lhe deram então dois,
Você para nós deu três ou mais
Eles todos devolveram os seus
Mas todos eram meus antes
Se houvesse chance de ela ou eu
Estarmos envolvidos nesse problema
Ele pediria a vocês para libertá-los
E fomos libertados.
Eu achava que era o que tinha sido
(Antes de ela dar seu estrilo)
Um obstáculo que apareceu
Entre ele, nós e aquilo.
Não o deixe ver que ela a eles tem amado
Para sempre deve ser
Um segredo, de todos mantido a parte
Entre você e eu.
“Esta é a prova mais importante que já ouvimos aqui”,
disse o Rei esfregando as mãos, “portanto, vamos agora aos jurados...”
“Se algum deles for capaz de entender os versos”, disse Alice (a menina tinha crescido tanto nos últimos minutos que não estava
com medo nenhum de interromper o Rei), “eu lhe darei seis pence. Eu acho
que não há um mínimo de sentido em nada.”
Todo o júri escreveu, em suas lousas. “Ela acha que não
há um mínimo de sentido em nada”. Mas nenhum deles se habilitou
a explicar os versos.
“Se não há sentido neles”, disse o Rei, “isso
livra o mundo de um incômodo, você sabe, não precisamos
procurar um. E eu não sei não”, ele continuou desdobrando
o papel sobre os joelhos, olhando para ele de rabo de olho, “eu até
diria que há algum sentido neles, afinal de contas ‘...Mas disse que
eu não sei nadar...’ Você não sabe nadar, sabe?”,
ele perguntou virando-se para o Valete.
O Valete balançou a cabeça tristemente. “Eu pareço
com alguém que sabe nadar?”, ele respondeu (Certamente que não,
pois ele era uma carta de baralho feita de papelão.)
“Tudo bem por enquanto”, disse o Rei, que continuou a falar sobre
os versos para si mesmo: “E isso, nós sabemos, é verdade...isso
é o júri, claro...Porém, se ela quisesse ir ao fim...isso
deve ser a Rainha...Que seria de ti, saber quem há de?...O quê,
afinal?...Deram duas a ele, a ela dei uma...ora, isso deve ser o que ele fez
com as tortas, certo?”
“Mas os versos continuam com Todas voltaram, não faltou nenhuma”,
disse Alice.
“Certo, lá estão elas!”, disse o Rei com ar de triunfo,
apontando para as tortas sobre a mesa. Nada poderia ser mais claro que isso.
Depois vem...Antes dela dar seu estrilo... você nunca deu estrilo algum,
não é, minha querida?“, ele disse para a Rainha.
“Nunca!”, respondeu a Rainha furiosamente, jogando um tinteiro em
cima do Lagarto enquanto falava. (O infeliz pequeno Bill tinha parado de
escrever na lousa com o dedo, pois percebera que de nada adiantava; mas depois
do ataque começou a escrever novamente usando a tinta que lhe escorria
pela cara, enquanto não secava.)
“Então suas palavras têm estilo”, disse o Rei olhando
para o tribunal com um sorriso. Havia um silêncio de morte.
“É um trocadilho!”, o Rei completou com raiva, e então
todo mindo começou a rir. “Deixemos o júri considerar seu
veredito”, disse o Rei, mais ou menos pela vigésima vez no dia.
“Não, não!”, disse a Rainha. “A sentença
primeiro...depois o veredito.”
“Que disparate!”, disse Alice em voz alta. “Que idéia
imbecil esta da sentença antes!”
“Dobre sua língua”, gritou a Rainha, vermelha de raiva.
“Não dobro não!”, respondeu Alice.
“Cortem-lhe a cabeça!”, a Rainha berrou o mais alto que pôde.
Ninguém se mexeu.
“Quem se importa com você?”, disse Alice (que acabara de
voltar ao seu tamanho normal). Vocês não passam de um baralho
de cartas!”
Nesse instante todo o baralho voou no ar, começando depois a cair sobre
Alice; ela deu um gritinho, meio com medo, meio com raiva, tentando rebatê-las.
A menina achou-se então deitada no barranco com a cabeça no
colo da irmã, que gentilmente afastava algumas folhas secas que tinham
caído da árvore sobre elas.
“Acorde, Alice querida!!”, disse a irmã. “Nossa, que
sono pesado você teve!”
