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ABOBRINHAS
CONTEMPORÂNEAS


Mauro Gonçalves Rueda


Abobrinhas Contemporâneas
(Volume II)
Mauro Gonçalves Rueda

Versão para eBook
eBooksBrasil.com

Fonte Digital
Documento do Autor
maurorueda5@hotmail.com
maurorueda@uchoanet.com

©2003 — Mauro Gonçalves Rueda


Índice

        PREFÁCIO
  1 – BICHO DO MATO
  2 – MELANCOLIA
  3 – FORA DE FOCO
  4 – DE FORMA QUE AMANHECEU
  5 – EU TAMBÉM JÁ FUI CRIANÇA
  6 – ENCARANDO O DESTINO
  7 – OU VAI... OU SEI LÁ!
  8 – DAS REMINISCÊNCIAS ENCAFUADAS
  9 – DESTÁ QUE NA PRÓXIMA A GENTE SE VÊ!
10 – TEM DIA QUE DE NOITE É ASSIM MESMO
11 – E AQUI VAMOS NÓS, BABY!
12 – DA VELHA SINA O ESTRANHO CANSAÇO
13 – FORA CARA-PÁLIDA!
14 – A TRISTEZA DO CONTENTE
15 – SEM PONTO FINAL
16 – ESTRELA DE GUIAR
17 – DA NATUREZA DA MEDITAÇÃO
18 – CREPÚSCULO
19 – AMANHÃ VAI SER OUTRO DIA
20 – A VIDA PARA SER VIVIDA COMO DEVERIA
21 – HAVIA UM TEMPO EM QUE...
22 – QUANDO A HISTÓRIA PARECE QUE SE REPETE
23 – UMA SINGELA DECLARAÇÃO DE AMOR
24 – MOÇO: O TREM JÁ PASSOU!
25 – O QUE FAZER QUANDO NADA MAIS NOS RESTA?
26 – COM O MUNDO NAS MÃOS!
27 – SER PRISIONEIRO NÃO É FÁCIL
28 – A SÍNDROME DO PÂNICO É FRESCURA!
29 – POR UMA FRESTA UM OLHO MIRA
30 – DE REPENTE A MADRUGADA MUDOU
31 – O CALCANHAR DE AQUILES
32 – DEUS LHE PAGUE!
33 – E EIS QUE OS IRACUNDOS BUFAM!
34 – ASSIM, ASSIM SEM QUE A GENTE PERCEBA!
35 – DA LUZ E DAS TREVAS
36 – FOME: CODINOME HUMILHAÇÃO
37 – COISAS DA TERRINHA NO MALDIZENTE ESCREVINHAR
38 – FORNECIMENTO DE ÁGUA: É PRECISO VALORIZAR!
39 – O ÚLTIMO DOS DINOSSAUROS NO VALE DA TECNOLOGIA
40 – QUANDO A RESPONSABILIDADE BATE EM NOSSAS PORTAS...
41 – UMA PEDRA NO SAPATO QUE COMEÇA A NOS INCOMODAR
42 – UM REAL QUE MAIS PARECE UM CRUZADO NO ESTÔMAGO DA NAÇÃO
43 – AGRADECIMENTO POR TORNAREM A VIDA MAIS BELA
44 – POEMETO DE APRENDIZ: DE UM CRÔNISTA CANSADO DAS PALAVRAS
45 – EM VIRTUDE DA FALTA DE EXCRÚPULOS E COISA E LOISA: OLHA O APAGÃO AÍ GENTE!
46 – ANDANTE
47 – E EU QUE SEMPRE TORÇO PELOS MAIS FRACOS
48 – PODER E TERRORISMO:TODOS OS DIAS SÃO DIAS PARES E ÍMPARES
49 – Ô TOLERÂNCIA ZERO QUE AINDA ACABA ME MATANDO SÔ!
50 – SERÁ MINHA DUVIDOSA IMAGINAÇÃO?
51 – O TELEFONE: TÃO IRRITANTE QUANTO O HOMEM
52 – PAGANDO UM MICO E ENGOLINDO BREJOS DE SAPOS CURURUS
53 – PORQUE É NECESSÁRIO CONHECER ANTES DAS CONCLUSÕES
54 – A PSICOLOGIA DO FARRAPO MENTAL
55 – O QUE DEVE SER MAIS PEÇONHENTO COBRAS OU ALGUNS HUMANOS?
56 – DIVAGAÇÕES
57 – MOTE CONTÍNUO
58 – UM PAÍS DE LEITORES ANALFABETOS
59 – POPULUS MY FRIEND
60 – MAIS UMA DAQUELAS
61 – APONTAMENTOS PARA E DO COLUNISTA-POETA EGBERTO LIMA
62 – A SOMBRA EMOLDURADA
63 – DE REPENTE A NOSSA FÊNIX ABRE AS ASAS SOBRE NÓS OS PEQUENINOS
64 – NEM QUE SIM E NEM QUE NÃO, NÉ?
65 – E ESSA INVEJA TRANSFORMADA EM OBSESSÃO E ÓDIO!
66 – TELEFÔNICA EMBRATEL ANATEL SARAPATEL E BORDEL
67 – MEDITAÇÃO EM FUNÇÃO DE UMA CERTA LINHA DELIMITADORA
68 – SONHO & REALIDADE
69 – ESSA MULHER QUE TÃO POUCO SE MOSTRA
70 – AS MARIONETES IRACUNDAS E ANALFABETAS
71 – MORRER PARA RENASCER: O QUE AGONIZA NÃO IMPLICA EM SILÊNCIO
72 – BOM DIA!
73 – PARTO PORQUE ESTOU MORRENDO AOS POUCOS
74 – SEM PÉ NEM CABEÇA
75 – MULHER INGRATA/INGRATA MULHER
76 – O QUE NOS BASTA É O QUE DESATENTOS NÃO PERCEBEMOS TER
77 – NEM SEMPRE TÃO RELAPSO QUANTO POSSA PARECER À PRIMEIRA VISTA
78 – E NADA COMO UM DIA APÓS OUTRO SE NOS FALTA INSPIRAÇÃO
79 – ALGUMAS CANÇÕES PRECOCEMENTE SUICIDADAS
80 – POS/FÁCIL NADA FÁCIL


ABOBRINHAS
CONTEMPORÂNEAS

(CRÔNICAS-VOLUME II)

MAURO GONÇALVES RUEDA

SÃO JOSÉ DO RIO PRETO-2003


 

“Sou triste, quase um bicho triste
E brilhas mesmo assim....
E o meu caminho e o teu caminho
É um nem vais, nem vou
(Caetano Veloso, In “Mãe” — Gal Costa, LP “Água Viva”.

 


 

Para:
Maricy & Joyce.
Minha Família & Barretos Alberto Candolo Neto.
Edson Baffi.

Ainda:
Roberto Ferreira (irmão e fã das crônicas),
e aqueles aos quais consegui,
de uma forma ou de outra,
incomodar por escrever o que me foi impossível evitar.

Para algumas mentes medíocres que jamais conseguiram entender uma linha sequer do que escrevi.

Para os eternos penduricalhos de gabinete e todo o PT de Uchoa (Nova Geração), que se esqueceu quem formou o partido e o carregou nos ombros ao longo dos anos.

Para o casal, Dr. Miguel e D. Lila Chadad, porque, simplesmente são gente e como diz Caetano “Brilham”.

Ainda:
nosso imortalizado Paulo Coelho em quem tiro “um barato”, mas admiro por suas obras sociais — amor ao próximo —, e pelas músicas e letras com seu ex-parceiro, Rauzito — aquele do “Disco Voador — In SOS — do LP Gita”.

Para Nélson Jahr Garcia (Em Memória), que nos legou com seus escritos, disponibilizados na eBooksbrasil.com e em sua própria Biblioteca, muito mais do que sonhava ou supunha que viesse a fazer.

Enfim, todos os que por sonharem com a liberdade dos povos, acabaram prisioneiros ou foram desumanamente “suicidados” pelo Sistema.


 

PREFÁCIO

 

          Este primeiro livro de Crônicas (que é o segundo), reúne textos publicados nos Jornais “O UCHOENSE”, “A TRIBUNA REGIONAL”, alguns publicados na “TRIBUNA ON-LINE”, e outros ainda, inéditos. As crônicas foram publicadas na coluna “Crônica do Cotidiano”, que achei conveniente, por motivos óbvios, mudar para “Abóbrinhas Contemporâneas”.
          Apesar do nome soar menos comum, não deixa, em seu conteúdo, de ser o que tinha — às vezes repetitivo, com pitadas de sentimentalismo piegas e outras um tanto ácidas, irônicas, melancólicas, revoltas e sonhadoras. Como se alguém olhasse o mundo à sua volta e — fazendo aqui uma analogia —, transformando a realidade crua e chocante em, não menos chocantes aparatos interiores na lida com a vida.
          Maior cota de aborrecimentos e confrontos adquiridos gratuitamente junto aos políticos boçais, são — seguramente —, em virtude destas crônicas. Mesmo dando uma pincelada, maquiada, “alguns vestiam a carapuça” e lá estava eu tentando explicar que não tinha nada à ver com eles. Mas se desejavam, então tinha. Mesmo porque, vestem as carapuças e se lhes assentam bem em suas incontáveis facetas, problema deles e não do escrevinhador.
          As inéditas, ou por não achá-las boas ou por descaso, não foram publicadas e resolvi acrescentar neste livro. Algumas, em seu conteúdo, muito mais particular e, portanto, sem grandes interesses para os leitores dos jornais. De qualquer forma, além da página “Social & fofocas”, era (eu nunca disse, me afirmavam), a coluna mais lida. Motivo para orgulho? Nem tanto — eu soltava meus demônios e eles se identificavam. Provavelmente porque todos temos problemas parecidos e plêiade de demônios em nossas vidas abarrotadas pelos percalços, intempéries e atribulações.
          Gosto daquelas com um certo cunho nostálgico e de melancolia — às vezes extremada melancolia. Mesmo porque, costumava escrevê-las nas madrugadas ou ao esparramar-se do crepúsculo. Algumas singelas e eu diria, amenas. Outras iradas e destilando veneno. Algumas irônicas e dúbias. E muita, muita divagação, metáforas, cortes, recortes, spleen, contrastes, recortes, pastiches, lugar-comum, clichês, jargões e enfim, nada que não tenha sido escrito de outra forma e com outras palavras.
          No entanto, vale a pena conferir. Mesmo que algumas sejam o rezingar de uma alma enfarada, muitas são vivazes, enérgicas, provocativas e até mesmo poéticas neste fazer poético que é o próprio viver e conviver. Relapso e divagando como sempre, em muitas, perdia a noção e a linha do raciocínio — tênue, muito tênue e diáfana a linha: do raciocínio e da própria existência —, e deixando romper o fio que nos mantêm cativos a esta existência, criei asas e danei a perscrutar por outros prados —, muito mais para lá de onde “enterraram meu coração na curva do rio”.
          Muito choramingas para com as balbúrdias dentro do peito frente as injustiças, os disparates, a futilidade, o vazio das pessoas mecanizadas, no labor desta vida sem sentido, consentindo, coniventes, abaixando a cabeça, se deixando levar feito gado manso para o abate e portanto, não havia como impedir o ranço da revolta. Muita maldade, desonestidade, corrupção, descaso, exclusão, miséria e mazelas da mente e da alma. Tudo isso, abre feridas e cria crostas que, não há tempo que sane, amenize, atenue. Por isso, as crônicas trazem no bojo, muito desta forma de catarse, de regurgitar o que não se engole quando se tem consciência dos disparates e das perversões, maledicências, inveja, vilipêndio, acinte, avilte e os biltres nos mandos e desmandos sem preceito e pura maldade e perseguições ao próximo.
          Minhas crônicas não são fáceis de serem digeridas. São parágrafos longos. Verborragia, confusão mental, divagações, um certo mofo ancestral, uma incômoda poeira de inconformidade, elefantíase no tornar-me falacioso e até mesmo redundante e indigesto. Tudo isso, sem contar a impulsividade que nos ceifa um pouco da razão, obscurecendo a obra e o autor.
          “Me mudar pra agradar senhor ninguém é que eu não vou/eu sou assim/assim sou feito/assim serei até o fim/quem não gostar que dê seu jeito”/ (Raimundo Sodré e Marcelo Machado, In “A Massa”). Pois é, o PRIMEIRO VOLUME, encontra-se todo ele, nos arquivos de jornais e se, as traças e o tempo me permitirem, hei de digitá-los para que o DOIS não acabe na orfandade. No mais, tentem ao menos. Se em último caso, não conseguirem ler, não importa, continuem correndo, correndo, correndo, até que um dia, já no fim da estrada, quando quedarem-se exaustos, exauridos, sentando-se à sombra de alguma árvore, aspirando os ares campestres, procurem na maleta ou no alforje, e ele estará lá — “Ah, o livro de crônicas daquele sujeitinho metido a escrever”... E, como quem não tem mais nada à conquistar ou porque continuar correndo sem saber ao certo porque, talvez dê para ler. Ou tentar. Tudo vale a pena. Eu acredito. Leio até bula de remédio. Isto não é apelação, é um convite. Boa leitura para quem tiver vontade e paciência.
          Bem, acho que é isso. Eu, o prosaico e redundante me despeço e espero que o conteúdo do livro, seja um pouco mais que mero passatempo. Nem que seja.......

O Autor
São José do Rio Preto/Uchoa, 12 de Fevereiro de 2003.


 

“Velhas Canções”
Mas o que eu quero dizer, baby
É o que as frases já não dizem mais
Você pergunta pra quê tantos sonhos
Se o novo já se perdeu lá atrás?
Eu picho o muro riscado do sangue
Das gerações que não voltam jamais
A paz que Lennon tingia e Elis cantou, quem nos traz?
Mas o que eu vou refazer, Baby
Velhas canções que restaram no ar
Sem estilhaços, bandeiras ou medo
Quem é que vai nos impedir de amar?

(Benê Ferreira e Mauro Rueda, do CD — Realejo ao Vivo,
gravado no Teatro Municipal de São José do Rio Preto, 2001)

 


 

__//__

Um dia Raimundo, se chegou ao mundo
se esqueceu do cansaço
entre barracos e vidas, entre homens e dores, de uma grande cidade
e bebeu pelos bares, lhe botaram em cana
e era grande o mundo, pro pequeno Raimundo-rei
Hoje Raimundo é notícia, lembrança que já se passou
sete palmos, Raimundo, no meio do mundo ficou
e já não sofre mais, toda a vida continua
e o mundo se povoa, outros Raimundos virão
toda a vida continua e ninguém vai te notar
tantos Raimundos serão: Raimundo rei, Raimundo Rei
”.
(Raimundo Rei — Lori Ferreira e Mauro Rueda — da peça teatral “Marginália”, escrita por Mauro Rueda e musicada por Lori Ferreira e Benê Ferreira. Gravada no LP “Sonho de Adulto”, 1.981 — Grupo Realejo.

_//_

Um cantador cego não sente
que a vida passa, laça, embaça o que sonhou
Um cantador, mudo consente, no seu silêncio a razão que ficou dor
E dói nos olhos, cegos do medo
que seu repente, roto, rente, rasga o chão
Liberta o dia, as duas faces, do cantador cortando o canto feito o pão
E vai o canto, nessa agonia
De passo em passo, feito laço, feito dor
Brota do peito, um eco torto
Do grito solto, roto e morto na canção
Refrão: Vai, vai na vida
Vai se acabar/Que tua sina
É não chegar

(Sina de Cantador — Música de Lori Ferreira e Benê Ferreira/Letra de Mauro Rueda — Vários Festivais e shows — 1.981).
_//_


 

BICHO DO MATO

(1)

 

A fome, a doença, o esporte,a ginkana
A praia compensa o trabalho, a semana
O chope, o cinema, o amor que atenua
O tiro no peito e o sangue na rua
A fome a doença, nem sei mais por quê
Que noite, que lua, meu bem, pra quê?
O patrão sustenta, o café o almoço
O jornal comenta, um rapaz tão moço
O calor aumenta, a família cresce
O cientista inventa uma flor que parece
A razão mais segura pra ninguém saber
De outra flor que tortura, pois é pra quê
?”
(Sidney Miller, excerto — “Pois é pra quê?”, In A Arte de MPB-4 e Quarteto em CY)

 

          De repente, me dei conta que havia dormido apenas três horas. Pouco para quem passara a noite em claros, tentando enfiar alguma coisa na cabeça dura de eterno aprendiz. Os resquícios da noite passada, ainda se acercavam de meu corpo fatigado e via-me rodeado por verdadeiras muralhas de livros, os mais diversos. Código Civil; Comentários À Lei de Imprensa; Estatuto dos Servidores Públicos Municipais; Estatuto da Associação de Bairros “não-sei-de-onde” ; Novíssima Gramática; meia dúzia de livros de crônicas; uma dúzia de revistas sobre Cultura Artística; três grossos volumes versando sobre Informática; Regimento Interno da Câmara Municipal de...; Lei Orgânica do Município de...; Comissão Municipal de Empregos; Estatuto dos Servidores Públicos; Piaget, mais quatro ou cinco livros sobre Construtivismo; uma batelada de livros de Gramática do Ensino Básico; a Cartilha Caminho Suave; um livro de poesia de Florbela Espanca; Romanceiro Gitano de Lorca; Drummond; Fernando Pessoa; dicionários de Inglês, Italiano, Francês e gramática espanhola; livro da Campanha da CNBB sobre o Desemprego; alguns livros infantis; uma parafernália de manuscritos programados para três livros de contos que eu arquitetava; os Pré-Socráticos; algumas revistas da CD-Rom sobre Informática; Manuel Bandeira; três caixas de disquetes com uma relação e planilha de livros por serem terminados ou mal-iniciados e, humildezinha, uma revista em quadrinhos: a primeira edição do “O Zé Carioca”, o número 1 — inserido no “Pato Donald”. Sem contar o calhamaço de papéis: contas a pagar, entre outros.
          De forma que desperto. Domingo de sol, um vento irritante, parceiro da poeira, do fungo e inimigo da asma. Deixo de lado o amontoado de livros e estatutos, corro para a TV, ligo o vídeo e aciono uma fita com a música “A Saudade, a Viola e Eu”, de Orlando Moraes e Doc Salú. Aí, a companheira me traz um café passado na hora. Fumo, mesmo com os pulmões congestionados e os olhos marejando. Saudade de Barretos. Do menino do mato. Dos pés no chão. Das estradas boiadeiras. Do ranger dolente e moroso dos carros-de-bois. Saudade das noites que não voltarão jamais. Saudade não-sei-do-que. Saudade do que eu era. Saudade pura, ingênua, aparentemente sem motivo algum. Coração meio magoado por haver adquirido um pouco de cultura. Da cultura contemporânea, emergente, metropolitana, infindável.... Que, da mesma forma que é captada, nos foge e torna-se lapso da memória.
          Não é feito o que ficou cravado, fincado dentro da alma passarinho. Feito raiz aprofundada no solo do coração e das memórias acocoradas nalgum canto do terreiro do casario da fazenda onde o menino divagava a sonhar em ser um jornalista, um escritor ou coisa assim. Não, é tudo supérfluo e artificial. Feito as Leis, os incisos, os parágrafos dos Códigos e Estatutos. Mutáveis e abertos à margens tendenciosas e suspeitas. Emendas forjadas, inconsistentes feito certa cultura adquirida via Internet que, de um dia para outro, cai por terra. Coisa sem sentido, sem tino, sem palavra duradoura....
          Nada se compara ao som da viola que acompanha o poema cantado e vai enriquecendo a harmonia da música que ouço e me remete à tempos idos. Fumo desregradamente, mesmo com as campanhas contra e os males que o vício causa à todos nós, fumantes moderados ou não... Observo o computador, os livros, os CDs, o violão esquecido no canto do quarto de trabalho. A companheira, amiga e confidente a perguntar-me se estou bem; se “algum problema”. Somente um cisco nos olhos. Um: nos dois e ao mesmo tempo. Contradição não, fora mesmo!. Minha filha que, ansiosamente espera a tia para irem à chácara, observa-me curiosa, embora saiba do velho menino de coração “manteiga derretida” que, ouso persistente, não deixar morrer na obscura e umbrosa lida Todos vão para a chácara espiar o pomar, a terra, o mato; ouvindo o cântico da passarinhada...
          — Vamos?..
          Não. Eu não posso. Preciso ler, escrever, estudar, aprender, praticar, calcular, somar, subtrair, pensar, repensar, me informar, me reestruturar, reencontrar o que perdido, rebuscar-me, escarafunchar-me e... Perdido. Estou completamente perdido!. Não sei quando e onde fui me perder. Por aí, talvez?. Quem sabe? Eu não sei...
          Foram. Partiram. Sento-me frente ao computador, acendo outro cigarro e sinto uma vontade imensurável de me encolher, apequenar-me... Voltar a ser criança, afogada pelas águas/mágoas deste pranto inevitável que, na solitude silente desta manhã de domingo, começa a brotar feito cachoeira. E eu sequer me pergunto para quê, afinal?


 

MELANCOLIA

(2 — Publicada)

 

          Quando a noite descerra seu manto sarapintado de estrelas e o crepúsculo abandona a paisagem deixando este resto de melancolia, somente então, a gente sente o travor do abandono.
          Talvez seja a idade. A cidade, quem sabe?. No bairro em que moro, as ruas restam vazias. O silêncio abarca até mesmo os recônditos da alma. As ruas inermes, feito os mortos em sua derradeira e sepulcral quietude. O olhar escarafuncha, palmilha, abalroa a paisagem. É feito um quadro inacabado. Parece-nos faltar alguma coisa, mesmo que não saibamos o que. Uma pincelada que, jamais, a mão do artista esboçou.
          Nesse bosquejo mal delineado, indefinido, é que se nos toma de assalto, a velha solidão. Um sentimento de vazio ao invés de paz. Desconforto pela serenidade. Como se faltasse um pedaço de nós mesmos.
          A cidade mudou. Mais pobre, maltratada. Problemas da política dos últimos anos. Mas as pessoas também. Como se houvessem perdido os sonhos e as esperanças, deixaram de acreditar em quase tudo. Inclusive na vida e em si próprias. Isto é, no mínimo, uma afronta contra os princípios da Criação.
          O tempo sábio, com mestria e precisão, incumbe-se das nuanças. Não é ele, tempo, quem envelhece as pessoas e tudo à nossa volta?. Não, não foi ele quem roubou meus sonhos; tirou o alento daquele pai de família que já não sabe o que fazer para pagar o mercadinho. Nem foi ele quem surripiou o sorriso inocente dos lábios da criança ou endureceu o já ressequido e empedernido por natureza, coração do político. Nem fez murchar a flor ou, já sem saúde, falecer o ancião. Ou foi?
          Há um tempo para tudo, sim. Convenhamos. Mas daí, a atirar a culpa de nossas inquietações sobre os costados de alguém ou, do próprio tempo... E é justamente nessas horas em que, solitários, meio espezinhados e com tão restritos sonhos e esperanças, nos deixamos aprisionar pelas malhas da velha melancolia crepuscular. Ou, de uma côdea do que nos resta do que algum dia fomos ou sonhamos. Mas, é assim mesmo. Às vezes nos preparamos para muito e, ao menor sinal de tão pouco, nos sentimos feito uns pobres diabos abandonados pelo Criador.
          Em meio à sentimentos conflitantes e impregnado pela tristeza natural, descubro que, o quadro descrito, embora não seja dos mais saudáveis e enlevados, pode servir como tema para versos ou, digamos, uma crônica. É isso, uma crônica catarse. Com os defeitos e desarranjos da alma e o seu jeito de sentir. Mesmo sem nenhum alento ou vivacidade. Em ritmo moroso e tingida em cores quase sombrias, refaço a paisagem. Ou melhor, pinto-a numa tela particular, embora de somenos importância para os que já se recolheram frente ao aparelho de TV.; ou para aqueles que, algum dia, possam vir a interpretá-la com seu estado de espírito. Chego a pensar numa canção. Há tanto tempo não “converso com meu amigo violão” !...
          Enfim, já enfarado e ciente que, há coisas que jamais poderemos mudar, adentro para o quintal, apanho caderno e caneta e ponho-me a contar sobre essa melancolia que me faz pensar que a vida, ora, a vida também é feita de cacos de sonhos e estilhaços de esperanças. Por isso, devemos considerá-la sempre, uma arte. Uma magnífica e dignificante Arte. A vida. Ainda que, em cacos e estilhaços juntados e colados feito os sentimentos e a própria melancolia que, faz com que nos sintamos meio fora de foco quando procuramos nos situar em algum desses quadros de fim de tarde, início de noite, sem saber que espaço ocupar.


 

FORA DE FOCO

(3)

 

          Desesperado, recorri ao Márcio Jacovani que, diga-se de passagem, com seu jeito “meio punk”, mas de coração sem medidas, atendeu-me de pronto. Sem mais o que fazer, sentindo-me meio traído após 18 anos fazendo jornal no município, via-me sem emprego, apelando para cesta básica e o que é pior, recorrendo à praga da agiotagem. Quase afundo sem escafandro e na lama.
          Essas coisas, por incrível que possam parecer, acontecem. Mesmo quando a gente não acredita que o nosso maior inimigo continua sendo o velho amigo de tempos soterrados pela memória curta e pela ignorância.
          Três dias após eu telefonar para o Márcio, já completamente entregue às favas e traças do esquecimento, batem no portão e chamam. Era ele, o Marcinho, como costumam tratá-lo de forma carinhosa em seu trabalho. Foi logo soltando:
          — Te arrumei um trampo assim e coisa e loisa. Vai ganhar tanto e aí, é com você. Começa amanhã?.
          No ato. Sem dormir, às seis da manhã tomei um banho e rumei para São José do Rio Preto. Primeiro dia, excesso de informações. Gabinete na maior balbúrdia. Muito entra e sai. Gente pedindo e reclamando. Varei o dia sem perceber. Saí estressado e inteiramente fora de foco.
          — Fica na sua. Pega leve, sempre com um olho no peixe e outro no gato — me recomendava o amigo.
          Fiquei na minha. Ou melhor, na deles. O excesso de agitação e desordem nunca foram minha área. Faz isso. Agora, já, pra ontem. E eu ali, enclausurado, chafurdado, cismando se dava para pegar nem que fosse no tranco. Dormir, nem pensar. Vazei a primeira semana sem pregar olhos.
          Passei o fim de semana em casa com a mulher e a filha. Cheguei em Uchoa num sábado à tarde, após meio-dia de tumulto durante uma conturbada reunião política. Transido e, já tomado pela agitação e ansiedade excessivas, passei o resto do sábado e o domingo comentando como fora a semana. Péssima. Não de todo ruim. Péssima!.
          No segundo dia, bateu o desespero, sentia-me fora de foco, desenturmado, perdido, atabalhoado e prestes a pedir demissão sem mesmo ser nomeado. Quedei-me no corredor desamparado e como já disse, fora de foco. Garimpando coragem para bater continência ao “Tenente” e, adeus viola. Foi aí que senti que haviam me colocado em foco. Era o fotógrafo Edson Baffi. Bonito, elegante, um sorriso ancho nos lábios, com sua calvície simpática e conservadão após os dezoito anos sem contato.
          Voltei a entrar em foco, os pés quase saíram do chão com o aperto e as palmadas nas costas que quase me fazem botar os pulmões pela boca. Daí, passei a sentir-me uma das pessoas mais importantes deste mundo. A velha terapia do abraço. A gente sente quando alguém gosta, através do reencontro e da forma expressa. Edson Baffi amenizou o padecimento, espantou o fantasma do “até logo, fui” e, foi responsável por eu ter conseguido permanecer no emprego por mais algum tempo.. Digo que foi ele, mas há outras pessoas por trás desse fato além, é evidente, da necessidade e da responsabilidade assumidas.
          Durante o referido período, revi muita gente que não via há quase 20 anos: o Rubens Celso (Cri); a Mao; o Nenê Honsi; o Lui; o Toledo, o Lelé Arantes, o Cavaco, o Parayba, o Prata, o Jessé do Diário, o Higa, o Baida, a foto do místico Gugu na Sala da Imprensa. Vi também o Galvão, o Edinho Araújo, o Marcelo Gonçalves, o Cacau, o Paulo de Castro dos velhos festivais da MPB, o Serroni, além de conquistar novas amizades. O próprio Aldo, o Fábio, o Sr. José do protocolo, simpático e educadíssimo. A Dra. Íris, místicamente fantástica. O Zé da Xerox. A recepcionista. O atencioso rapaz que trabalha no almoxarifado. O pessoal da redação. Sr Valdomiro do café. A Clotilde do gabinete do presidente Zanirato. O Edson (Tigrila), que conheci garotinho, jogando bola pelas ruas da Vila Anchieta. Fiquei três dias na casa do Márcio e saímos com a Rô e a Flora (esposa e filha, respectivamente, do Marcinho que é um verdadeiro Buda). Foi então que encontramos o Luís Jardim e a Sandra cantando e tocando; o Parayba que gravou uma música que compus em parceria com o Benê do Realejo. Sem contar os que... Que me perdoem mas minha memória já não é a mesma de 20 anos atrás. De qualquer forma, minha estada na Câmara chegou ao seu termo. Eu voltei. Sai fora. Conto porque.
          Aprendi com meus pais a respeitar e exigir respeito. A não comparar para não ser comparado. A falar de forma serena porque aos berros, ninguém consegue chegar à bom termo. E, sobretudo, porque apesar da boa vontade, não conseguia produzir um décimo do que sou capaz. Sentia-me de mãos atadas. A mente bloqueada, entorpecida pelas ordens desconexas, sucessivas e às vezes, disparatadas. Coisa de quem não tem o que falar e fica regurgitando frases pelos cotovelos e dando volta em volta de seu próprio círculo concêntrico (ou excêntrico?), sem ir à lugar algum.
          Sai. Não disse que estava saindo, mas também não disse que voltaria. Fiquei meio jururu no último dia. Confesso que já sentindo saudade. Coisa de somenos importância? Talvez. A conclusão é que, percebi que não conseguiria desenvolver trabalho algum à contento por lá, se continuasse amarrado e deixando toda a minha vida de lado. O que era para ser resolvido, ficou pela metade. Mal delineado e meio sem jeito, humildemente, tenho que escusar-me com aqueles que tentaram ajudar-me de uma forma ou de outra. Somente peço que compreendam a minha situação. Infelizmente, tenho que sair correndo atrás do dinheiro senão amanhã, cortam o fornecimento de energia elétrica aqui do barraco, fico sem crédito na mercearia e, .... Bem, aí já vira apelação. De qualquer forma, jamais pensei que pudesse reaver tantas pérolas perdidas pelo caminho. Pelas sendas esquecidas e trancafiadas em algum vezo da memória e do coração. Se valeu?. Valeu e muito!.
          Ah, voltei a sair de foco. Mas, certamente — e eu acredito nisso —, deverá aparecer algum Marcinho ou algum Baffi para, mais uma vez, colocar-me em foco e fazer com que eu volte a acreditar que, jamais estaremos completamente sós e abandonados. Mesmo quando fora de foco....