“Puxa, que sonho estranho que eu tive!”, disse Alice. Então
ela contou para a irmã, tão bem quanto pôde lembrar, as
estranhas Aventuras que vocês acabaram de ler. Então, depois
que terminou, sua irmã deu-lhe um beijo e disse “Foi um sonho
curioso, querida, certamente; mas agora apresse-se, é hora do chá:
está ficando tarde.”
Alice levantou-se e saiu correndo, pensando enquanto corria que aquele tinha
mesmo sido um sonho maravilhoso.
Mas sua irmã ficou lá mesmo, com a cabeça entre as mãos,
pensando na pequena Alice e em suas maravilhosas Aventuras, até que
ela mesma começou a sonhar e este foi seu sonho...
Primeiro, ela sonhou com a pequena Alice: mais uma vez sua mãozinhas
estavam pousadas nos joelhos e seus olhos brilhantes olhavam para ela...ela
podia até mesmo ouvir os diferentes tons da sua vozinha e ver aquele
jeito só dela de atirar a cabeça para trás e afastar
as mechas de cabelo que sempre teimavam em lhe cair sobre os olhos...e enquanto
escutava, ou parecia que escutava, todo o espaço en volta dela ia ficando
repleto daquelas estranhas criaturinhas do sonho da irmãzinha.
A grama farfalhava sob os pés do apressado Coelho Branco...o Rato assustado
espalhava água para fora da lagoa...ela podia ouvir o tilintar das
xícaras de chá enquanto a Lebre de Março e seus amigos
partilhavam da sua refeição que nunca acabava, e a vozinha aguda
da Rainha ordenando a execução dos seus infelizes convidados...mais
uma vez o bebê-porco estava espirrando no colo da Duquesa, enquanto
pratos e travessas se espatifavam em volta...e mais uma vez o guincho do Grifo,
o ranger do giz do Lagarto e os tais aplausos sufocados dos porcos-da-índia
enchiam o ar, misturados com os soluços distantes da miserável
Falsa Tartaruga.
Sentada, com os olhos fechados, quase acreditou estar ela mesma no País
das Maravilhas, mesmo sabendo que quando abrisse os olhos novamente tudo voltaria
a ser a chata realidade de sempre...a grama se mexeria apenas com o vento
e a lagoa estaria se movimentando apenas com os juncos...o tilintar da xícaras
novamente seria o badalar dos sinos pendurados nos pescoços dos carneiros...os
gritos agudos da Rainha seriam apenas os berros do pastor...o espirro do bebê,
o guincho do grifo, e todas as outras coisas esquisitas iriam transformar-se
(ela sabia) no confuso clamor da vida no campo...assim como o mugir do gado
à distância iria tomar lugar dos pesados soluços da Falsa
Tartaruga.
Finalmente, ela imaginou como sua irmãzinha, no futuro, transformar-se-ia
em uma mulher adulta: e como ela iria manter, através da sua maturidade
o mesmo coração simples e afetuoso da sua infância: como
também ela sempre estaria cercada de criancinhas e faria os olhos delas
brilharem com muitas histórias estranhas, talvez até mesmo com
o sonho do País das Maravilhas de há muito tempo atrás;
como ela adoraria compartilhar com suas tristezas simples e alegrar-se com
suas brincadeiras ingênuas, lembrando-se da sua própria infância
e daqueles felizes dias de verão.
FIM
Notas
[*] — A forma gráfica do texto, no original, imita a cauda (tail) de um rato. Tentamos reproduzir o efeito gráfico, não com muito sucesso, uma vez que as palavras em português são mais longas que as em inglês. [Nota eBooksBrasil]
[**] — baseado na tradução de Uchoa Leite (Nota da Tradutora)
[***] — “Arrum” — yer honour — Uchoa Leite traduziu por vossincelência (Nota da Tradutora)
[****] — Tortoise é um tipo de tartaruga que vive na terra ou na água doce, enquanto turtle é aquela do mar (Nota da Tradutora)
©2002 — Lewis Carroll
Esta tradução é parte integrante do CD-ROM Alice no país das maravilhas — Coleção Clássicos da Literatura em Libras/Português da Editora Arara Azul (www.editora-arara-azul.com.br).
Não pode ser distribuída livremente.
Para mais informações entre em contato através do e-mail editorararazul@uol.com.br
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