 

DE FORMA QUE AMANHECEU

(04)

 

          Amanheceu. Foi assim, de repente. Sem que eu me desse conta que, o tempo é parco, veloz, atroz, incontinente. Amanheceu porque um galo resolveu emitir seu cântico. Ou porque, os pássaros deram início a algazarra no quintal. Amanheceu porque ouvi vozes dos trabalhadores que passavam lá na calçada. Os primeiros carros e caminhões. Enfim, amanheceu porque o despertador despertou quem não chegou a deitar-se esta noite.
          Enquanto o dia inicia-se lá fora, cá dentro — não do quarto transformado em escritório de trabalho —, em meu ser obscuramente atormentado, tento organizar um pouco toda essa balbúrdia, essa parafernália em que deixei transformar-se minha existência. Lembro-me de Raul Seixas, não sei porque. Reestruturar todos os escombros, nem pensar. Mas, no mínimo, uma vassourada pelos cômodos empoeirados da alma. Afinal, nem sei quanto tempo terei para colocar em ordem esse tanto pela metade.
          De forma que, amanheceu. Prometo não desistir ante a adversidade e as chacotas do destino. De forma que amanheceu e eu, muito do esculhambado, já inicio o dia com o ovo virado. Coisas desta vida trôpega. Não sei por onde começo, mas tenho a convicção de que alguma coisa necessita ser articulada e posta em prática. De forma urgente, para que eu possa continuar acreditando na vida e em meus próprios propósitos. Ainda os tenho, acredito. Essa porca política dos imbecis senhores proprietários de nossos destinos!. Asco!. Lá se vai minha parca paciência.
          Sentado sobre minha frágil e debilitada vontade; prisioneiro da inércia e da falta de coragem rezingo: porra!, aqui não acontece nada. Alguém precisa... Nada que alegre o meu coração!. É isso aí, Belchior: não tenho feito nada para melhorar essa porcaria e ainda dou-me ao direito de reclamar. As coisas somente acontecem quando a gente deseja realmente a ponto de colocá-las em ação esperando pela reação. Viva!, solucionado o problema da inércia e do vazio abissal!. Eis que, descubro onde encontra-se o mal. É necessário cortá-lo. Ali, na raiz e deixar de ficar encetando lutas imaginárias contra os galhos. Agora lembro-me porque pensei em Raul Seixas. O coringa do baralho. Fazer acontecer, eis a questão. Carrascos e vítimas do próprio mecanismo criado. Verdugo do próprio verdugo. Fantasma do próprio assombro. Porquê será que ando tão assustado e covarde nos últimos tempos?. Sempre a mesma desculpa: a família. Preocupadíssimo com a família, nem reajo mais. Ajo feito o cordeiro sacrificado. Obrigado, Senhor!, porque não sou eu o assassino e sim o assassinado!. Papo furado e mais besta!. Nem Freud explica essa porra. Autocomiseração.
          Penso: sou um homem justo. Tenho procurado ser honesto. Não tenho desejado nada que não tenha direito ou que não seja meu. Que eu tenha merecido. De que me tem valido tais princípios?. Não que eu os devesse abolir e passar a pensar e agir feito essa malta de imbecis e hipócritas.
          Bem, de qualquer forma, amanheceu. E, por Deus, nunca me senti tão só e atordoado frente ao caos em que a vida vem se transformando nos últimos anos. Não fosse essa manhã... Não fosse o que, de graça “Ele” emprestou-me, juro que sairia de mansinho e deixaria tudo para trás. Inclusive o que tenho sido ultimamente e que, sinceramente, desconheço!.


 

EU TAMBÉM JÁ FUI CRIANÇA

(5 — Publicada)

 

          Eu também já fui criança e igual a todas as outras, também fiz aniversários. Havia, em meu tempo, determinadas nuanças quanto à semelhança. E ao mesmo tempo, no meu caso em particular, quanto à discrepância. Admito: sempre fui bicho do mato, embora tenha nascido em Santo André, aspirado fumaça de óleo diesel e traga na alma, um cadinho da fuligem das fábricas com suas chaminés enegrecidas. Apesar de tudo isso, ainda em criança, descobri que o sentimento e a sensibilidade são inatos em todos nós humanos.
          Não foram a pobreza, a mudança para a beira do mato no Interior — Barretos —, o que fizeram com que eu me transformasse naquele menino que sonhava com mais intensidade do que a própria vida poderia oferecer-me com suas festinhas de aniversários; as amizades seletivas; ou as ligações de parentescos. Embora, neste caso, admito, havia muito a ser oferecido. Sobretudo, não foram os convites para festas.
          Até hoje, orgulho-me disso. Se me chamassem, seria fácil recusar e agradecer. Não me sentiria excluído, caso fosse o único a ficar fora da festa. Toda festa era-me tanto amorfa quanto os laços de amizade que contraímos na atualidade de um mundo egoísta e seletivo. Tudo é seletivo nos dias de hoje. Em minha mente, meu coração e meu mundo, não existe espaço para essas coisas pequenas, tacanhas, patéticas. Aliás, faço questão que não me convidem para nada. Sinto-me bem melhor ocupando um espaço que conquistei. Não por egoísmo, excentricidade. Mas por filosofia de vida. Por princípios.
          Em Uchoa tem muito disso: processo seletivo, separatismo, exclusão e ignorância. Meus sentimentos já superaram coisas piores. Desde menino, como já frisei, aprendi a conviver com a imbecilidade do ser humano. Todavia, não sei se todas as crianças possuem essa mesma capacidade de aceitação e não se deixam macular por possíveis seqüelas causadas pelo processo "panelinhas babacas" desta geração prepotente, mesquinha e ignara tanto quanto os próprios pais.
          As crianças de hoje, são sensíveis sim. Possuem um grau de sensibilidade bastante acentuado. Demonstram-se felizes em poderem ser participativas. Gostam de ser convidadas. São outros costumes, outra cultura. No entanto, tudo isso, as tornam bastante vulneráveis. De forma que, se excluídas, são propensas a adoecerem porque são feridas, magoadas e anuladas. Como se apaga uma frase do quadro negro com o velho apagador. Como dizemos: riscamos aquela cidade do mapa. Assim é minha filha. Assim são, a maioria das crianças que residem em Uchoa. Que, aos sábados ou domingos, saem em grupos com seus alaridos e roupas bem cuidadas, em direção a alguma casa de um aniversariante, a carregarem nas mãos, o imprescindível presente. Presentear é uma forma de dizer que ama e que está ali, presente. São outros tempos. Outros costumes e, como eu disse, outra cultura.
          Sábado, dia 02 de outubro o pacote com o presente encontrava-se sobre o velho sofá da sala. Somente o pacote e as lágrimas eram novos. Ah, a frustração também era nova. O sentimento de rejeição, nem tanto. Mesmo porque, já havia ocorrido mais de uma vez. Sentia-me incomodado. Não por ser eu o "enganado". Afinal, eu não recebera nenhum convite. Pela primeira vez em toda a minha vida eu sentia-me indisfarçavelmente ferido. Quase que um processo de osmose. Esbocei um palavrão, mas calei-me. Vamos desenterrar a velha piscina de plástico. Vamos enfiar a cabeça dentro da água fria e contar até que não mais agüentemos. Vamos atirar água um no outro. Conversar. Brincar. Esquecer que, às vezes, nem tudo é como a gente sonha ou gostaria que fosse.
          É isso aí, filha! O mundo é meio estranho para que você o entenda na sua idade. As pessoas que pensamos conhecer, não são as mesmas que pintamos em nossa telinha de sentimentos. Não cabem dentro de nossos pequenos corações —, às vezes. Não porque nossos corações sejam pequenos. Mas porque, as pessoas julgam-se muito importantes ou demasiado grandes para ocuparem espaço tão diminuto. E, chegam mesmo, a acharem que o coração da gente, é feito da mesma matéria que possuem no lugar do cérebro.....
           As pessoas são assim mesmo. É difícil crescer. A vida é feita desses pequenos contratempos. Com o passar dos anos, também passamos a compreender tudo isso e muito mais. E são fatos assim que acabam nos tornando melhores do que somos à cada dia vivido. São fatos assim que revelam o que são, na realidade, as pessoas. E elas são muito parecidas. É importante aprender a compreendê-las e perdoá-las. É a Lei da caridade no mundo dos egoístas e prepotentes.
          Mas é necessário muito, muito mais do que, chafurdar a cabeça dentro da água da piscina no quintal da casa. Muito mais do que boas gargalhadas e brincadeiras edificantes e saudáveis para que, consigamos mitigar e sanar a mágoa. Embora, não custe tentar.
          Vamos inventar histórias. Faz de conta. Os dois sentados no chão da sala. Faz de conta que eles são iguais a nós. Que sentem como nós sentimos. Que são realmente bons e camaradas. Enfim, façamos de conta que o que ocorreu, não se conta. Desconta-se e pronto: solucionamos o problema!.
          Mais tarde, quando o cansaço chegou e o sono apanhou minha filha de surpresa, perguntei-me, será que ela realmente, se deixou convencer de que o que aconteceu não passou de mera bobagem a ser esquecida?. Então lembrei-me de "Valsa Para Uma Menininha", do Vinícius & Toquinho:
          — Fique assim, meu amor, sem crescer/Porque o mundo é ruim/ É ruim e você, vai sofrer de repente, uma desilusão/Porque a vida é somente, o seu "bicho Papão"...
          Apascentei meu desassossego e busquei acalentar novos sonhos. No dia seguinte, a vida continuaria naturalmente e enviaríamos o presente para a aniversariante. Sei que parece estranho, mas das mesmas lágrimas de desapontamento e mágoa que brotaram dos olhos de minha filha, começaram a marejar de algum recôndito de minha alma. Então eu confirmei que, a alma da gente, não importa a idade, também possui olhos para ver e, sobretudo, para chorar.
          Mesmo que a gente tente evitar.
          Ainda que a gente não deva dar vazão à dor causada pela mágoa proveniente do fato de sermos ignorados por aqueles que... mais amamos.....


 

ENCARANDO O DESTINO

(6)

 

          Abro a porta da casa, o sol resplende, céu límpido e franco, convidando para um dia promissor. Contudo, minha alma desliza por alguma outra senda. Como se pudesse meter-se em cafua nalgum vezo e driblar o cotidiano a esperar. A mente se esforça. Batalha vã. De batalhas vive-se. Dizia Raul. Não pense que a canção está perdida. Digo àquele que sou, que “o outro”, carece de espaço e alento. Afinal, é um belo dia. Uma bela manhã.
          A alma aquieta-se: passarinho ferido, caído do ninho sem aprender a voar. O que fazer?. Então preparo-me para pagar o pedágio. Tenho que, necessariamente, pagar o preço. Nesta existência, tudo tem seu preço. Meio sorriso à caminho. Lembro-me das dívidas e sei que não terei com quem dividi-las. É necessário, quiçá, despertar de vez. Ainda que trôpego e maquinalmente, fincar os dois pés neste chão e encetar os primeiros passos. Afinal, não vai dar para voar...
          Com o material debaixo do braço vou à luta. Mas que luta?. Fazer o jornal, claro. Penso: o que perguntar aos nossos nobres edis? Por onde começar? Havia uma centelha de idéia ainda ontem. Um projeto quanto a mudanças; abrir espaço para o trabalhador; o cidadão que labora de sol à sol.... Reportagens especiais.. De repente, fogem-me à mente, se dispersam pelo ar e parado nalgum cais distante, permaneço a ver navios sem mares ou cais algum. A consciência de que à qualquer momento, posso afundar e jamais voltar à tona. Disparate: peixe fora da água. Onde o ímpeto?.
          Os passos são lentos. Nunca que chegar. Insisto com o depauperado âmago: desta vez é para valer. Vale a pena tentar. Não adianta parar. Eia, boi! Eia, boiada!. Quero virar pé de vento, furacão, revolução dentro do peito franzino, guerrilha urbana... Qual o quê?!. Paisagem sarapintada pelas mesmas manchas de séculos atrás. Careço de uma injeção na testa!. Coisa de maluco, bolas!. Não se pode perder as esperanças assim, assim...
          Afinal, cogito, e a família?. Penso na família. Na honra. Nos compromissos. É necessário quitar os compromissos. É necessário voltar a berrar, ao invés de continuar solfejando de forma desconexa. É necessário muito mais. Tantas coisas necessárias!. O tempo implacável, atroz, veloz, atropela meus pensamentos atabalhoados. Mal viro a esquina e dou de frente com o destino. Observa-me de soslaio, passa irônico, com toda a sua empáfia, zombeteiro. Filho da mãe!. Traidor!. Definitivamente, não nos damos muito bem um com o outro!. Se fosse contar os sonhos e planos frustrados... Vai-te, verdugo, parvo!.
          Escarafuncho pelos recônditos das reminiscências em busca do jovem impetuoso e revolucionário. Descubro poeira ancestral. Escombros do que fora um dia. O que resta da festa que não fiz, jamais farei?. Autocomiseração bastarda!. Não há nada pior no ser humano que a autocomiseração!. Se não, uma côdea de revolta e indignação, não há luta, bem sei. Fico ruminando meu próprio veneno. Ás vezes, temos que regurgitar o veneno. Ruminá-lo, alimentá-lo, fomentá-lo, para que possamos explodir em mil partículas e partir para a vida. Então vamos à vida! Viva a vida!. Mesmo que, após a primeira curva do caminho, eu já passe a sonhar com estrelas, passarinhada, versos e canções....
          De forma que, a realidade não é um beliscão. É uma punhalada. Não se vive sem objetivos. Não se é feliz se não se vive plenamente. Para tanto, quer queira, quer não, é necessário, quiçá, que façamos o que gostamos de fazer. Senão, jamais haverá paz. Prometo que um dia deixo tudo isso e saio pela porta do fundo. Ainda vou fazer somente o que gosto e quero. Careço fazer: escrever, compor e esquecer-me, definitivamente, que um dia, por necessidade, tive que encarar o destino com o mesmo desdém com que ele me encarou....


 

OU VAI OU.... OU SEI LÁ!

(7 — Publicada)

 

(Uma asa aí
Uma asa — A/voa/ Borboleta me Leva/
Numa Asa azul
Outra asa, segredo
Meu coração que voou.

Do CD “Realejo ao Vivo” — Bêne Ferreira e Mauro Rueda — “ASA”

 

          Ou vai ou, sei lá!... Há uma semana estou tentando sair dessa. Não sei porque, mas antes de iniciar a crônica, me veio o título e ficou assim.. mais para sei lá do que ou vai. Estranho, contudo, real. Deve ser o tempo. Ou a situação caótica, quem sabe?. Pode ser ainda, esta pedra no meio do caminho. Este país de cegos e toupeiras!. Permaneço apático, ruminando meu ódio visceral. Como se fosse possível eu ruminar o ódio. Engraçado, não consigo sentir esta merda. Apenas e tão somente, uma revolta doentia, meio impotente, meio capenga, vesga. Um sentimento amarfanhado, feito papel sulfite. Um tão somente querer deixar de lado tanta palhaçada e acrobacias soçobrando em indigesta participação social e política. É a vida!. Dizem, não sei.
          De repente me vêm à mente, duas frases simples e objetivas: “quando mais necessitei, me negaste três vezes”. A outra é, “se me vendeste por trinta dinheiros quando eu ainda tinha algum valor, por quanto me venderias hoje?” ... Não tenho nenhum quadro ou crucifixo na parede. As paredes são brancas, sem decorações. Apenas as estantes com seus livros inúteis. Tanto conhecimento para malogros infindáveis!. Antes houvesse composto uma cantiga ao violão. Antes não houvesse deixado o menino do mato crescer e meter o pé na estrada em busca da cidade onde os homens, são sempre tão absurdamente hipócritas e falsos!. Agora já era!. Dane-se!.
          As borboletas, os pássaros, a solidão dos becos, dos quintais, o teu sorriso ontem, nunca mais, essa lembrança que restou.... O medo do que não havia.. Música que fiz com o Benê e o Parayba gravou. Cantada uma noite dessas, há pouco menos de um mês, num barzinho em Rio Preto. Com o espanto do direito adquirido através do reconhecimento geral. Tanto que, após “Novo Brinquedo — O teu sorriso disfarçando a dor..—, Luís Jardim relembrou “Asa”. Aí vieram, “Raimundo Rei” ; “Se eu Cantar” ; “Sonho de Uma tarde de Verão” ; “Velhas Canções”, todas incentivadas pelo Márcio Jacovani. Para lá de companheiro. Irmãozinho de poeira; estradas tantas e labutas infindas. Continuava meio sem acreditar no que via e ouvia. Afinal, tanto tempo havia-se passado!. Foi aí que pensei: Agora ou vai ou... e, caí na real. Mesmo porque, eu estava com os dois pés sobre um tapete. Os tapetes são inconvenientes porque são “puxáveis”. É simples: puxa-se o tapete e pronto...
          Abriu-se um leque mais belo que cauda de pavão. Já dava para pavonear-se todo. Não eu. O Tadeu, quem sabe?!. Sempre fui mais pra bicho grilo que pavão. Fiquei na minha. Continuei na minha. No fim da noite, o sol querendo despontar, o cara querendo fechar a lanchonete e o Parayba aporrinhando — no bom sentido —, com seu violão, uma canção pela metade e, resolvemos o problema ali, na hora: o Márcio meteu um refrão, chutei uma frase difícil de encaixar e pegar de prima e o Parayba ficou lá, cantarolando para não esquecer e dizendo para as sombras e o vazio da madrugada que iria gravar no próximo CD. Nisso, o Lelé Arantes que havia prometido corrigir meu sobrenome na próxima edição do Dicionário rio-pretense, pediu-me uns livros infantis para o pessoal da editora dar uma olhada. Afinal, as redes escolares municipal e regional são bons filés. Havia uma revista e dois jornais para serem editados. Além disso, o vereador Molina parecia afeito às minhas iniciativas e, quase garantida uma campanha política com o candidato Marcelo Gonçalves & Cia como ponto de referência.... Credo! Ainda bem que nada disso aconteceu.
          — Competentíssimo, o Mauro. O conheço como jornalista e compositor há muitos anos. Uma boa mantê-lo por perto. —, disse o Marcelo. Mas o Edinho Araújo também havia dito. Como diria o Toninho Figueiredo ou o próprio Caboclo, se é que ainda conseguia lembrar-se daquele garotão imberbe que ia entrevistá-lo em sua residência no início dos idos de 80. Agora vai!... Estava indo. Ia. Fui.
          Com a certeza absoluta de quem havia deixado marcas e não titica pelo caminho por onde passou, sai pelas ruas com uma sensação do dever cumprido. De regozijo para com o massageado Ego e pensei: que se dane!. Acho que eu necessitava mesmo, era lembrar-me do que já fui um dia e que, sobretudo, continuo sendo. Dei uma mijada no mictório (mas que palavra!) da rodoviária. No ônibus, Zé Adauto, como sempre, supergentefina cobrou-me a passagem perguntando como iam as coisas. As coisas sempre vão, queiramos ou não. E, sentei-me num banco com o mormaço do fim de tarde me obrigando a transpirar aos cântaros. Em bicas. Modorrento, fiquei observando pela janela, as coisas todas ficando para trás: prédios, carros, pessoas, ruas conhecidas, palmilhadas... Foi me dando um sono, um cansaço de tudo, garrei a cismar recostando a cabeça no canto da janela, o ônibus tomou a rodovia e vim despertar em Uchoa.
          Engraçado ou pura ironia, quando meti os dois pés no chão uchoense, despertei de vez para a realidade. Surrealismo forjado. Ainda continuo entre o sonho e a realidade... Sem saber se vai ou, sei lá!...


 

DAS REMINISCÊNCIAS ENCAFUADAS

(8 — Publicada)

 

Sonho que se sonha só
É só um sonho que se sonha só
Mas sonho que se sonha junto é realidade
?”
(Prelúdio — Raul Seixas, In Gita-1.974)

 

          Ficava ali, perto da ponte “Maria Benta”, do “Buracão” na Vila Anchieta. Fui lá para rever. Às vezes fico sentindo uma saudade besta de não sei o que. Coisas que nem vivi. Pessoas que nem conheço. Mas a favela eu conheci. Eu vi e convivi por um dia todo. A primeira reportagem do jornal “A Voz do Povo”. Tenho a foto do menino sentado no trilho da estrada férrea. Foto do Edson Baffi. No livro “As Memórias de Um Inseto Brasileiro”, há um trecho daquele dia. Os insetos jamais esquecem. Não tem mais o campinho de futebol onde disputávamos garrafão de vinho contra os times das Vilas Ipiranga, Maceno e Boa Vista. Há uma avenida. O rio, a ponte... As coisas se transformam. Ou são transformadas. Forças circunstanciais ou, força do destino?. Não sei, sinceramente....
          Fiquei zanzando feito uma barata. Revendo casas, ruas, quintais. Olhava as pessoas. Reconhecia mas, ficava somente observando. Coisa melancólica!. Bulindo com o coração e as lembranças do nunca mais. “As Reminiscências da Infância de Cócoras”, livro singelo, despretensioso, de contos e causos. Nada me parece ser melhor nesta existência que a infância. Nem vila melhor do que a “Vila Pereira”. Nem cidade igual a Barretos. Pobre leite derramado!. Tempo bandido, fugidio, perdido pelas veredas e sendas caatingueiras!. Nas restingas dos meus sentimentos, a cacimba de água é um olhar de boi manso, “marejante”, escarvando o chão esturricado do peito e carecendo dar de encontroadas sem sopesar nem aquilatar os trancos e solavancos desta existência de boi de canga. É isso!.
          De forma que, fico meio dividido entre Rio Preto com sua favela “Gogó do Sapo” nas “Memórias de Um Inseto Brasileiro”, “A Cidade Morta das Varejeiras” (essa é uma cacetada metafórica no realismo fantástico uchoense) e “As Reminiscências da Infância de Cócoras”, de Barretos. Santo André não que bicho do mato pode nascer em selva de concreto e fumaça que, quem é do chão não se atrepa, mano velho!.
          Ficam assim, umas reminiscências encafuadas dentro, no coração mirrado. Vão crescendo mais que o próprio narrador, tomando forma e encorpando até que, acabam transformando-se em livros, contos, causos, crônicas, poemas e canções. Nisso, a gente nem percebe que o cipó de aroeira bate no lombo e se percebe, faz de conta que nem se conta tal. Feito “Menino do Mato & Outras Histórias”. Coisas de “abestado” sem pôr tino nas desfeitas do destino amorfo e na “realidade virtualíssima” do século e milênio berrando o sejam bem-vindos!. Os caras aporrinhando: “Pára de divagar. Sai desse devaneio e cai na real!”.
          Carantonha me ponho e já mando pros quintos que, cancela e canga assentam bem em bois e burros. Além do que, os parvos dão de solapar a paciência da gente sem nenhum preceito. Por safardanas que são. Não podem ver ninguém parado, cismando. Raul dizia que quem pensa, pensa melhor parado. E Belchior que, cismar é da natureza do brasileirinho mesmo e fim de papo. Sou assim, por natureza e necessidade: careço da solidão, do terreiro e do crepúsculo para me acocorar e me pôr a cismar. Se careço, não peço. Faço. E, me dê licença.
          Daí, dei umas voltas pela Anchieta, pela Ipiranga, pela Maceno que morei foi pra tudo quanto é lado em Rio Preto. Mudava mais que cigano e sem paradeiro de cidade em cidade em busca do que, nem sei. Saindo, com um nó. Um dó no peito. Programando mentalmente em tornar á Barretos, Santa Fé do Sul, Frutal, Cassilândia, Paranaíba... Menos Santo André. Deve ser medo de fumaça de óleo e fuligem das fábricas. Nem para receber prêmio por casmurrice, amarrado vou. Vou coisa nenhuma!. Sei lá porque besteira, mas fiquei zanzando de ônibus pela cidade. Dei umas três ou quatro voltas. Querendo e não podendo deixar rolar umas lágrimas bestas.. de ancião acarinhando a cabeça do menino sem “sabença” do que a vida e o destino estão lhe preparando para a próxima esquina. Resolvi voltar para Uchoa. Passei pela casa da mãe. Revi os manos, as manas, a sobrinhada, as cunhadas, cunhados, tios, tias, vizinhos, vizinhas... Lembrando das minhas duas outras partes e já pejado o coração pelos fantasmas da saudade, fui baixar na rodoviária.
          Cheguei em casa com o sol se pondo. Rumei pro quintal após tragar um café, o cigarro entre dedos e de cócoras, sem que as duas percebessem, deixei as águas rolarem. Às vezes, uns meninos de favelas ou do mato, vêm de mansinho, com seu sem jeito, numa sengraceza danosa de ser extirpada e se põem de cócoras aqui dentro, neste fundo de terreiro, e ficam a mirar o crepúsculo, escarvando o chão de terra com um graveto, esgaravatando todo o meu coração que, não tem outro remédio senão deixar... E eu deixo!. Como não haveria?. Eu, logo eu que, jamais deixei de ser menino do mato?!. Ara, dá licença, seu doutor sei-lá-o-quê!...


 

DESTÁ QUE NA PRÓXIMA A GENTE SE VÊ!

(9 — Publicada)

 

          Eu estou dizendo porque sei. provérbio no duro. Pode até parecer ameaça ou coisa de macumbeiro velho e arretado da gota, mas é a pura realidade. Faz porcaria aqui, dá volta acolá, e vai perceber que tá com o calçado sujo. A vida é isso aí. Ciclo e círculo. Para se quebrar essa corrente ou sair do círculo, é necessário, pode apostar, uma faxina e tanto no interior da casa. Não é fachada não, cambada de estrupícios amalgamados e sarapintados por dejetos mentais!.
          Pois é.. dizia assim: “Ah neguinho filho-da-outra, safardana sem preceito, cachorro perebento!.. Destá que na outra a gente se vê!”. Promessa magoada, meio caminho andado. De coração, mente e alma espezinhados, distância melhor é nem ter inimigo ou amigo que, tanto faz. Às vezes, mágoa de amigo é pior porque é mais sentida, mais dolente. Aí dana e amarga feito fel!. E eu, de muitas que já vi e ouvi que, meu avô tinha lá suas ligações (nego-me a contar), espio de travessa, tiro corpo fora e vou pro campo ouvir canto de sapo e “bascuiá” pirilampo quando noitinha.
          Besta de quem arranja inimigo de graça. Ainda mais se, por traição que, é o que mais se vê e se sabe. Nesse mundão de almas perdidas, sôfregas e avaras, tanto se maculam e se enegrecem e se ensujecem que, não dão de trair os próprios pais e irmãos numa ganância dos infernos?!. Caso que, de otário e sonso, a gente às vezes deixa-se passar por. Mas, de há muito e de outras, já trazendo na cerne um jeito de enxergar o detrás das coisas; o outro lado da moeda e o que se esconde no que muito se lhe mostra, desde cedo aprendi que a gente está sempre dando a volta no quarteirão e voltando ao mesmo lugar enquanto preso pelo tênue fio, feito visgo, nesta. De forma que, se falou enfarruscado que não perde por esperar, que destá e coisa e tal que na outra..., já estou é tirando o time fora do tapetão. Com esses, os desgrenhados que não encontram paz nem aqui, nem acolá e dão de buscar e rebuscar, tocaiando e penando pelas horas mortas e sombrias, só vingança e ranço nos corações empedernidos e traquejados, distância eu quero!. E olha que fui. Tiau!.
          No mais, dizem: promessa é dívida. Então, de atarantados, atoleimados e imprecavidos, o que mais juntamos nestas passagens, são dívidas, ao invés de saudá-las. O outro “lengando” num pensar velhaco encafuado em seu vezo de experiência e muito tato e tino, coçando a carapinha acrescenta: dívidas e inimigos de graça... Duas pragas que por coisa de nada, vão solapando a alma e a consciência do caboclo até que não reste mais nada senão, o olhar ardiloso e voraz da “véia da foice”. Eu de ouvido em pé, já pedindo pra bater em retirada e sair desembestado pelas sendas do meu viver, nem digo que sim, nem que não. Nem aprovo, nem desaprovo. Nem sustento, nem dou de contra. Fico é pensamentando muito do distraído e desinteressado dessas coisas e aquilatando as conseqüências que muitos espertos crônicos que conheço, com suas danuras, vão ter que prestar ciência e bem na ponta do lápis Àquele que escreve reto por linhas tortas. É disso que me nego a discorrer embalde. Mesmo porque, nem quero ser quem vai julgar e muito menos, estar sentado naquele banco incômodo e espezinhante que chamamos consciência.
          Dizem que uns não têm. Nem consciência, nem sentimentos. Dizem. Coisa que, apesar de tantas aberrações, discordo de forma veemente. No mais, a consciência é o réu e o juiz. O acusado e o acusador. O assassino e a vítima. O algoz e o que sofre. O perseguidor e o perseguido. Por isso, não procede. Que sujeito não tem consciência ou não tem sentimento!... Pode ser turrão, empedernido e até mesmo, tentar negar sua natureza de ser humano... Mas daí... Então, como eu dizia, cada qual carrega o seu fardo e a cada passo o torna mais leve ou mais pesado, dependendo. Por isso, fico borocochô, jeito sonso e aluado quando tô ouvindo e sabendo que estão na tramóia, maquinando do meu lado, pensando que estão disfarçando de forma que eu não estou, mas eu afirmo que estou é já enxergando o outro e não o que parado ali, perto de onde me ponho a ruminar com meus botões e apetrechos trazidos de muito na mente e na alma... Fico danado, buscando explicação para o que não há e por fim, deixo. Vou mudar o mundo?. Tem coisas que carecem de ser realizadas para que o propósito final não se esvaneça do todo. É assim.
          Então, somente para pôr termo no que ora narro, destes que prometem, melhor escafeder-se. Virar pé-de-vento e deixar para o lado. Ainda mais se o que promete, na promessa já vai declarando-se inimigo desta e da outra vindoura com aquele ditado mais “estrugente” para os ouvidos da alma: “Destá que na próxima....”. Nem nesta, nem em outra qualquer!. Melhor é ir-se retirando pelo caminho traçado e bem; sozinho e sem ninguém. Nem amigo, melhor sem inimigo. Sem promessa e sem prometido. Com o fardo já vazio e a alma leve. Somente assim, é que o ciclo se finda e com ele, este fadário de porcarias e danuras que a gente tem que ver e ouvir pela vida fora e dentro. Ou dentro e fora?!...


 

TEM DIA QUE DE NOITE É ASSIM MESMO

(10 — Publicada)

 

          Às vezes, na vida da gente, tem dia em que tudo parece virar de cabeça para baixo sem motivos ou razões aparentes. É o tipo do dia em que pensamos, lá no íntimo, “porquê fui levantar-me da cama?”. Dia de azarão. Nada parece dar certo. Estourou um cano e não há meio de consertá-lo: pleno domingo. Não se encontra ninguém que dê jeito no problema.
          Aí, já nervoso, você deixa cair a garrafa de café e suja toda a cozinha que a sua mulher acabara de limpar. Solta uns palavrões indecorosos, esquecendo-se que tem filhos e estão todos ali, ouvindo tudo. Mal e mal acalma-se e o gás pifa. Atrás de gás. E quando você coloca o pé para fora do portão, aparece aquele chato que você jamais desejaria ver. Sobretudo em tal situação.
          Licença. Desculpas. E o sujeito se oferece para ir com você atrás do bujão de gás. Você vai. Peleja, arruma, volta para casa e a mulher anuncia que o cobrador esteve e deixou um recado. Recado é dose! Ainda mais de homem e cobrador. Vai instalar o gás e o trem garra a vazar feito notícia ruim. Ou Chernobyl. Problema na borrachinha. Dá-se um jeito. Que fazer?.
          Mais palmas no portão. Ou é vendedor ou cobrança. Diz que não estou!. Mas não era ninguém, felizmente. Aí pergunto-me: como ninguém?. Quem é essa besta? Será que existe esse tal de ninguém?. A úlcera manifesta-se. Dor de cabeça. Não tem Doril?. Como não?!. A úlcera zangando. A farmácia fechada. Então a gente lembra que já não tem mais crédito faz um mês. Apela para o vizinho que, escafedeu-se. Evaporou. Coisa, seu!.
          Pinta uma idéia genial. Ligar para aquele amigo que tem carro e... O quê? Foi pescar? Mas como? Justo hoje? O cara nunca sai de casa, pô! E, distraidamente, mete a canela numa quina qualquer. Como dói!. Trocar de camisa, transpirando, irritado, nervoso. Ponto de explodir. Vai meter o pé no cachorro que está atrapalhando e chuta o vaso de planta da mulher. Mais encrenca. O pé dói. Isso vai inchar. A cabeça também passa a pescar: fisgando e latejando. Faltava queimar o feijão. O sol ardendo e indeciso, o tempo não sabe se forma chuva ou se apenas fica ventando para sujar toda a casa. Hora de apelar e começar a rezar.
          Café não dá mais. Acabou. Você olha para o último maço de cigarros: tem uns três dentro dele. No bolso um vazio mais vazio que cofres públicos. Começa a bater desespero. É muito para um único dia. Quebrar o lugar, ver onde estourou o cano para consertar o vazamento na Segunda-feira. Até lá, um pouco de exercício no corre, abre, fecha o registro. A conta de água de um mês para outro já havia aumentado de forma exorbitante. Vem raiva. Vontade de “esbordear” tudo pela frente. Vê se tem preceito, mas nessas alturas, a gente já começa a questionar porque e para quê ter nascido?.
          Hora do jogo na televisão. Vai lá fora, gira a antena de um lado para outro. Chega um chato, torcedor contrário, para ficar azucrinando. A imagem ruim. Pensa em tomar uma cervejinha e lembra que parou há dois anos. Logo de cara o time leva um gol. Frango. Perde uns dois que até você mesmo faria e de olhos fechados. Já começa a odiar o seu time do coração. A molecada chega. Amiguinhas da filha. A mulher emite umas frases mais agudas, ralhando com a criançada. Um cai e rala o joelho. Chororô. O segundo tempo vira palhaçada e seu time acaba levando mais uns dois. O sujeito ali te gozando. Na tua casa.
          Tomar um banho. Abre o registro. Fecha o registro. Será que a energia elétrica não vai pifar também?. Até que nem faria diferença. Tudo danado mesmo. Encara aquele “zoião” dentro do prato, mesmo sendo um domingo. Macarronada, nem pensar. Inferno!. Ou melhor, infernal. Cachorro latindo. Silvio Santos ou Faustão?. O dia já era. Seu domingo foi e já foi tarde. Saudade nenhuma. Vai começar o Fantástico. Mas fantástico mesmo é a vida da gente. Os caras falando lá dos políticos, dos artistas, programa de governo, um maluco que salta do pico não sei de onde. Ah, e tem pesquisa para o próximo programa sobre preconceito racial. A vítima, geralmente, é o próprio racista. A gente não acredita, mas eles dizem que ainda existe isso no Brasil. Então...
          Já entregando os pontos, vem aquele loiro amarelento que diz ter sangue azul e nojo de pobre para o pobre cair na gargalhada. Deve ser o mau humor. Não é possível. Os olhos começam a arder e o farol vai pifando. O tal filme inédito é uma porcaria que já passou umas dez vezes quando ainda havia o Corujão. Você pensa em mudar de canal. Pensa. Olha em volta e percebe, finalmente, que está sozinho. O relógio disparou de repente. Será que não se perde hora amanhã? Início de semana. Para que lembrar de uma catástrofe dessas?. Justo na hora de dormir!. Bate a insônia porque quer queira, quer não, a mente continua funcionando: as dívidas, a falta de dinheiro, será que sai o pagamento? Aí a dor de cabeça volta. Rolar na cama não é uma boa solução. Levantar-se e zanzar pela casa também não resolve.
          Oremos!.
          O dia quase, pertinho de chegar e você com aquelas olheiras, um bagaço, caco do domingo. Ressaca sem beber. De birra, mas de birra mesmo, você levanta, vai até o quintal e dana de cantar feito galo pra azucrinar os vizinhos. Acaba levando uma tijolada no meio do coco. Vai parar no hospital com um corte para mais de dez pontos. Sabe de onde veio o tijolo? Deve ter caído do céu, de alguma construção que São Pedro está fazendo por lá. Deve ser manicômio ou cadeia, no mínimo. Dr., me aplica uma injeção na testa, pelo amor de Deus!.


 

E AQUI VAMOS NÓS, BABY!

(11)

 

          Abro a pasta de arquivos em “Meus Documentos” dou de cara com “A Crônica do Cotidiano”. Começo o correr os títulos e me deparo com o cujo acima, no alto. Sinceramente, não me lembro de havê-lo escrito, mas... Relapso como sempre, não vou tentar descobrir. Vou sim, tentar levar à cabo meu intento.
          Escafandrista, mergulho fundo neste oceano de vazios abissais. “E Aqui vamos nós, Baby!”. Mas o que significará tal expressão, afinal?. Título estranho. A quem eu chamaria ‘Baby’? Minha esposa, minha filha, talvez? Não sei. Reza o velho ditado: nunca deixes para o amanhã... Chega no dia seguinte, ou como no meu caso, alguns dias depois e como lembrar-me de algo tão amorfo, sem qualquer dica?. Não tem outro jeito. Sigo em frente. Digo, apanho o disquete, coloco-o no driver e passo a escrever. Se é para ir, então vamos lá, Baby!.
          Hoje é o último natal do Milênio: Sábado, 25 de dezembro de 1.999. Tal fato talvez me sirva de pretexto para o enredo. Ontem, véspera, não recebi. Não tenho um tostão nos bolsos. A despensa encontrava-se vazia e foi parcamente suprida com uma cesta básica que — engraçado, mas começo a acreditar em milagres —, um velho amigo (ainda existem, claro), nos trouxe e deixou na porta da sala. Seguramente sabia que a nossa situação era, no mínimo, caótica. De forma que, soaram as doze badaladas e meio sem jeito, sem graça, sentado no sofá da sala com o violão nas mãos, nos desejamos feliz natal: eu, minha mulher e minha filha. Papai Noel, velhinho sábio e precavido, mal minha filha distraiu-se, colocou o pequeno pacote sob a singela árvore de natal montada na sala quando as duas já dormiam. Deitei-me no chão, ali mesmo, frente ao aparelho de TV. para assistir “Jesus Cristo Super Estrela” e acabei despertando faltando uns dez minutos para as quatro da manhã.
          Levantei-me, dei uma ajeitada na sarabanda que havia aprontado na noite passada e com minha asma não muito revoltada, sentei-me frente ao computador. Aliás, quase meu, já que não terminei de pagá-lo e dificilmente o farei em função da crise. Mas vamos lá, Baby!. Berro mentalmente. O tempo está ótimo. Despertei com um pouco mais de disposição. Preciso, careço definir algumas coisas e dentre elas, o que realmente desejo nesta existência. Aos 43 anos, continuo sem uma definição firme, com base concreta do que pretendo fazer daqui para frente para ganhar a vida. O Jornalismo andou reprimindo e pisoteando meus sonhos. Todos eles. Sobretudo a política. E é exatamente em função de acreditar que todos os políticos possuem sentimentos (será que contaremos mais que uma dúzia deles que possuem de fato?), que me pego em tal situação. De qualquer forma, aqui vamos nós, Baby!
          Ainda que longa a estrada e muitos os percalços, não dá para não acreditar na vida e na grandeza de seus propósitos. Na beleza das manhãs com o cântico do passaredo. Na criança sorrindo e no ancião a cismar. Penso nas cascatas e riachinhos; no alvor das estrelas; nas mãos que plantam e colhem; na voz que prega mansa, muitos ensinamentos e conselhos divinais. Penso no sorriso da mãe após a dor do parto; do pai na lida sem tréguas; no beija-flor; na roseira; na mesa farta; nas descobertas nos campos da Medicina e da Tecnologia. No homem que estende a mão para o infortúnio; na vizinha que se presta a favores quando o seu próximo, desamparado, começa a perder a esperança. E a esperança renasce e renova à cada manhã. A cada segundo. A reciclagem natural em tudo. Da natureza ao coração e mente dos seres que habitam este e outros planetas maravilhosos e resplendentemente belos pelo imensurável Universo!. Talvez seja isso exatamente o que eu desejasse expressar ou gritar: vamos lá, baby!
          Vamos lá! Há sempre uma esperança, uma saída, um ombro amigo, a fé que nos impulsiona. Um grito de amor e louvor à vida. Jamais seremos uns pobres diabos desamparados e esquecidos. Temos saúde e sonhos. É necessário sonhar, quiçá. Amiúde, sonhar. Jamais perder a fé e as esperanças. Imorredoura a alma, façamos juz à vida que nos foi legada. Tão sagrada e valiosa, a vida!. Vamos lá, baby!. É tempo ainda. Sempre amanhece e à cada novo dia, renascemos para o porvir. Para despertarmos em nós, o que de melhor existe guardado nalgum recôndito de nossas almas!.
          Animado, já não me importo com o título ou se era isso que eu desejava escrever quando o deixei pronto. Não faz muita diferença, creio. É o mesmo convite para seguir em frente, para olharmos adiante, não nos deixarmos esmorecer. E aqui vamos nós, Baby!.
          Abro a janela do quarto de trabalho e olho lá fora, a manhã assaz bela. Prazenteira. Não sei porque, mas tudo parece estar sorrindo. Mesmo o muro que separa quintais. Esqueço-me das doze prestações atrasadas da nossa humilde casinha; da dívida no supermercado que impediu-me de fazer uma compra ontem. Da edição de natal que deixei de fazer circular porque não havia como. Esqueço-me que algo me aborrecia até ontem. Hoje é um novo dia, um novo tempo. Um belo dia, propício a um bom dia, um sorriso, uma prece, um pouco de paz. Afinal, “Alguém” muito especial faz aniversário hoje: meu olhar fita o horizonte como se, de repente, fosse encontrar acenando-me a sorrir, esse Jesus que, não sei porque, mas deve estar sorrindo e sussurrando ao vento da manhã: “E Aqui Vamos Nós, meus irmãos!”. Então digo a eles, os que fazem da política essa vergonha nacional: “Viram? Vocês foram incapazes! Falharam, simplesmente. E não foram capazes de me fazer infeliz. Não foram e jamais serão. Porque possuo longos braços e quando olho para o mundo e a vida e as pessoas, olho com os olhos da alma e meu coração é maior, muito maior do que o ódio e a indiferença. Acho que é por isso que digo à minha esposa, tão logo ela desperta: E Aqui Vamos Nós, Baby!. Talvez ela não entenda muito bem, mas eu e o aniversariante, sabemos a que me refiro nesta manhã em que meu coração já não cabe no peito de tanta felicidade....


 

DA VELHA SINA O ESTRANHO CANSAÇO

(12)

 

          Já não desperto com o mesmo pique, neste 30 de Dezembro, quinta-feira. Sei que, da velha sina, é que me vem esse estranho cansaço de tudo quase. Sinto asco do comerciante; o jornalista recendendo à mofo; o compositor morto, soterrado pelos escombros das canções mal delineadas. Restam o menino e o poeta. Contudo, da mesma forma, cansados, enfarados, entregues.... Frente ao espelho, um rosto estranho, um olhar de abandono espiam-me com ares de menosprezo calculado. Provavelmente o estresse de mais um ano malfadado ao soçobro. Malogros e desatinos. O homem pega-se alheio, mirando sem nada desejar ver. Como se o que pudesse conseguir enxergar fosse somente espezinhá-lo ainda mais. Da velha sina, este cansaço. Desistência de tudo. Não mais fiar preces de esperanças e trocar os passos, seguindo adiante. A família!. Os pensamentos divagam morosos. Talvez sem sonhos que alimentar. Muita labuta, demasiado alarde, semeadura para, rara, parca, escassa colheita. Ou colheita nenhuma. Cansei. Chega uma hora em que nos cansamos de tudo, às vezes. De forma que, arrumo as malas. Minha pretensão é sair por aquela porta, pegar a estrada, não olhar para trás. Esquecer. Deixar. Desistir de vez. Orgulho ferido. Fera magoada. Sei que não farei nada disso. Que tentarei mais uma, três, quantas vezes forem necessárias. Nunca fui de me deixar abater. Nunca fui de me deixar dobrar. Casmurro, talvez. O coração frágil nega-se à qualquer sentimento. Olhar absorto na tela do computador. Vendo o computador amanhã e pago o mercado para voltar a ter crédito e poder comprar arroz e feijão. Não, não vendo. Estou blefando. É somente um blefe. Tal qual o blefe, sinto-me uma farsa. Uma velha farsa maltrapilha, rota, mil vezes representada no palco da vida. A platéia, há muito, queda-se vazia. Não há mais ninguém para assistir a velha e enfadonha farsa. Sorrio do palhaço. O palhaço já não ri ou inventa cambalhotas e tombos: está esvaído pelo tablado do palco e suas lágrimas são verdadeiras. Cena de nuança torpe que engloba o macambúzio e o enfado. O palhaço diz que já não há motivo para lutas ou sonhos. Deve ser, da velha sina, este cansaço. Imagino o “Bug” do Milênio de uma alma ancestral. Muitas vezes, fraquejamos. Palco de anomalias ao redor. O centro de tudo transformado em arena. Atirado em meio às feras. Cristão sem forças, entregue à fé cega. Esperando a hora final. Gladiador vencido esperando a sentença. O dedo em negativo, para baixo. A maça desce em direção ao crânio e não há necessidade de se narrar o resto da cena. Cansaço. De tudo e de todos. Da própria existência. Da falsidade. Das intrigas. Da maldade. Do descaso. Da política. Das autoridades constituídas. Da perversão e servidão humanas. A alma, frágil passarinho que, muito tempo aprisionado, desaprendeu a voar. Abatido, fatigado de bater asas em vão, sente o coração aos berros. Sabe que chegou ao fim do último ato. Livrar-se de tanta violência. Da violação que deteriora a dignidade do ser. Dignidade. Uma palavra. O orgulho jaz em poça de lama. Os dedos teclando, a mente bloqueando a passagem das frases, dos pensamentos. Não adianta escrever. Selecionar o texto e em seguida apertar a tecla: “delete”. Deve ser, da velha sina, esse cansaço!.... Possivelmente amanhã, já não me sinta da mesma forma. Provavelmente eu volte a lutar e a sonhar. Mas hoje, hoje não. Não me interessa o ano novo, o 2.000, o século XXI, o novo Milênio. Para mim, é tudo a mesma coisa: poça de água estagnada, fétida e repugnante. Cansaço, enfado e desejo de à tudo pôr termo. Dane-se o Terceiro Milênio! Dane-se!.....


 

FORA CARA-PÁLIDA!

(13 — Publicada)

 

          Há dias em que desperto assim: meio Apache, meio Sioux. Embora o sangue Sioux prevaleça por uma questão de profundo respeito pela tribo, já nem me lembro mais à qual nação indígena pertencia o velho guerreiro “Touro Sentado” que um dia lá, mugiu e se levantou. Coisas do tempo. Lapsos da memória. De qualquer forma, saio para o quintal e grito à plenos pulmões:
          — Fora Cara-Pálida! —, ensaiando uma dança de guerra, que resulta em extremo cansaço e vontade de voltar para a cama. Sabadão é assim mesmo, desperto no maior pique para descobrir que meu território foi invadido e a coisa anda mais para demanda na FUNAI do que para pinturas de guerra. Mas aqui vamos nós! Sem mais perda de tempo, passo um fax para o Zorro, amigo do Tonto, colega do Silver pedindo informações como tem passado o “Espírito que Anda”, protetor da Floresta e amigo dos pigmeus. Nossa amizade ficou um tanto abalada por causa de um olhar buliçoso da Diana e uma dentada que o Capeto me deu em propriedade alheia. Contudo, vai tudo azil na América do Sul/Sal/Cio. Eu disse azil mesmo e não azul. Coisas e códigos cifrados. Esta semana recebi uma carta de Sherlock Holmes que anda meio abalado com sua reputação “meu caro Watson”. Não que Batman e Robin tenham pedido a separação devido a problemas de radar no Batmóvel e a Caverna do Morcego tenha entrado para a lista da Casa da Dinda, escandalosamente com a participação da Mulher Morcego que foi apanhada no maior papo durante o horário de expediente com a Mulher Aranha, dando bola para o Capitão Márvel. Hulk, o incrível, ficou verde de raiva com a história da família Márvel. De qualquer forma, isso aqui anda uma sarabanda que só. Volvemos ao cachimbo da paz! Um ET espilbergueriano aponta-me seu dedo reluzente. Penso em criptonita, mas é o super-homem quem tem problemas radioativos e não eu. Sou somente um indiozinho diante do Capitão América. Ah, falar nisso Thor manda avisar que não vai baixar para a festa de amanhã, domingo. Está com problema no cabo do seu martelo. A nuvem de fumaça recobre a Casa Branca de Clinton. As forças Armadas, A Cia e o FBI, já armaram o esquema. Um parangolé foi atropelado em plena Paulista com a São João. Na Casa Rosada tudo são Mercosul para os Maradonas da vida. Na praça um burro pasta moroso andando e cagando para o problema da humanidade e do município. Solidariedade. Assobio “A Internacional”, pensando em Bóris, não o Karlov. O outro que é quase amigo de Fidel, o dos charutos. Aquele cara acaba ficando viciado. E os chineses não aprenderam mesmo. E os nazistas tão de bobeira com essa idéia de que Hitler era uma grande líder, um santo, um deus encarnado. Aliás, falar em nazismo: ô coisa cega! Ninguém entendeu. Amanhã o PT faz aniversário e continua de quatro tentando aprender os primeiros passos. Quantos anos, ah sei lá! Uns vinte, mais ou menos. E o mínimo, ó! Parece coisa do ACM que anda meio magoado com o FHC que mandou avisar que “baba-ovo” do FMI é a PQP e eu já não estou entendo mais nada. É tudo um tal de FHC, Pequepê, Pefelê, gererê, fumacê e outros cecês que haja “célebro” para decifrar!. Já pego-me esfalfado. Ou melhor encasquetado, estiolado, macambúzio, enfarado e arara. Não, caninha Arara. Pê da vida! Isso, sem o “H” ! Não, não escrevemos mais “Pharmácia há muito” !. Vai enrolar os bigodes nalgum salão de beleza, ora raios!. A janela é sem gelosia, o Chico dizia. Enquanto a caravana passa, continuo aflito e atazanado com Chita e Dom Quixote sem moinhos pelos campos de Canabis em meio aos bananais e mandiocais. Para onde vais? Quo Vadis, Tiririca, Urtiga e Bromélias, enquanto o vento sopra pelo “Chapadão do Bugre” e Pelas Gerais descontinente porque eu sou apenas um rapaz latindo em americano e sem baganas nos bolsos ou nas mãos. Um instante, maestro!. “Arriégua!”. Ouço. Carrego no pescoço um patuá. Mandinga, meu velho comancheiro. Raça ruim!. A ponte do rio que cai Kuaiu de vez! Ainda bem que os canhões de Navarone foram devidamente inspecionados pelo IBAMA e os animais confiscados e enjaulados, devolvidos à selva onde o santo continua fazendo seu chá de Dai-me-dá. Buda bem que dizia não Confucio que meu prepúcio se atropela. Quem espera também dança. Em Sierra Madre, o tesouro já era. Por aqui os Pacinos da vida continuam imperando. Engraçado, são todos uma única família. Lêem os mesmos livros e adoram os mesmos filmes. Máfia. Pobres italianos que deram um duro danado para esculpirem parte do berço da civilização e, deu no que deu. Ou continua dando, sei lá. A expressão filosófica emitida anteriormente — Arriégua —, é de criação antiga, mas recentemente, foi retocada pelo papa do brega-chique, Falcão. Aquele da valsa “Ai minha mão, minha mão...”. Num vai-e-vem sem tréguas assim como a letra e o ritmo da música Haja saúde, saúva e espinhas pela cara de pau!. O sedentarismo mata a doença que dá e passa. Em alguns casos. Em outros apenas dá. Passar já é outro problema dos anais e anéis da história. De forma que, se meus dois últimos neurônios — um lerdo o outro bom de sono, como diz o Altino —, entraram em conflito. Portanto, desisto de fazer a fogueira para emitir sinais. O inimigo ronda o pedaço. No Krigh-há´bandolo!, que Raul — Imprimatur As Aventuras de Rauzito na cidade dos Marimbondos de Fogo. Ferro na boneca, agitavam os Novos Baianos antes de Jorge Amado descobrir que Tieta era uma potranca e que a Tereza Batista andava cansada de guerra. Desisto da fogueira mas não de acender meu cigarrinho nicotinado, com menos alcatrão e mais fumaça. Tusso. Cóf!, cóf!(som de tosse), mas não paro. Piro mas não puro. Purro, purro mesmo, era aquele cara muito casburro que foi tragar água na fonte do Paulo Coelho pelo caminho de Santiago. Tá viajando até hoje. Dói a úlcera. Hoje vai dar Chicote, tá um sol legal. Amanhecerá domingo quando tudo passar e eu me esbarro de rir até morrir de enchorrar!. Tem sábado que é vespa do domingo e assim mesmo é sempre. Olha a banana/olha o bananeiro!. Bon Vivant! O mar quando quebra na praia... Mas que melda é essa afinal?... Despenso com meus borbotões!.


 

A TRISTEZA DO CONTENTE

(14 — Publicada)

 

A dor da gente é dor de menino acanhado
menino-bezerro pisado, no curral do mundo a penar
Que salta aos olhos igual a um gemido calado
a sombra do mal-assombrado é a dor de nem poder chorar

(Raimundo Sodré e Jorge Portugal — In A Massa).

 

          Deve ser mais ou menos assim: um estar-se a sorrir sem a menor graça; um viver a vida sentindo-se morto ou, sentir-se o que nem se sabe, nem se sente. A tristeza do contente, talvez seja um esbanjar saúde, mesmo estando doente; um estar-se próximo quanto mais ausente e, pior, é um desejar ser o que não se é: gente que jamais poderá ser. Não consente! A tristeza do contente é um não ter amigos em meio à toda a gente; é um se entregar por inteiro e vazio quedar-se carente. Ou quem sabe, mostrar-se realizado quando a frustração o torna doente. Não sei ao certo a “contenteza” do triste ou a tristeza do contente. Este amor que se entrega e egoísta mente. Este amar a quem te ignora e faz chorar, forjar em meio às lágrimas, uma alegria, uma felicidade que sempre mente. De forma que, sempre aos domingos, forço-me a escrever uma crônica. Mesmo que seja por mera obrigação: feito a tristeza do contente. Escrever sem sentir. Sentindo, sabendo o sentido ser o que nunca se sente. Por vezes penso: sou patético ou mesmo obsessivamente empedernido. Pois tenho em meu hábito de escrever, este sentir mais que dorido. Se não escrevo morro. Se escrevo, sei que me pego doente. Crônica pintalgada pela poesia. A poesia amalgamada em crônica, penitência vista e latente. Isto é um ser triste e fingir estar contente. Ou contente demonstrar-se, a esconder a tristeza que tanto nos mente. Deve ser isto. Talvez não. Se escrevo, não sei se o faço com a alma ou com o pensamento. Se me vêm da mente estes sentimentos ou se brotam-me dalgum vezo ou recôndito, tais chistes do antropofágico (?) coração. Não sei se tudo é realidade em meu mundo ou, se meu mundo, não passa de fantasia! Mera ilusão que insisto em transformar em poesia. Tudo o que sei, é que sem escrever não posso ser e viver. Sem viver ou ser, como poderei dizer o que sinto ou se sinto, estando triste ou contente?. Talvez sejam insignificantes frases, através da catarse, forjadas. Parecem-me tudo e ao mesmo tempo, tão nada. Fada fadada ao esquecimento de um arquivo morto nalguma pasta de um computador. Quem sabe, quiçá, o que algum dia, alguém possa vir a ler e compreender o que é jamais desistir sem antes lutar? A entrega por inteiro. Sem meias palavras ou sofismas. Não, não a cisma de um cronista, por natureza, sonhador! A cismar fiz da minha tristeza alento e, sem mágoas, ao relento fui me deitar. Sou assim, meio sem eira. Já não me importa a vida, se me resta o sonhar. Se a vida é este jogo que jamais finda, quantos sonhos pela vida, terei ainda? Gosto do que faço porque bem me faz. E por isso, sinto-me triste e contente à um só tempo. Tempo que não se mede, não se sente: é feito um ficando, estar a passar. Eis o meu segredo de contente que a natureza, lavrada em tristeza me ofertou. Nunca sei se permaneço ou passo. Se fico me faço ausente, se parto, nunca sei para onde vou... Sou inteiro e pela metade. O avesso da mentira e a mentira da verdade. Poeta que faz poesia com o pensamento e ao pensar, não consegue da poesia, se livrar. Meio roto, meio torto, meio capenga, teço versos e fio frases. Não me interessa o que possa dizer quem me lê. Se compreende por inteiro este meu ser. Embalde é meu desejo, meu querer?. Se eu sequer sei quem sou e, sendo o que sou, porque sou o que persisto em ser?. Provavelmente, mais triste que contente, eu seja o que nega e, de imediato, abre o coração e se entrega. Se digo ser mais contente do que triste, sei que o faço mentindo. Não verão eu fazê-lo sorrindo, pois o que mente ser alegre ou contente, sequer sabe o que está a dizer, quanto mais aquilo que sente!. Luto com palavras, frases, artigos, sintaxe, formas gramaticais. Luto como quem luta desesperadamente e na lida, sabendo perder a própria vida. E há nesta existência que jamais desiste — triste ou contente —, o desafio, a ferida, da batalha aguerrida. Luta que se almeja e se lança frente a trincheira, mesmo sabendo-a, inglória, perdida. Sou obstinado e casmurro. Trunco se me convêm. Egoísta e orgulhoso, tenho o meu lado humano também. Ser cronista ou poeta, não é uma só coisa (se é que ser coisa, é ser algo mais que simplesmente coisa), mas sim, diversas à um único tempo. Mesmo tendo por ferramenta, essa mesma, imensurável paixão. Por isso também, não me toca adversa opinião. Se não estou bem, e já na trincheira ferido, não posso forçar-me a ser bem sucedido naquilo que teço ou fio. Transformo a tarefa e a lida em desafio e desfio em cada ínfimo detalhe, o que possa ser lapidado, se me convêm. E tudo me convêm se desta água trago a luz para, imensurável e caudaloso, tornar-me em rio. A tristeza do contente é aquela que nega, mesmo sabendo que mente. Contente, sabendo-se triste, perscruta e indaga se realmente existe. Assim eu sou. Assim sou eu: triste e contente. O que sinto é o que importa. O que escrevo é o que entorta. Escondida atrás da porta, uma sombra morta me espreita: esta sim, é tudo o que poderia ter sido um dia, mas que, enquanto eu sonhava, se me fugia...
          Esta sombra morta sou eu: o que resta da festa que não faço, não fiz e jamais farei. É somente uma sombra morta que espia por uma frincha da porta. A sorrir e a chorar sem saber existir e se existindo, deveria estar triste ou contente. Pobre sombra tenho sido: fingido, rio e sofro. Nem triste, nem contente. Nem alegre, nem triste. Sou somente o que existe. E, existindo, resiste. Do Pai, o filho: frágil e temeroso. Guerreiro atroz, em batalha, sempre à linha de frente.
          Que orgulho não teria o Pai que, tendo na memória, ao seu lado, o filho sempre ausente, quando a causa faz-se maior? Porque no presente é que encontra-se o futuro e no futuro, a germinar, as sementes do presente?! Isto é o que conta na conta feita e refeita, quando a tristeza do contente, é a “contenteza” deste triste ser que, amiúde, nos mente. Tanto faz o que tanto fez...Afinal, somos o vento que passa a ciciar segredos dolentes e não torna, faz-se ausente!.. E como fora dito, se água em murmurinhos a correr incessantemente, num único momento — átimo do tempo implacável —, sobre o mesmo leito e as mesmas pedras, na “contenteza” do triste ou na tristeza do contente, volvemos a passar, a ser?!... Vã filosofia se a própria natureza filosófica nada mais é do que estar-se, todo o tempo, metafísica/mente ausente!?...


 

SEM PONTO FINAL

(15 — Publicada)

 

          Às vezes bate este desespero da vida malograda, soçobrando em nesgas e réstias de sonhos idos, perdidos, destruídos pelos percalços do caminhar. Procuro explicações para o que era tão simples e de repente se tornou impraticável. Não há. Simplesmente, não há. Cerro os olhos e vejo toda a vida passar. Descartar esperanças, novo tempo, nova dança. Não há nada que se possa fazer, afinal? Ninguém responde. Não há ninguém por perto. Decerto tudo é vazio, deserto. Tento refazer na memória, a história inacabada desse malogro, dessa piada. Mesmo porque, se me parece piada este vazio, este nada. E havia tanto por ser feito! Sentimentalismo roto, torto, morto. Atiro este fardo no escuro porão da ilusão. Preciso reinventar a vida, a existência; descida e subida. Não pereci ainda. Embora traga no peito cravado meu próprio tormento e lamento que tenha sido o veneno do meu próprio ferrão. Velho, aborrecido e encravado escorpião de eras já esquecidas, consumidas. Assim são os sonhos, as ilusões. Assim a existência, a vida! Questiono-me o que fazer e por onde começar. Estou a divagar. Não, na realidade sou apenas um homem desesperado a sentir o destino traçado, caminhado só, às margens deste rio de insegurança. Não consegui entrar no ritmo, errei no contrapé, fiz descaso e já não consigo mais dançar a dança da velha tribo. Sou inimigo número um das pedras atiradas à esmo. Sou inimigo e amigo... Conquanto seja, não sei ser eu mesmo. Perdi o jeito, as manhas e os macetes. Deixei esvaziar a taça, sentado nalgum canto de praça, a observar o anonimato. Vivendo nele, servindo de capacho para os pés sem sapatos. Não me pergunto quanto às porradas. Não se deve questionar a própria fraqueza com tanta franqueza em alguma manhã ensolarada que, de antemão, me convidará para mais uma jornada infinda. Destas que, nem sei ainda, mas presumo, vá dar em nada. Tenho mundos e desertos por serem descobertos, no entanto, aqui é o fim do mundo. Meu pecado e degredo. Meu segredo e pecado. Não ter saído pela porta do fundo enquanto havia tempo. Pego-me assustado e confuso. Já não sei o que fazer. À que(m) recorrer. O que dizer. Por onde começar. Fico a ver navios fantasmas, em porto algum atracados. Ousar tanto para nada! Houvesse me restringido feito os que se dizem normais.. Desafiar e esgrimir. Não pedir, não me entregar, resistir.. Soldado abatido, com frio e medo. Já não há segredo. Derrotado nalguma trincheira, espero o inimigo chegar atroz, raivoso, irado. Pobre animal sedento! Expludo por fora e por dentro. Não, ou melhor, me arrebento. Que não me agüento e sequer sustento tanto tormento e tormentas neste mar enfarruscado a me tragar. Basta de hipocrisia! Basta de tanto deixar! Calar a boca. Quem vem me fazer calar e calado me põe à espera do que jamais virá? Eu que era tantos! Hoje nada, nenhum! Conflito aflito neste grito sem som para gritar. Quem ouvirá estúrdio lamento? Pois calo-me, confere? Não, não sou mais o que difere. Sou somente mais um. Inseto da vida mal resolvida. Coisa que não se discerne. Nem sequer nos concerne. Tudo e tudo o mais, é somente deixar. Restará o que tiver que restar. Nem mais. Nem somenos. Não há importância, bem sei. Vassalo e rei. Escravo, cavo a sepultura para os grilhões que me prendem. Quiçá esta emergência abusiva de me libertar. E me arrebento. Me liberto. Sou lento, mas chego. Sou meio patético e estabanado; desajeitado mas sei bem o que se passa à minha volta. Não retorno que me hei decidido. Nem herói, nem bandido. Somente o que ouso. Não osso, nem aço. Nem fácil, nem fóssil. Eu. E me decido. E recomeço. Refaço o compasso no compasso desfeito. Não há que me negar nesta contramão da vida, uma última dança. Vou de encontro ao que eu mais temia. Morrer não importa se todo o tempo estive morto e descontente, escondido atrás da porta. Portanto, morrer não importa. Importa esta dança. Esta roda, esta ciranda, este berro que forma-se dentro, nas entranhas! Não posso mais permanecer calado, parado, esperando somente porque mandaram. Quem são e com que direito mandam em alguém? Não sou somente um, mas vocês também. E me arrebento. Sustento a palavra e me arrebento de vez. Não há mais espaço para quem sabe ou talvez. A hora é esta e agora. Aqui e já. De imediato. Não cabem aqui palavras mansas, servis. Prefiro ser vil a servil. Lambada no lombo fatigado: menino afoito, abusado. Se sou, porque não ser abusado? Maresia em demasia à minha volta. O que passa, passa, não torna. O que resta? Nada dessa festa. Nada dessa pista de dança que não sou de dançar. Nada de flexões para o reflexo das ações. Nada de espera na sala de emergência. Nada de sim quando as palavras de ordem são: não, nem, nunca, jamais. Ironia do destino é o que firmo e assino, assumo. Não sou descartável, nem de consumo. Desapareço mas jamais me esqueço. Eis que prefiro o refaço ao retrato que não me retrato ao que não faço. Laço sem nó. Em nós que enlaço. Abraço o que caço e predador aprendo a dor da caça. Se me embaça a visão, jamais se me cega a razão. Por isso este sim monumental dizendo não. Este não fundamental dizendo que sim. Que é finda a servidão. Que é finda a sina maltrapilha, esfarrapada, a troco de tão pouco, quase nada. Basta de palavras amenas, serenas, cordatas. Basta desta farsa irracional. Digo adeus e sorrio amargo o travo que me resta. Saio hoje que amanhã é tarde. Não importa com que pernas caminhar e ou quais caminhos sondar. Nada mais importa quando de tudo o que há, nada resta para salvar. Digo, este é o meu legado e recado dado. No mais, nem atribulado, nem em paz. Apenas e tão somente vazio e abarrotado. Eis o meu legado e pecado. Porque, embora aparentemente morto, vivo, muito vivo, ainda trago comigo, as cicatrizes e feridas por sanar. Tenho em mente e nas palavras escritas a história que não foi contada, não foi dita. A realidade e não o subjetivo. Não o que parece, o suposto. Não o que fumo, se desfaz no ar. Mas o que vai ferir, magoar, marcar, tanger, sangrar. Saio, já não me importo o que me entorto se estou pelo avesso virado. Pelo avesso é que encontro o meu fim e começo. Não posso ser um, se sou uns. Sei quem e o que sou na medida exata daquilo que devo ser e não do que me foi imposto. Que venha o futuro. No escuro, quando cego, é que melhor vejo. É que a tudo ouço. Afastem-se, preciso tirar esta corda do pescoço. Com licença, seu moço!.... “Na minha mira, não há dor nem solidão. Só atiro pra matar, nunca maltrato não!”... Reticências. Sem ponto. Final.


 

ESTRELA DE GUIAR

(16 — Publicada)

 

          Há dias em que a cidade parece recender à mofo e poeira ancestrais. Paira um silêncio abissal, indescritível por sobre telhados e muros. As almas calam-se feito os cães modorrentos e entediados. Aranhas quedam-se macambúzias: já não tecem suas teias com precisão. Na Cidade Morta das Varejeiras, não se ouve um zumbido sequer. O ruído de um passo, o arrastar de um chinelo, o espicaçar de vassouras... As crianças calam-se. Sequer, ao longe, o ronco de um motor de automóvel. Tudo parece estagnado. O ar parado. Fotografia. Pintura emoldurada que se esforça por respirar. Todavia, sabemos morta. Somente uma paisagem em tecido estampada. Aguçamos a audição: um pio de pássaro? Não! Absolutamente.. Os sentidos são traiçoeiros, às vezes. Galinhas não cacarejam; gatos não ronronam; nem riam ou choram crianças.. Os talheres estão mudos. As válvulas de descargas restam inúteis na tarde que se faz em pélago. Vezo do aborrecimento, da falta de perspectiva futura. Teimo em permanecer atento: os músculos tensos, retesados; a mente embotada ou esmaecendo atônita ante ao que se nos parece retratar o impossível, o irreal. Contudo, permaneço atento... Às vezes, o silêncio em sua perfeita profundidade, sua etérea anomalia, parece conspirar, sabedor desta minha ansiedade. Controlo-me ou, esforço-me por fazê-lo. Por uma frincha qualquer, ouso espreitar o quintal. Como acreditar que, por um momento, havia uma nesga de vida neste quadro se, a sombra que, por sua vez, parecia espreitar-me por sobre o muro, desliza lépida, sagaz, precisa e se desfaz repentina? Não, não ouso mover-me. Travor amaro contido em calabouços e porões sombrios da alma e da mente! Sei o céu límpido: sem nuvens, aves de rapina ou jatos. Por um segundo, engendro a morte na morte engendrada na vida. Ferida hemorrágica que jamais estancará tanta sangria. Conheço os segredos do medo enclausurado nos corações magoados. Conheço a cor, a fragrância e o tédio das palavras e frases dispersas. Passos sombrios.. O caos das fibras cansadas, músculos retesados e células mortas, conheço. Mas tudo permanece tão vazio quanto a vã persistência do ousar entender tal pintura desbotada e morta! Penso inútil pensar. Nada concludente. Avassaladora/mente a varrer cômodos vazios e a trinchar antigos madrigais e reminiscências na mesa postos para o repasto nefando. Candelabros vazios da existência. Demência forjada na decadência do grito roto, torto e morto na canção. Lá fora é o emergente cá dentro. A tarde esvaindo, deixa um rastro de melancolia. Cismo qual fumo que se desfaz pelo ar. Quem ousaria um berro que despertasse os mortos a arrastarem correntes de cativos pela casa, ruas e praças? No espelho não havia este rosto, este enfado, este traço de melancolia nos cantos dos lábios e do olhar. Não, não havia este espanto sem magia! Poesia abandonada, carente, solitária! A dor é vária. Móveis aborrecidos e objetos aduncos observam a imagem do que sou na tarde inexistente. Porquanto, deixo de ser: qual a tarde com seu silêncio e segredos amalgamados por mentiras e descaso. A noite espalha seu manto negro, sarapintado pelas estrelas. Ouso sair para o quintal e saio.. Meu primeiro olhar descobre uma estrela: é ela, “minha guia”. Enceto os primeiros passos e ouço uma voz que me segreda: —A linha que delimita o real da fantasia, nunca se fez visível para todos. Vai, cria asas e voa! Traça com o que te resta, nesta linha, o teu destino!...”. Nada digo. Apenas sigo a linha, o traço que me resta. Passo à passo, refaço cada nota, cada acorde e compasso. Descubro a nova harmonia. Não, já não há necessidade do berro, do grito desumano para despertar tudo o que posso com um suave e dócil solfejar!... Sequer, desejo berrar!..


 

DA NATUREZA DA MEDITAÇÃO

(17 — Publicada)

 

          Às vezes eu ficava pensando. Ou melhor, não sei. Quando a gente se habitua a cismar pelos cantos o todo tempo e passa a sentir necessidade desse hábito, aí eu acredito que seja algo como estar a pensar. Então é mais ou menos isso. O tempo todo. Dizia. Não como quem diz em voz alta para que alguém ouça, mas para dentro. Para o próprio eu. As coisas assim como os pensamentos, por exemplo, são fugidias, entende? Então havia aqueles lapsos, brancos, confusões na memória. Não sei se poderia classificar dessa forma, mas é uma maneira. Eu me habituei a ficar parado, quieto, cismando. O tempo passa. Sei que perco tempo precioso a escarafunchar velhos baús recendendo a mofo e poeira ancestral pela memória falha, mas é uma forma de não me deixar macambúzio, enfarado. A vida cotidiana acaba impregnando a mente, embotando a alma e os pensamentos vão se tornando tacanhos, ridículos, mesquinhos. Alguma coisa materialista, egoísta. Por isso gosto de pensar de forma ancha. Me esparramo e deixo que os pensamentos tomem conta de meu ser. É isso o que quero dizer. Eu sou assim. Sempre fui. Desde criança que sou meio arvorado. Ou seria arvoado? Avoado não pode ser, ou é? Bem, isso não importa. Não arvoro ser Deus, que não prometo e nem tenho poderes para tanto. Então... Então, como eu dizia, ou melhor pensava, eles falavam que eu era maluco. Não, afirmavam que eu vivia divagando, “viajando”, sem pôr nexo em coisa alguma. Muitas vezes fui repreendido por esse meu jeito. Eu nunca me deixei aborrecido com o que diziam ou poderiam pensar. Não pelo que eu saiba. Porque, na realidade, sempre estive realizando uma espécie de exercício mental. A gente pára, bitola. Fica tapado. Vira uma toupeira. Esse cotidiano de cidadezinha é assim. Fofocas, política, futebol, vizinhança. São essas coisas que se repetem eternamente o que deixam um sujeito doente e meio debilitado mentalmente. Porque os pensamentos são uma espécie de energia, de força que vão — pensamentos —, com o tempo, se materializando. Ou parte deles. Sobretudo os de natureza negativa. E se transformam em um círculo vicioso. E tornam à sua fonte. Ou seja, grande parte dos problemas ou doenças, nós mesmos criamos através da nossa capacidade de raciocínio. Parece doentio, mórbido, contudo, real. Por outro lado, quando me pego a buscar soluções para problemas corriqueiros, o fato de tanto matutar, acaba atrapalhando. Uma coisa de concentração exagerada, obsessiva. Porque é tão simples que acabamos não enxergando a solução bem ali, em vias de nos sacudir e berrar para que despertemos dessa espécie de letargia atoleimada em que nos encontramos. Há esse tipo de contrapartida. De reação contrária. É algo relativo. Ou subjetivo, sei lá! Mas, afora os lapsos, esse costume é bom. Algo saudável se bem administrado. Administrar a mente e as idéias, os pensamentos e disparates é algo, amiúde e deveras complexo. Eu disse isso e discordaram porque eles, não sei, cheguei à conclusão que, quando alguém pensa perto deles, acaba importunando. Não querem que pensemos. Porque, quando ousamos pensar, acabamos criando uma certa forma de embate. O apático não incomoda. O estático nos pensamentos, que passa todo o tempo empregando suas energias no trabalho direcionado e de hábito, não questiona, não cria conflitos. Pensar é criar conflitos. É questionar a natureza das coisas que ocorrem à nossa volta. Isso acaba nos proporcionando um novo hábito, o de discordar, de pôr um pé atrás e evitar que nos ludibriem de forma tão banal. Isso, incomoda, como eu já disse. É algo que vai contra os princípios daqueles que costumam não ter princípio algum. E há, portanto, esse conflito ético e moral. Meu avô, era um pensador. Um poeta por natureza. Meu pai dizia muito pouco. Não era de palrar à socapa, pelos cotovelos, à sorrelfa, sem motivo. Era muito de ouvir, prestar atenção nas coisas e meditar e manter-se naquele silêncio perene, intransponível. Eles eram herméticos. Acho que é isso. Meu avô escrevia muito para os presidentes de República: sei porque me lembro da época dos Governos Médici e Gaisel. Talvez a assessoria deles não deixasse com que as cartas de meu avô chegassem até o destino. Contudo, como bom baiano, sargento aposentado e de leituras e conhecimentos outros dos quais me abstenho de comentá-los aqui por razões particulares que viriam ferir toda uma filosofia — uma vez que meu avô era, como dizem, um Iniciado —, e sobretudo, muito respeitado e com quem conheci as primeiras obras dos Grandes Mestres de todas as seitas, crenças e religiões que revolucionaram o mundo e continuam até hoje — algumas alvo de estudos, outras revolucionando e muito, sempre foi contra a imbecilidade do regime com sua brutalidade e sua fachada. A liberdade em todos os seus sentidos, sempre foi algo sagrado para o bom baiano que muito me legou...... Já de natureza um tanto sonhadora e poeta de escrever versos e mestre em criar e recriar o já criado, meu velho pai legou-me o gosto pela leitura, pela música, pelo silêncio, pela solidão e a meditação. Mãe não que, éramos em nove irmãos e minha progenitora se hoje possui toda uma sabedoria peculiar, adquiriu-a, seguramente, através da vivência e do labor. Na lida com a vida e na manutenção da prole no dia à dia. Mãe era quem guerreava. Era formiga operária e sem tréguas, fazia com que as engrenagens da máquina jamais emperrassem. Cada qual com suas virtudes. Era o que dizia avô. Foi o que pensei. É o que vejo aqui fora, nesta espécie de carpina diária e no “eia gado!”, com artimanhas e joguetes e falsetes e falsários. De forma que ainda dizem que sou de muito pensar e divagar, resultando no devagar. Sou. Sempre fui. Morro sendo. O tempo, é vero, se nos tira e nos dá. Põe cercas neste descampado de pensamentos, mas também nos empresta asas para, maduros, não deixar que incorramos em tantos erros e precipitações. Nisso, penso e não sou de negar, pode ser que, por vezes, mais que o necessário. Desconfiando do que instintivamente poderia ser o correto. Desconfio do que fornece azo à dualidade em sua natureza. Desconfio do que não brota da convicção do sim dando guarida ao não. Ou é ou não. Ou prova ou carece de investigações nos pormenores. Não sou somente de sonhar, compor versos, escrever histórias e divagar como pensam alguns. Ou não pensam e erroneamente, afirmam de forma convicta. O popular é também filosoficamente, na maioria dos casos, infalível: “Onde urubu voa em círculos, carniça há”. Então já é uma questão que foge à poesia ou ao meditar. Vamos lá conferir, digo. Ou nada digo. Somente me ponho a cismar convicto de que, onde há urubus, quase sempre carniça há...Embora alguns teimem em afirmar o contrário...


 

CREPÚSCULO

(18 — Publicada)

 

          Domingo, 12 de março de 2.000, o crepúsculo abre seus braços melancólicos e observa esta réstia de esperança de que somos, realmente, seres privilegiados e que, da mesma forma que tivemos um dia inteiro à nossa disposição — que aliás, não foi o suficiente sequer para colocar em ordem um terço daquela balbúrdia em que se encontram as gavetas de nossa existência —, continua a nos prometer que ainda teremos a noite e amanhã, e depois e mais: uma vida inteira para que realizemos nossos sonhos, compromissos e ainda tenhamos, por nossa natureza cabocla, um tempinho para que acocorados e cismarentos(quando o sol se põe moroso no poente), a devida preguiça para divagarmos pelas searas do nadaquefazer. Promessa vãs, sabemos. Faço que acredito. O quarto de trabalho –escritório das aranhas e do pó ancestral —, continua a mesma panacéia. Ou melhor, pior. Descubro que as traças voltaram a atacar minhas estantes e minhas coleções de livros. Poxa, passei a minha vida comprando livros e discos para esse bichos miseráveis realizarem orgias e banquetes?. Ao mesmo tempo penso em que não deveria juntar tesouro sobre a face da terra: expostos a larápios, traças, ferrugens e... Bem, e o que tenho eu a ver com isso? Meus livros, não!. Dei início à operação limpeza, extermínio e fadiga. Sinto-me exausto e excitado a um só tempo. Preciso ler. Preciso escrever. Compor. Ouvir música. Redigir jornais. Passar meus livros para o computador. Preciso, preciso, preciso! Mas estou de saco cheio dessa vida besta. Não consigo me entender muito bem com as pessoas lá fora. Ou melhor, não nos damos, definitivamente. A sociedade é complexa? Eu sou sistemático e problemático? Papo de índio. Domingo tem programa de índio. Não bebo, não vou em festas, beira de rio, reuniões, jogatinas. Não assisto TV. Não gosto de macarronada. Não paquero. Não tenho ouvido músicas e sinto-me enfarado. Que coisa! Um chopinho, violão, canções da velha boêmia e... Acabou. Não dá mais. E agora José? A festa acabou. Esse crepúsculo lindo, lento, modorrento, cismarento, acocorado no quintal da minha solidão! Sinto desejo de chorar. Verdade. Chorar de verdade. Um sentimento dolente ou doente? Não sei bem. Sou todo mal resolvido e desconjuntado por dentro. Na mente e na alma. Sou o avesso do avesso do avesso. E tropeço em meu próprio destino. Crepúsculo!. Fico mirando as nuvens que acompanham o final da tarde domingando pelo avesso feito a minha vida. Afinal, onde fui me deixar esquecer? Choramingo o domingo ido fornido pela melancolia que eu sequer sabia, havia! Quando a via, havia algo tanto que me concernia e eu, ora, eu nem sabia. Raul — não sei quem é o tal —, usava gomalina nos cabelos. Nem por isso este país mudou ou a massa ignara deixou de pronunciar “pobrema” o que não deixa de ser um problema, convenhamos. Mas não venhamos muito com essa papo que eu estou — momentaneamente —, enfarado. Permaneço quieto, mudo, parado, cismando. Lá fora amor, uma rosa nasceu, nosso samba acabou, uma estrela caiu. Chico. Diz que Deus/Diz que dá. Que eu já estou de saco cheio! Que barbaridade. À soleira (que é isso mesmo?)da porta da casa penso, repenso e concluo que não vai dar para concluir nada. A única solução é não haver solução. A única saída é nunca encontrarmos saída. E eu aqui parado, cismando até quando?. Até quando, Baby? Se a gente ainda nem começou! Mas eu devia estar contente. No entanto corro para o camarim, nalgum porão/beco/gueto dentro em mim/enfim sou sem fim e deixo assim. Hoje é domingo missa e praia, céu de anil. Tem sangue no jornal/bandeiras na avenida zil. Raul Seixas. Deixa que minha mão errante acene/adentre/entre e absorto observo os primeiros pingos da chuva repentina. A vida é tão estranhamente bela. Meto a cara na janela, emoldurado e observo o muro que me separa e me guarda. Amanhã será um lindo dia. Dizem. Não sei. Eu não conheço o amanhã. Mal e mal conheço o agora, o já. Com licença. Cerro a janela. Afinal, não sou nenhuma Carolina pra ficar observando a vida passar. A vida passa, o tempo passa, o domingo. Passa, de louça, a moça louçã. Pelo meu olho que vê miro admirado o que não tenho encontrado. Do outro lado uma sombra me espreita. Desconfiado me ameríndio todo e sei que tudo não passa de uma forma de passar o tempo que ainda me resta mesmo sem ter festa. Havia festa? Não fui convidado. Não gostaria –imensamente, de ser convidado para festa alguma. Mesmo porque eu estou domingo. Trancado em meu quarto e observando atento a aranha tece o fio da teia e a teia possui uma função. Da mesma forma que o meu coração vagabundo que quer guardar o mundo e fim. Bocejo no bosquejo da crônica que não escrevo. Somente. Apenas penso. Penso, analiso e esqueço. Não iria solucionar. De forma que deixo. Nem aflito, nem contrito. Nem desleixo. Deixo. A vida cavalga lá fora. O trem apita. O domingo finda o domingo e vem a noite, sussurrando nos ouvidos do crepúsculo, licença mas, eis que é chegada a hora. Te manca; te manda; dá licença; cai fora. Eu sorrio e penso: para que pensar? Para que tanto penar. Basta fechar a janela, apertar um botão e fim. O crepúsculo se desfaz. Não sei se aflito. Não sei se em paz. O crepúsculo, esse fóssil do ócio fácil que nos faz sonhar e deixar. O problema é que tem muita gente metida na políticalha local e fazendo cagada com o rabo direcionado para o ventilador ligado. Sai dessa vida! Vão chapiscar a casa do cacete! Mas, sobre o que eu estava escrevendo mesmo, quando iniciei esta crônica?.. Ah, esqueci! Devem ser os dois neurônios que me restaram(o Tico e o Teco), que acabaram de entrar em conflito. Se vocês ainda não sabem, em Uchoa também há cremúsculos! São lindos feito uma verborragia desancada. Digo, sangria desatada. Noitô no sertão e são grandes as veredas. Ô sina mais bléin, bléin, seu! Agora já fera. Digo, era. Fô ficano fanho, afcho!. Isso é ruim ou menos mal? Ah, deixa, pra lá vá!..


 

AMANHÃ VAI SER OUTRO DI

(19)

 

Sinto algo novo, é a voz do povo
Homens de papel
Criam novas Leis, o ontem talvez, não seja tão mal
Nossa vida nada, fria madrugada
Nos olhos da amada
Um medo, nem sei dizer
Vida encurralada: Tudo é tão nada
Nós cantamos tanto, mas ninguém quer perceber..
excerto

(Júlio Pontes e Mauro Rueda, do Show “PARCERIA” — 1.990).

 

          Observava a miséria grassando sobre a grande maioria da população; o trabalhador perdendo o emprego, o crédito no empório; mendigando uma cesta básica; reclamando da má sina que lhe foi predestinada; perdendo as esperanças e, sobretudo, a dignidade. Observava este lado que veio marcando ao longo destes últimos vinte anos. Acentuando em minha mente e alma, as feridas e mágoas.
          Enfim, quando dei pela coisa, encontrava-me em meio a referida grande maioria em virtude do descaso e das artimanhas de políticos indiferentes e seus “sacos de batatas vazios” aos quais costumam denominar de assessores. Senti na pele o descaso, o acinte, a falta de crédito, o desemprego, a indiferença e os risos maliciosos acompanhados pelas maledicências. Parei para pensar, analisei, ponderei e cheguei à conclusão que, ou se é servil ou não se é nada. A minha opção foi tornar-me um nada. Aliás, sequer me fizeram proposta. Uma sombra morta passando despercebida em meio à tantas orgias e palhaçadas desses que nós elegemos para dirigir o destino da nossa gente. Vesti a camisa do anonimato e passei a viver de bicos e do Deus nos acuda. Mesmo porque, somente “ele, de galocha” poderia saber o que eu faria no dia seguinte para saldar a conta da luz, do mercado, da água e o que eu teria — se tivesse —, para comer.
          Enquanto isso, os servis, as panelinhas, se apossavam do poder tirano e vexatório para a maioria e passavam a comandar com mãos rapaces e maquiavélicos planos inexcrupulosos, os nossos já tão aviltado destinos. Nessas idas e vindas, pude sentir o peso da exclusão social, da marginalização, da indiferença, da insegurança, da descrença no futuro e no ser humano. Mas sobretudo, em como se sente o ser humano espezinhado e perseguido. Desses que já não conseguem mais alimentar uma réstia de esperança no futuro e se deixam abater por longo tempo, assolado pelas mazelas que lhes são impostas e incutidas pelo processo perverso, discriminador e massacrante. O processo capaz de atirar à sarjeta, o mais dileto de seus filhos em virtude de seu ódio, sua seletividade e sua mentalidade aberrante.
          Esse é um tempo ruim! As coisas se repetem, contudo, acabam passando um dia. Tudo é uma questão de tempo e paciência. Amanhã será um novo dia. Pensava com meus botões e fantasmas que continuavam a fustigar minhas noites de insônia. Enquanto isso, sob as sombras da frondosa ignorância, arquitetava-se o que se faria com esses milhares de corações magoados e ressequidos pelos sofrimentos e pela marginalização do sistema. A política e seus praticantes, esses Judas Iscariotes, de saias ou não, são maquiavélicos e sequiosos. Não se dão jamais por vencidos. Mesmo quando tudo o que fizeram foi contra o povo, o bem estar social e comum, a Lei e a Justiça ainda abrem-se-lhes incontáveis recursos para que possam — não reparar seus erros —, mas voltarem a tomar as rédeas do poder e continuarem com seus mandos e desmandos como se acabar com famílias inteiras fosse algo não menos que exterminar uma ninhada de ratos. Eles, talvez, julguem que, essa grande maioria das famílias que vai sendo deteriorada por seus atos vis e doentios, não passem de ninhadas de roedores. Eles pensam em seus próprios filhos, seu próprio bem estar e nas benesses das quais desfrutam. Os outros não são gente. São meros eleitores que deverão se contentar com as migalhas do despotismo/nepotismo.
          À despeito de todo o sofrimento, nós os que somos considerados restos e que temos somente o direito às migalhas, jamais deixamos de ser humanos e, por incrível que pareça, possuirmos os sentimentos e a sensibilidade muito mais apurados do que eles que, ao que tudo indica, jamais possuíram sensibilidade ou sentimentos. São máquinas. Foram programados para pensar e agir com um único objetivo: tornarem-se superiores e dominarem a grande massa através do poder que essa mesma grande massa acaba legando-lhes a cada nova eleição.
          As mentiras, a corrupção, o descaso, as falcatruas, a indisfarçável pose de superioridade, o ódio, as perseguições, os motivos de chacotas, os atos vis de meros vândalos da vida pública parecem não importuná-los. Eles estão de volta. Armaram a arapuca, prepararam — quando tudo parecia perdido —, a derradeira cartada e, passam, de repente, a sorrir confiantes e mais unidos do que nunca. Conseguiram arrebanhar a simpatia de numerosas famílias importantes que sempre estiveram contra seus princípios sem escrúpulos. Deram a saída e como costumam levar vantagem em tudo, com seus bodes expiatórios, hoje voltam a alimentar o velho sonho da perpetuação no poder. Há alguns meses atrás seus pensamentos quanto ao futuro eram negros e assemelhavam-se a profundos e abissais fossos onde atiraram ao longo desse tempo todo, a dignidade, a confiança, a honra, a vergonha e os valores morais dos eleitores, dos pais de famílias, dos jovens e crianças, das mães e donas de casa, dos idosos e, enfim, de toda uma comunidade, uma sociedade. Estão confiantes de que podem trazer de volta, para engrossarem as linhas de frente desse séquito de cobaias das urnas e dos votos eletrônicos, todas aquelas almas e consciências espezinhadas ao longo de mandatos desastrados, corrompidos e sedentos de vingança. Passaram até mesmo a sorrir porque confiam que “O ÚLTIMO FAVOR É O QUE CONTA NA HORA DO VOTO”, como costumam afirmar por aí. Como se o eleitor fosse, eternamente, cobaia desse sistema pervertido por políticos sem caráter e sem uma nesga de consideração por sua gente.
          Ao longo desses anos, acabei me desencantando com a política e os políticos. Generalizei, embora não devesse. Deixei com que o descrédito viesse fincar suas garras em minha consciência como eleitor e ser humano. Quando pensei que a justiça poderia intervir no jogo eleitoral, talvez impedindo que esses profissionais da política com seus processos e deslizes, vies